Copa do Mundo

Por que era Tite foi a que o Brasil mais teve chance de vencer a Copa e como isso se compara com 2026

Carlo Ancelotti chega com um time capaz, mas menos coeso em comparação com 2018 e 2022

A seleção brasileira chega para a Copa do Mundo 2026 como um time sólido, mas que ainda tenta encontrar sua melhor versão. A equipe de Carlo Ancelotti teve bons momentos, jogos ruins e vai ao Mundial com lesões cruciais e indecisões. Muito diferente da era Tite.

Com o ex-treinador de Corinthians, Flamengo e Cruzeiro, o Brasil chegou como um dos favoritos ao título. Por desempenho, padrão de jogo e resultados nos ciclos. Esteve perto e ficou no caminho por detalhes nas duas vezes. Mas foram as duas melhores chances da Seleção desde antes do penta. Diferente de hoje.

O Brasil de Tite merecia mais em 2018

Tite vinha de um título histórico do Campeonato Brasileiro com o Corinthians em 2015 antes de assumir a Seleção em 2016, depois de uma nova era Dunga repleta de polêmicas e resultados ruins. O time mudou completamente depois disso.

Os quase dois anos de ciclo para a Copa de 2018 viram uma seleção brasileira ofensiva, escalada em um 4-1-4-1 bem definido com meias que criavam entrelinhas e pisavam na área, pontas com habilidade para chegar no fundo e cortar para o meio e centroavantes móveis e habilidosos — tudo isso protegido por um Casemiro vivendo grande momento.

Tite com Neymar e Coutinho na Copa de 2018
Tite com Neymar e Coutinho na Copa de 2018 (Foto: Sven Simon/Imago)

A Copa de 2018 foi possivelmente o momento em que Neymar mais teve companhia na sua história com a Seleção. Goleiros entre os melhores do mundo, laterais de alto nível, Thiago Silva como um dos grandes defensores do planeta e Casemiro no auge. Philippe Coutinho foi possivelmente o melhor braço direito do camisa 10, que ainda contava com um Gabriel Jesus goleador com nove participações em gols nos seus seis primeiros jogos com o Brasil.

O problema talvez tenha sido justamente a lesão de Neymar, que fez o principal craque do time chegar à Copa sem plenas condições e ter um Mundial abaixo do esperado, mas ainda impactante. Mesmo assim, o time de 2018 era talentoso, coeso e fez por merecer uma classificação à semifinal, não fossem fatalidades diante da Bélgica.

Não podemos ser saudosistas: o Brasil não apresentou seus melhores padrões defensivos contra a Bélgica. Mesmo que o primeiro gol tenha saído contra, de Fernandinho, em um escanteio, os belgas levaram perigo em contra-ataques de forma que a Seleção não sofria antes. Tanto que o segundo gol sairia dessa forma.

Ainda assim, a equipe de Tite criou o suficiente para vencer. Foram 26 finalizações e ao menos seis grandes chances, contra apenas oito chutes belgas. Thibaut Courtois fez nove defesas, três dentro da área, em uma de suas melhores atuações da carreira.

Era um jogo completamente vencível.

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A seleção brasileira era grande favorita para a Copa do Mundo de 2022

O trauma de 2018 balançou Tite — e, como muitos gostam de enxergar, “enfeiou” o jogo da Seleção. A obsessão por construir um time que pudesse passar por linhas de cinco defensores, grande dificuldade do ciclo anterior, teria feito do Brasil um time mais rígido, na visão desse argumento.

Vinicius Jr. e Neymar durante eliminação do Brasil para a Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022 (Foto: Imago/Ulmer/Teamfoto)
Vinicius Jr. e Neymar durante eliminação do Brasil para a Croácia nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022 (Foto: Imago/Ulmer/Teamfoto)

No entanto, o Brasil simplesmente se tornou uma equipe mais vencedora e se aprofundou ainda mais nos conceitos do Jogo de Posição. O 2-3-5 para atacar ocupava racionalmente os espaços do campo, abria a defesa adversária e criava situações para penetrar com passes, tabelas e corridas em profundidade. Tudo isso enquanto “atacava defendendo”, com laterais e volantes prontos para a contra-pressão.

O resultado foi um ciclo histórico para a Copa do Mundo de 2022. Um título da Copa América 2019 sem Neymar, mas com Gabriel Jesus de ponta-direita, Roberto Firmino como falso nove e Arthur, que não vingou como o esperado, como um dos destaques ao lado de Daniel Alves, o melhor jogador do torneio.

O Brasil ainda chegaria à final da Copa América de 2021, quando perdeu em um jogo duro contra a Argentina, em uma das grandes atuações individuais de Neymar. Em termos de resultado, o ciclo foi quase perfeito:

  • 80% de aproveitamento;
  • Não foi vazado em 33 jogos dos 50 disputados;
  • 37 vitórias;
  • 10 empates;
  • três derrotas;
  • 111 gols marcados (2,2 por jogo);
  • 19 gols sofridos.

Mais do que isso, as únicas três derrotas sofridas no período foram pelo placar mínimo de 1 a 0, incluindo a final contra a Argentina. Foi a melhor preparação para uma Copa na história da seleção brasileira.

O ciclo para 1994, quando foi tetra, foi turbulento e precisou de um Romário salvador. Antes do vice em 1998, uma grande geração teve ótimos resultados, mas não tão sólidos quanto o pré-2022. Antes do penta, em 2002, a Seleção passou por um dos momentos mais conturbados da sua era moderna.

Claro que uma boa preparação não é sinônimo de título, mas é óbvio dizer que, quanto mais bem preparado, melhores são suas chances. E o Brasil era claramente favorito ao título, ao lado de França e Inglaterra, mas com vantagem. Nem mesmo a lesão de Neymar na estreia impactou tanto o time, tamanha sua coesão.

A fatalidade contra a Croácia, nas quartas, foi ainda maior do que diante da Bélgica em 2018. Foram 21 finalizações contra nove dos croatas, quatro grandes chances contra nenhuma, além de 2,55 gols esperados (xG) contra apenas 0,63. Dominik Livakovic fez possivelmente seu melhor jogo da carreira e uma perda de bola no fim resultou no trauma brasileiro.

Time de Ancelotti chega pior para 2026

Muitos dos grandes nomes da Seleção para a Copa de 2026 são os mesmos que estiveram em 2018 e 2022. Mas muitos deles estão em um nível inferior aos Mundiais anteriores. Alisson, Ederson, Danilo, Alex Sandro, Casemiro, Martinelli e Neymar, por exemplo.

Outros estão claramente melhor. Vinícius Júnior e Raphinha se tornaram candidatos à Bola de Ouro desde então, e Bruno Guimarães se solidificou como titular incontestável do Brasil. Mas o ciclo foi quebrado, com diversos testes e incertezas.

A principal dúvida é Neymar.

Sem jogar pela Seleção desde 2023, foi convocado à Copa longe do seu melhor momento e ainda há questionamentos sobre a questão física, antes mesmo de se pensar onde jogaria ou se seria titular.

Carlo Ancelotti durante convocação da Seleção para Copa do Mundo
Carlo Ancelotti durante convocação da Seleção para Copa do Mundo (Foto: Ruano Carneiro / Carneiro Images / Imago)

No mesmo âmbito há as lesões cruciais que impactaram o time. Alisson se recuperou a tempo, mas sofreu com lesões ao longo da temporada. Marquinhos e Magalhães jogarão até o último momento possível no mais alto nível, na disputa do título da Champions League. Caio Henrique, Vanderson e principalmente Militão são laterais que foram cortados por lesão.

Rodrygo e Estêvão foram dois meias indispensáveis durante a era Ancelotti e não irão ao Mundial. A forma do time jogar, inclusive, precisou mudar sem a dupla, saindo do 4-2-4 de aproximação e que priorizava o meio, que teve sucesso em alguns jogos, passando ao 4-3-3 mais tradicional com pontas clássicos.

Sem um modelo de jogo consolidado, com lesões às vésperas do torneio e apenas 10 jogos antes da convocação oficial, é óbvio que Ancelotti chega com um time menos preparado para o Mundial. A história já mostrou que ciclos conturbados podem resultar em títulos, como em 2002 — afinal, são apenas oito jogos, e mesmo partidas ruins podem acabar a seu favor.

Mas a comparação chega a ser desleal. Foi em 2018 e em 2022, principalmente na Copa passada, em que o Brasil esteve mais bem preparado para vencer um Mundial na história recente. Pode ser que 2026 quebre essa sina.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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