Os quatro maiores motivos para a justa demissão de Xabi Alonso no Real Madrid
Técnico espanhol deixa Merengues após derrota na Supercopa da Espanha para rival Barcelona
Parecia o casamento perfeito. O Real Madrid precisava de um técnico para substituir o ídolo Carlo Ancelotti, já desgastado e com vontade de trabalhar na seleção brasileira, e Xabi Alonso, campeão invicto dos dois principais títulos da Alemanha, tinha atingido o teto no Bayer Leverkusen. Mas, sete meses depois, tudo ruiu.
Os Merengues confirmaram a demissão do jovem técnico nesta segunda-feira (12). “Em comum acordo entre o clube e Xabi Alonso, foi decidido encerrar seu ciclo como treinador da equipe principal”, escreveu a instituição em comunicado.
A demissão não era uma surpresa. O comandante virou o ano pressionado e sabia que o resultado na Supercopa da Espanha poderia definir seu futuro. Com a derrota para o Barcelona na decisão da competição no último domingo (11), 3 a 2, após um primeiro tempo quase só se defendendo, veio a saída.
Os motivos para a partida são diversos, os maiores deles listados nesta análise da Trivela.
Xabi Alonso falhou em quase tudo no Real Madrid
1. Problemas coletivos e ausência de uma escalação ideal

Imaginou-se, quando contratou o técnico muito influenciado por Pep Guardiola e José Mourinho, que pelo menos a parte tática e o coletivo seriam o ponto forte do time. No fim, talvez tenha sido o pior problema dos vários.
Em sete meses, o Real teve várias caras, diferentes formações (4-2-3-1, 3-5-2-, 3-4-3 e 4-4-2), mas nunca uma equipe titular ideal ou uma unidade coletiva. A saída de bola era muito desorganizada, com erros comuns (como no revés na Supercopa que culminou no primeiro gol) e várias vezes forçada a sair em lançamentos longos — só Courtois deu 34 lançamentos no clássico contra o Atlético de Madrid na última semana.
Ofensivamente, o time pendia muito para o lado esquerdo, pelas presenças de Vinicius Júnior, Mbappé e Bellingham, sem alternativas para equilibrar os ataques pela direita, e dependia do brilho individual de algum dos integrantes do corredor canhoto do que algum movimento sincronizado.
Defensivamente, a pressão no campo de ataque por vezes era facilmente quebrada pela dificuldade de Mbappé e Vini se dedicarem como seus colegas. Com isso, a última linha de defesa ficava desprotegida para passes em profundidade ou já se postava muito recuada, uma abordagem estranha para um técnico espanhol.
Até por isso, conta-se nos dedos as grandes e consistentes atuações coletivas sob comando de Alonso. Ocorreram contra Barcelona, vitória por 2 a 1 em outubro, e Betis, 5 a 1 no primeiro jogo de 2026, mostrando até evolução, mas que não foi o suficiente para segurá-lo no cargo de técnico.
2. Gestão de elenco

Outro fator que chamou atenção em 2025/26, muito diferente do que ocorreria na era Ancelotti, foi a forma como o promissor treinador tratou suas estrelas. Vinicius Júnior, bicampeão da Champions League com gols nas duas finais, virou mais um jogador, quase sempre substituído, mesmo que estivesse bem nos jogos.
Rodrygo passou metade da temporada como reserva porque, ao que aparenta, não queria mais jogar na ponta direita e virou reserva do compatriota na esquerda. Valverde foi outro que, publicamente, expôs que não queria ser mais lateral — mesmo que, posteriormente, tenha voltado a exercer a função que não gosta, assim como o Rayo.
O conceituado site “The Athletic” publicou em outubro passado como as novas regras mais rígidas do técnico espanhol, seja nos aspectos táticos ou de gestão, incomodaram alguns jogadores, acostumados à abordagem mais permissiva de Ancelotti, que ficou no cargo entre 2021 e 2025.
— As mudanças não foram bem recebidas por todos. Diversas fontes próximas aos jogadores do time principal disseram ao The Athletic que um sentimento de frustração tomou conta do vestiário do Real Madrid, com muitos jogadores importantes se sentindo desrespeitados e insatisfeitos — aponta a reportagem.
— Diversas fontes afirmaram que os jogadores estavam chateados por perceberem que agora tinham pouca liberdade para expressar suas qualidades em campo, contrastando a abordagem mais exigente e rígida de Alonso em relação ao estilo da equipe com a forma como as coisas funcionavam sob o comando de Ancelotti.
— Outras fontes consultadas para este artigo disseram que a impressão dos jogadores sobre Alonso era de que ele era distante e inacessível — contrastando, mais uma vez, com Ancelotti, que era muito popular no grupo. ‘Ele acha que é o Pep Guardiola, mas por enquanto é só o Xabi’, disse uma pessoa próxima a um jogador veterano do Real Madrid. Essa comparação com o técnico do Manchester City também foi feita por várias outras pessoas — tanto positiva quanto negativamente.
3. Decisões táticas controversas

A dificuldade coletiva também se deu por escolhas específicas de Alonso. O maior exemplo veio logo no início de sua passagem, na sexta partida sob seu comando contra o PSG na semifinal da Copa do Mundo de Clubes.
Para acomodar Mbappé, voltando de problema físico, ele escalou o time com Gonzalo García, que vinha fazendo uma grande competição, e Vinicius Júnior. O resultado foi um 4 a 0 acachapante com um domínio absoluto do PSG pelos lados do campo, sendo uma das razões pelo trio não voltar para recompor pelas laterais. Poderia ser um problema pontual, ainda entendendo o elenco, mas se repetiu.
A derrota para o Atlético de Madrid, 5 a 2 em setembro, com o rival superior animicamente, veio com a escalação de Bellingham no lugar de Mastantuono, em alta, mesmo com o inglês retornando de lesão em um jogo muito físico.
As decisões com os brasileiros também entram nesse recorte. Rodrygo foi reserva na ponta esquerda por praticamente quatro meses até Alonso perceber que o brasileiro é melhor do que Mastatuono, Brahim Díaz ou qualquer outro que possa jogar pelo lado direito, mesmo que não seja o ideal do Rayo.
As várias substituições de Vinicius Júnior, mesmo em jogos que ele decidia (como no El Clásico), fazem parte das decisões controversas. Até a saída de Endrick por empréstimo ao Lyon, priorizando o inferior tecnicamente Gonzalo García, é algo questionável.
4. Resultados abaixo em jogos grandes

Revezes nos clássicos contra Atlético e Barcelona e a goleada sofrida pelo PSG são só alguns exemplos de outra questão de Alonso: a dificuldade nos maiores jogos.
O Real comandado pelo jovem técnico venceu a maioria dos jogos contra equipes menores — não à toa é vice-líder de LaLiga, só quatro pontos atrás do Barça, e está dentro do top-8 da Champions League –, mas falhou quando teve adversários à altura.
Além dos duelos locais e a semifinal no Mundial, a equipe saiu derrotada quando enfrentou os gigantes ingleses Liverpool e Manchester City. Em ambos, o resultado foi extremamente justo, com os integrantes do Big Six da Premier League superiores.
Alonso se despede do Real tendo o 2 a 1 sobre o Barcelona, há cerca de dois meses, como o maior triunfo, seguido pela vitória pelo mesmo placar sobre o Atleti. Muito pouco para um treinador que prometia demais e um time desse tamanho. Agora, Arbeloa, outro ex-jogador do clube, recebe a missão de comandar o Madrid pelos próximos meses.



