Copa do Mundo

Maior argumento a favor do desempenho de Neymar em Copas do Mundo faz sentido? Analisamos

Maior craque brasileiro dos últimos 16 anos terá última chance em Mundiais em 2026

Neymar é o maior artilheiro da história da seleção brasileira em jogos oficiais. Ultrapassou todos os ídolos que foram campeões da Copa do Mundo antes dele e, em determinado momento, concretizou o debate sobre estar entre os melhores jogadores de todos os tempos do nosso país. Mas não conseguiu conquistar o tão sonhado hexa.

Há quem o crucifique por supostos “fracassos” em 2014, 2018 e 2022. Em 2026, terá outra chance, pois foi convocado por Carlo Ancelotti, mas, de toda forma, o principal argumento de quem o defende continua, em tom comparativo: Neymar nunca teve a ajuda que outros grandes craques tiveram, com parceiros de alto nível ao seu lado. Mas essa tese realmente faz sentido?

O contexto histórico: Neymar precisou ser protagonista desde sempre

Quando chega à seleção brasileira, em 2010, logo após uma Copa em que houve reclamação por não ter sido chamado por Dunga, Neymar se depara com um claro momento de entressafra. O Brasil vinha de uma geração vitoriosa de 1998-2002, que envelheceu em 2006 e teve craques que não conseguiram se sustentar depois de 2010.

Em ano de Copa do Mundo, já virou rotina a lembrança das idades em que alguns craques brasileiros disputaram seus últimos Mundiais. Ronaldinho Gaúcho “parou” com 26 anos; Ronaldo Fenômeno, com 29. Kaká tinha 28 e estava lesionado quando era a grande esperança do Brasil em 2010. Adriano, que seria a próxima estrela, só jogou uma Copa, em 2006, com 24 anos.

Neymar e Ronaldinho pela seleção brasileira, em 2012
Neymar e Ronaldinho pela seleção brasileira, em 2012 (Foto: IMAGO / Ulmer)

É fato que Neymar poderia ser ajudado por mais algum tempo antes de precisar ser o salvador da pátria.

Desde que estreou, em agosto de 2010, demorou cinco anos para ser reserva pela primeira vez, em um amistoso contra Honduras imediatamente antes da Copa América de 2015.

Neymar só começou no banco cinco vezes nos 128 jogos em que disputou com a seleção brasileira. Isso reflete como foi necessário a todo momento e pode corroborar com o argumento de que não teve ajuda suficiente. Ainda mais pensando que sua primeira não-titularidade veio até depois da sua primeira Copa do Mundo.

O problema brasileiro dos craques que ‘param’ cedo

Na Copa de 2014, seria plenamente plausível imaginar que nomes gigantes como Kaká (que teria 32 anos, e até foi cotado para o Mundial), Adriano (também 32) e Ronaldinho Gaúcho (34) ainda estariam em condições de participar do torneio. Se não em seu auge, pelo menos contribuindo durante o ciclo.

Isso sem falar em promessas que não vingaram tanto quanto o esperado, por diferentes motivos. Robinho se tornou um grande jogador, mas sequer perto do nível de Bola de Ouro que se esperava, e era visto como mentor de Neymar. Poderia ser importante tê-lo do lado.

Alexandre Pato nunca disputou uma Copa do Mundo, mesmo sendo uma promessa gigantesca desde 2008, quando estreou na Seleção aos 19 anos e com gol. Lesões o atrapalharam grandemente e o limitaram a apenas 27 jogos com o Brasil, mas foram 12 participações em gols. Se saudável e atingindo o nível perto do esperado, dividiria protagonismo com Neymar e seria crucial para os ciclos de 2010, 2014 e 2018 pelo menos. Em 2018, ainda tinha 29 anos.

Paulo Henrique Ganso surgiu na mesma época de Neymar e tinha até mais holofotes, com torcida e imprensa o colocando acima do atacante em termos de potencial na época. Diversas lesões minaram sua projeção no mais alto nível e, se saudável, definitivamente seria o líder criativo do Brasil em pelo menos três Copas do Mundo.

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Os craques do passado tinham mais ajuda?

Analisar Copas passadas com um olhar atual pode ser enviesado, mas as gerações eram possivelmente melhores de fato. No ciclo de 2002, por exemplo, Cafu e Roberto Carlos já eram tidos como os melhores laterais da história. Emerson e Gilberto Silva eram jovens que se consagraram em alto nível na Europa e se tornaram cruciais para seus times. Alex era possivelmente o melhor meia do futebol brasileiro, e por aí vai.

O ciclo ainda teve ajuda de grandes nomes veteranos, como Mauro Silva, Leonardo e Romário, remanescentes do tetra de 1994. Mesmo que não tivessem ido à Copa, é o tipo de ajuda que a Seleção não teve na era Neymar — porque quase todos pararam antes.

Mas também é justo dizer que, na Copa, Ronaldo teve mais ajuda do que Neymar conseguiu em toda a sua carreira internacional.

Além dos dois maiores laterais de todos os tempos, por exemplo, Rivaldo, Bola de Ouro de 1999 e um dos melhores do mundo, estava em plena idade para ser impactante (e performou melhor que o Fenômeno na Copa). Ronaldinho, mesmo com 21 anos, já era consolidado no PSG e no ano seguinte faria história no Barcelona.

Seleção brasileira campeã do Mundo em 2002
Seleção brasileira campeã do Mundo em 2002 (Foto: IMAGO / Ulmer)

Em 1998, Ronaldo já era Bola de Ouro mesmo com apenas 21 anos, mas teve grandes nomes ao seu lado em todo o ciclo para a Copa. Romário, Bebeto, Edmundo e Müller eram só os atacantes. Leonardo, Rivaldo, Raí, Dunga, Mauro Silva e César Sampaio eram nomes gigantes para o meio-campo. Era um time mais estrelado.

A comparação pode ir até os anos 1960. Pelé venceu três Copas do Mundo rodeado de craques históricos. Em 1958, por exemplo, sequer foi o destaque brasileiro — mesmo chocando o mundo aos 17 anos — porque tinha Didi que destruiu naquele Mundial, além de nomes como Nilton Santos e Garrincha.

Em 1962, o time era bom o suficiente para que, sem Pelé, ainda assim fosse campeão, com Garrincha como maior destaque e Vavá, substituto de Pelé, artilheiro. O time estrelado de 1970 dispensa comentários, com lendas da história brasileira dispostas em cada posição. É óbvio dizer que Neymar jamais teve apoio perto desse nível.

As promessas que não conseguiram acompanhar Neymar na seleção brasileira

Diversos mini-craques surgiram no futebol brasileiro na década passada. Muitos foram à Seleção e até chegaram a ser importantes, mas outros não se consolidaram. E há o argumento de que mesmo os importantes não sustentaram o alto nível.

Gabriel Jesus é um bom exemplo. Astro adolescente no Palmeiras, começou voando no Manchester City e teve ótimas temporadas na Europa de modo geral. Foi crucial no fim do ciclo para a Copa de 2018 e foi crucificado por um Mundial sem gols, mesmo que tenha sido muito importante em diferentes áreas.

Jesus começou com cinco gols e quatro assistências nos seus seis primeiros jogos na Seleção, em 2016, com apenas 19 anos. Depois da Copa, abriu o ano de 2019 com cinco gols em três jogos com o Brasil. Foi crucial na conquista da Copa América, com quatro participações em gols somando semifinal e final, além do título, jogando como ponta.

Neymar, Oscar e Lucas nas Olimpíadas de 2012
Neymar, Oscar e Lucas nas Olimpíadas de 2012 (Foto: IMAGO / Fotoarena)

No entanto, desde a final da Copa América de 2019, marcou apenas um gol, em um amistoso contra a Coreia do Sul em 2022. Foi para o Catar como reserva e lesionou o joelho. Desde então, não esteve consistentemente saudável e mesmo importante pelo Arsenal, caiu de rendimento. Era para ser o atacante principal do Brasil, mas não sustentou o nível.

Lucas Moura é outro exemplo curioso. Campeão da Sul-Americana com o São Paulo e comparado com Neymar no início dos anos 2010, era visto como a futura dupla do então santista na Seleção: um na esquerda, o outro, na direita. Lucas foi ao Paris Saint-Germain cheio de expectativa e teve altos e baixos.

Em sua primeira temporada completa no PSG, jogou 36 dos 38 jogos na Ligue 1, com 18 participações em gols. Os números se mantiveram constantes e perto disso durante quase toda a carreira, até mesmo quando foi ao Tottenham. A questão é que Lucas nunca “explodiu” como Neymar. Teve atuações interessantes, momentos icônicos, mas sequências fora do radar e perda de espaço na seleção.

A geração das Olimpíadas de 2012, por exemplo, teve Danilo e Alex Sandro como exemplos positivos de jovens que se sustentaram no alto nível e na Seleção por uma década, e Oscar, que foi um dos grandes parceiros de Neymar no ciclo para a Copa de 2014. Mas, mesmo em crescimento no Chelsea depois da Copa, optou por se transferir ao futebol chinês no meio da temporada 2016/17, quando perdeu espaço pela primeira vez no clube.

Oscar tinha 25 anos quando foi para a China e, desde então, mesmo sendo ídolo no Shanghai Port, tomou um rumo que o afastou do alto nível e consequentemente da seleção brasileira — o que pode ser visto como um desperdício de um dos principais braços direitos de Neymar na década.

Nas Olimpíadas de 2016, a safra já brilhava mais os olhos, mas também teve diversos jogadores que não chegaram ao mais alto nível. Rodrigo Caio fez grande dupla com Marquinhos, mas, diferente do companheiro, perdeu o timing da ida à Europa e sofreu com lesões que impediram a evolução. Zeca era grande promessa na lateral, mas foi outro que não vingou.

O ataque era estrelado. Além de Neymar e Jesus, Gabigol, Luan e Felipe Anderson eram grandes promessas. O primeiro foi para a Inter de Milão naquele mesmo ano, mas não se adaptou à Europa e, mesmo sendo um grande centroavante no futebol brasileiro nos últimos anos, nunca chegou ao nível que se esperava.

Luan foi o craque da Libertadores do ano seguinte e, imediatamente depois, caiu de nível de maneira absurda. Polêmicas extra-campo também não ajudaram. Era um ataque que, se conseguisse chegar perto do seu potencial, dividiria o peso de criação e gols do camisa 10.

Olhando em retrospecto, é fácil concordar que Neymar não teve grandes nomes que o apoiaram de forma consistente. Teve “flashes” de Oscar, Gabriel Jesus e Philippe Coutinho, por exemplo. Mas nunca pôde contar com as promessas do mesmo nível que ele quando surgiram, como Lucas, Ganso e Pato, e nem com os craques que pararam antes, por diferentes motivos, como Kaká, Ronaldinho e Adriano.

Quem são os craques de 2026

Em 2026, pela primeira vez, Neymar jogará uma Copa com um melhor do mundo. Vinicius Júnior, eleito pela Fifa na temporada 2023/24 como o maior destaque do planeta pelo papel decisivo no título da Champions League pelo Real Madrid, ainda não conseguiu replicar o mesmo nível de clubes com a camisa da Seleção.

Ele é um dos craques que o camisa 10 do Santos terá ao lado no Mundial deste ano. Raphinha, do Barcelona, é outro, pois tem sido um dos jogadores com maior nível na Europa desde a última temporada e já teve bons momentos com o Brasil.

Endrick, provavelmente reserva, é um jogador que promete, no futuro, ser um dos principais destaques do mais alto nível. Agora, porém, ainda não é esse nome. Estêvão, se não tivesse sido cortado por uma lesão, teria status parecido.

A diferença para a edição de 2026 é que Neymar chegará de uma forma inédita: não é o principal jogador do time, nem ao menos titular. Ele terá que aceitar o banco de reservas e precisará mostrar muito para roubar a vaga do meia ou do centroavante. A Seleção estreia no Mundial em 13 de junho, contra o Marrocos. Depois, enfrenta Haiti e Escócia.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.
Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius AmorimRedator

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.

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