Copa do Mundo

Tensão geopolítica, calor e mais: As 5 perguntas a serem respondidas na Copa do Mundo

Críticas envolvendo vistos, polêmicas imigratórias e até o aumento de seleções são dúvidas que a Copa do Mundo responderá em torneio histórico

A Copa do Mundo de 2026 começa nesta quinta-feira (11), com México e África do Sul fazendo a abertura do torneio depois de uma apresentação musical repleta de artistas. Mas o Mundial da América do Norte chega, também, com diversas questões.

Entre polêmicas políticas, reclamações climáticas e novidades na arbitragem, há questões que preocupam antes de a bola rolar — e que talvez só sejam completamente respondidas depois da taça ser erguida.

Conflito de Estados Unidos contra Irã e imigrantes

Apesar da participação de México e Canadá, os Estados Unidos serão o grande palco da Copa do Mundo. E o torneio ocorre em meio à uma presidência de Donald Trump marcada por repressão contra imigrantes e tensão geopolítica.

O destaque nesse sentido vai para o conflito envolvendo Estados Unidos e Irã. As principais polêmicas pré-Mundial incluem a mudança da base de treinamentos da seleção iraniana para o México devido a problemas na emissão de vistos norte-americanos e o cancelamento da cota de ingressos de torcedores iranianos.

Donald Trump recebeu Prêmio da Paz da Fifa de Gianni Infantino (Foto: Imago/Brazil Photo Press)
Donald Trump recebeu Prêmio da Paz da Fifa de Gianni Infantino (Foto: Imago/Brazil Photo Press)

Pela primeira vez na história das Copas, um país-sede está em guerra ou conflito direto e declarado com outra nação participante. Para o Irã, Isso gerou uma série de obstáculos logísticos e diplomáticos:

  • A Federação Iraniana de Futebol expôs problemas que a delegação teve com vistos, uma vez que vários membros da comissão técnica não foram autorizados a viajar aos EUA;
  • Por conta desses problemas, o Irã decidiu mudar sua base de treinamentos, inicialmente no Arizona, para Tijuana, no México;
  • As polêmicas também envolvem o público: a Federação Iraniana acusou o governo americano de retirar a cota de 8% de ingressos destinados ao seus torcedores.

A tensão geopolítica, no entanto, vai além do conflito com o Irã. Aymen Hussein, destaque da seleção do Iraque, chegou a ser interrogado por sete horas depois de chegar aos EUA para a disputa da Copa do Mundo — situação que gerou grandes críticas ao governo americano.

Críticas também vieram depois de imagens da seleção do Uzbequistão, inclusive seu treinador, o campeão da Copa do Mundo e Bola de Ouro em 2006, Fabio Cannavaro, sendo revistada ao chegar no hotel. Mais recentemente, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan também foi impedido de entrar no país para apitar a Copa, sob suspeita de envolvimento com terrorismo.

Mais do que isso, o torneio ocorrendo em um EUA governado por Trump também gerou debates sobre as restrições migratórias do país, que nos últimos meses teve forças-tarefas para expulsar imigrantes. Houve comparações sobre como a Fifa conduziu o banimento da Rússia em competições anteriores em contraponto ao silêncio sobre as operações militares lideradas por aliados dos EUA no Oriente Médio.

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Calor será um problema na Copa do Mundo?

A Copa do Mundo 2026 também pode ficar marcada por um desafio extracampo: as condições climáticas extremas. Especialistas têm demonstrado preocupação com os impactos do calor e da umidade sobre jogadores, árbitros e torcedores.

A preocupação chegou oficialmente à Fifa em maio por meio de uma carta aberta assinada por cientistas e especialistas em fisiologia do esporte. O grupo argumenta que os protocolos atuais não são suficientes para lidar com cenários de calor extremo e cobra critérios mais transparentes para o adiamento ou remarcação de partidas quando os índices de estresse térmico atingirem níveis perigosos.

A discussão ganhou força após episódios registrados em competições recentes, como o Mundial de Clubes de 2025, que já expuseram atletas a temperaturas elevadas durante partidas disputadas nos Estados Unidos.

Bellingham durante parada para hidratação no Mundial de 2025
Bellingham durante parada para hidratação no Mundial de 2025 (Foto: IMAGO / Sportimage)

Em resposta às críticas, a Fifa ampliou a utilização das pausas para hidratação, permitindo interrupções programadas para que jogadores possam se refrescar e reduzir os efeitos do calor. A medida, entretanto, também gerou controvérsia: existe o argumento de que as paralisações alteram o ritmo natural das partidas e oferecem tempo adicional para orientações táticas das comissões técnicas.

Outro ponto de atrito envolve os próprios torcedores. A política de restrição à entrada de garrafas reutilizáveis em algumas arenas tem sido alvo de críticas de especialistas em saúde pública e grupos de defesa do consumidor. Em um cenário de altas temperaturas, a preocupação é que espectadores permaneçam por longos períodos expostos ao calor intenso antes mesmo do início das partidas.

Muitas lesões vão atrapalhar o espetáculo?

O clima de festa rodeia a Copa do Mundo independente da situação, mas é fato que diversos jogadores cruciais perderão o Mundial por conta de lesões. Somente a seleção brasileira perdeu quatro titulares por conta de questões físicas.

Estêvão, Rodrygo, Eder Militão e, mais recentemente, Wesley foram baixas impactantes para o time de Carlo Ancelotti. Tamanhos problemas fizeram, inclusive, que o treinador mudasse o estilo de jogo do Brasil.

Outras favoritas também foram impactadas com lesões:

  • Hugo Ekitiké, que seria titular da França, rompeu o tendão de Aquiles;
  • Marc-André Ter Stegen, que poderia finalmente sair da sombra de Manuel Neuer, teve uma temporada marcada por instabilidade física e não foi à Copa;
  • Serge Gmabry, seu companheiro, rompeu o músculo adutor da coxa e deixará a Alemanha sem seu camisa 10;
  • Matthijs De Ligt e Xavi Simons são dois destaques dos Países Baixos que também desfalcarão o time;
  • Astros de seleções menores, como Kaoru Mitoma, do Japão, e Dejan Kulusevski, da Suécia, também impactam as chances dessas equipes na Copa.
Neymar durante execução do hino nacional brasileiro
Neymar durante execução do hino nacional brasileiro (Foto: Eduardo Carmim/Sports Press Photo/Imago)

Mais do que desfalques já confirmados, há também os vários jogadores importantes que chegaram ao Mundial “baqueados”. Neymar perdeu amistosos pré-Copa para o Brasil, por exemplo.

Nas outras seleções, Marrocos perdeu Abde Ezzalzouli, destaque ofensivo que foi cortado depois de se lesionar no último amistoso contra a Noruega. Mas Lamine Yamal e Bukayo Saka, na Espanha e Inglaterra, devem perder os primeiros jogos ou jogar sem estarem 100% aptos.

Esse cenário ocorre por conta de um calendário cada vez mais desgastante: pouco período de férias entre as temporadas e mais competições para esses grandes astros, como o novo Mundial de Clubes que ocorreu há um ano. Com torneios internacionais de clubes e seleções (como Eurocopa e Copa América) se intercalando nas temporadas de clubes, as lesões aumentam e, paradoxalmente, os espetáculos podem perder.

As novidades da arbitragem para a Copa vão dar certo?

Em termos de arbitragem, a Copa terá algumas novidades e outros avanços em tecnologias que já existiam. A ideia, claro, é sempre deixar o jogo mais justo e diminuir a velocidade na tomada de decisões, mas pode levar a debates.

A inteligência artificial (IA) estará mais presente na arbitragem. Em janeiro de 2026, a Fifa anunciou uma série de iniciativas em parceria com a Lenovo, o projeto “Football AI”. Na prática, a IA vai ser usada para interpretar rapidamente grandes volumes de dados vindo de câmeras, sensores e sistemas de rastreamento.

A principal tecnologia da arbitragem na Copa do Mundo de 2026 será a evolução do sistema de impedimento semiautomático da Fifa. A ferramenta utiliza câmeras instaladas nos estádios para rastrear a posição dos jogadores e da bola em tempo real, e o sistema coleta até 29 pontos corporais de cada atleta dezenas de vezes por segundo para identificar automaticamente possíveis impedimentos.  Essa função já existia no Mundial passado, mas eram usadas “apenas” 12 câmeras para esse rastreamento.

Outra novidade é a “bola inteligente” da Fifa. As bolas do Mundial terão um sensor interno que enviará dados em tempo real para a central do VAR. O sensor transmitirá informações até 500 vezes por segundo e deve ser crucial para identificar o momento exato do toque na bola em situações de impedimento, por exemplo. Essa tecnologia foi introduzida inicialmente em 2022.

O Mundial de 2026 também terá avatares 3D dos jogadores, que passarão por um escaneamento corporal antes da Copa. Isso permite acompanhar velocidade, aceleração, deslocamento e indicadores físicos dos atletas em tempo real. Os árbitros também terão câmeras corporais, que oferecem imagens em primeira pessoa na visão do juíz em campo.

Copa do Mundo com 48 times vai ser um acerto?

A ampliação da Copa do Mundo de 2026 de 32 para 48 seleções representa uma das mudanças mais profundas da história do torneio e, desde sua aprovação pela Fifa, tem sido alvo de debates intensos dentro e fora do futebol. Pela primeira vez, o Mundial contará com 104 partidas, um salto significativo em relação aos 64 jogos das edições anteriores.

Para os defensores da mudança, a expansão aumenta a representatividade global da competição e oferece a países que raramente tinham chances de classificação a oportunidade de disputar o principal torneio do esporte. Já os críticos enxergam riscos esportivos e comerciais que podem alterar a essência da Copa.

Uma das principais preocupações envolve a qualidade técnica da competição. Com 16 vagas adicionais, mais seleções de nível inferior estarão presentes, o que alimenta o receio de que haja um aumento no número de partidas desequilibradas, especialmente na fase de grupos. O argumento é que a Copa sempre foi marcada por reunir a elite do futebol mundial e que a expansão pode reduzir o nível médio das partidas.

O novo formato também muda significativamente o caminho até o mata-mata. Em vez de apenas 16 seleções avançarem da fase de grupos, como acontecia até 2022, agora serão 32 classificadas. Além dos dois primeiros colocados de cada um dos 12 grupos, os oito melhores terceiros colocados também seguirão vivos na competição. Na prática, isso torna mais fácil alcançar as fases eliminatórias e reduz a margem de erro na primeira etapa do torneio.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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