Qual foi o papel tático de Neymar nas últimas Copas do Mundo e como ele deve jogar em 2026?
Ponta, camisa 10 clássico e falso nove: Neymar passou por diferentes funções e pode resgatar ideia de 2012 na próxima Copa
Neymar terá sua última chance de conquistar uma Copa do Mundo na edição de 2026 do Mundial. De um jovem de 18 anos que recebeu as chaves da seleção brasileira e a pressão desde cedo para levar o país ao hexa até uma última dança como um possível coadjuvante, Neymar passou por muita coisa com o Brasil.
As mudanças no ciclo para a Copa de 2014 mexeram em sua função, e o período pós-Barcelona o transformaram cada vez menos em ponta tradicional e mais em criador. Agora, Carlo Ancelotti chegou a colocá-lo como um “atacante central”.
Para entender como o camisa 10 do Santos deve jogar na Seleção atual, que teve boa parte do ciclo sem sua presença, é importante entender quais as funções táticas ele já desempenhou com a camisa do Brasil.
A estreia de Neymar em Copas do Mundo, já longe da ponta
Em 2014, já existia o debate sobre a “Neymar-dependência” na seleção brasileira. Em sua primeira Copa do Mundo, diferente do que a lembrança pode nos trazer, ele ja era um camisa 10, mais armador do que ponta. E era o ponto focal do time de Felipão.
Scolari montou o Brasil em um 4-2-3-1 seguro e menos ousado do que Mano Menezes, antigo treinador da Seleção — Mano havia testado até um 4-4-2 com Neymar e Kaká como falsos noves em 2012. Felipão solidificou uma defesa com dois grandes zagueiros em Thiago Silva e David Luiz, e Luiz Gustavo como o cão de guarda que protegia a defesa com as subidas de Marcelo e Daniel Alves.
Nesse contexto, Neymar passou a cair mais pelo meio e era o meia-atacante do 4-2-3-1, atrás de Fred, um pivô clássico. Curiosamente, Oscar, um meia por natureza, passou a jogar na direita, enquanto Hulk, ponta-direita agudo e explosivo, jogava majoritariamente na esquerda. Isso ainda mudou: Ramires jogou na direita contra o México e Oscar foi para a esquerda, e acabou trocando mais com Neymar ao longo do jogo.
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A ida de Oscar para a esquerda perdurou e Hulk acabou indo para a sua tradicional direita. O camisa 11 intercalava seu posicionamento com Neymar e liberava o lado para os momentos mais individuais de ponta clássico, mas a prioridade do então jogador do Barcelona era criar pelo meio. O jogo contra o Chile, nas oitavas de final, foi o que teve Neymar mais ponta do que nunca, com Hulk, novamente pela esquerda, abria espaço.
O camisa 10 mostrava flashes do articulador que se tornaria de fato no futuro. Atuava principalmente no meio-espaço esquerdo, descendo para receber a bola e sendo acionado entrelinhas para criar com dribles, tabelas e finalizações. Naquela Copa foi, de longe, a principal arma ofensiva do Brasil.
Em 2013, quando venceu a Espanha de forma surpreendente na final da Copa das Confederações, Felipão falou sobre sua admiração pelo Bayern de Munique de Jupp Heynckes, campeão da Champions League e que havia goleado o Barcelona naquela edição do torneio. O treinador brasileiro, tido como conservador e defensivo, na verdade implementou uma espécie de gegenpressing na Seleção.
A decisão por colocar Neymar no meio e fazer dele literalmente o centro das atenções no ataque resultou em números. Em cinco jogos até sua lesão, contra a Colômbia, o camisa 10 teve:
- 18 chutes a gol;
- 13 chances criadas para os companheiros;
- 241 toques no campo adversário.
Todos os maiores números, com folga, da Seleção. Mas também foi o terceiro jogador em toda a Copa com mais posses perdidas por jogo (23), o que simboliza a concentração do time em seus pés.
O ano era 2014. Copa do Mundo no Brasil. A Croácia vencia por 1 a 0 quando Neymar achou essa bela finalização.
O primeiro gol dele em Copas.
Nostálgico! pic.twitter.com/tT4yhZlLkK
— Trivela (@trivela) January 12, 2025
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Em 2018, Neymar dividiu responsabilidades com Coutinho
Provavelmente o melhor braço direito do camisa 10 em seus quase 16 anos de seleção brasileira, Philippe Coutinho foi crucial no ciclo para a Copa do Mundo de 2018. Como um meia criativo e que naturalmente caía pela esquerda, dividiu as responsabilidades ofensivas com Neymar.
No 4-3-3 clássico de Tite, o Brasil se transformava em um 2-3-5 com a bola que priorizava triangulações pelos lados, com claro foco pela esquerda. Coutinho era um meia no meio-espaço esquerdo que descia para buscar a bola na primeira fase de construção e abria espaço para Neymar cair da lateral para o meio.
Essa combinação gerava o que no Jogo de Posição se chama de vantagem qualitativa. As combinações de Coutinho, Neymar, Marcelo e a aproximação de Gabriel Jesus geravam linhas de passes curtos entre jogadores muito habilidosos e com grande entrosamento, o que muitas vezes era o suficiente para furar bloqueios.
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Curiosamente, Neymar foi mais “ponta” em 2018 do que em 2014. Apesar da engrenagem com Coutinho fazê-lo cair pelo meio-espaço, seu posicionamento inicial era mais aberto na esquerda. Ate mesmo quando Marcelo subia, o que acontecia com frequência, ele dava opção entrelinhas, mas muitas vezes atacava a profundidade em diagonal, voltando para o lado.
Diferentemente da Copa no Brasil, em que foi um meia-atacante com muita liberdade, Neymar foi um ponta invertido criador. Ter Coutinho como um meia que descia, abria para o lado quando Neymar aparecia pelo meio e dava suporte para entradas no último terço foi crucial para tirar o peso do camisa 10, que foi à Copa se recuperando de lesão.
Apesar da crítica internacional pelas “alegorias” quando sofria falta e a alcunha de “cai-cai”, Neymar fez uma Copa sólida, mesmo que com menos destaque do que em 2014. Foi o líder do torneio em finalizações por jogo e chutes certos, além de ter sido o jogador com mais passes-chave por jogo no Mundial.
Transição final para um meia criador em 2022
A preparação para a Copa do Catar foi quase perfeita para a seleção brasileira. Um dos melhores ciclos da história do Brasil em termos de resultado e coesão, o time de Tite se transformou numa equipe muito difícil de ser penetrada, sólida defensivamente e com grande poder ofensivo, apesar do argumento de que “perdeu o brilho” do ciclo anterior.
Em 2022, já sem Coutinho e com Vinícius Júnior pedindo passagem, Neymar fez a transição final para se tornar um meia. A formação da Seleção pode ser interpretada de diferentes maneiras: 4-3-3, com Neymar como um dos meias; 4-2-3-1, com o camisa 10 como esse meia central atrás do centroavante; ou 4-2-4, com Neymar como um falso nove. A nomenclatura é irrelevante, no entanto.
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A função de Neymar no Catar era clara: era o foco criativo da equipe entrelinhas, atuando majoritariamente no meio-espaço esquerdo, mas com liberdade para cair pelo lado e flutuar pela zona 14 — a região mais perigosa do campo, em frente à meia lua.
Vini era um ponta mais tradicional do que Neymar já foi em toda a carreira: buscava o lado com mais frequência e precisava de espaço para correr nas costas da defesa. Neymar aproveitava um Alex Sandro que subia pouco e um Vini que buscava atacar a profundidade para operar na região que “sobrava” pela esquerda como um clássico camisa 10.
O Brasil era um time muito criativo com Raphinha e Paquetá pela direita e Neymar e Vini pela esquerda, e Richarlison como um camisa 9 que alternava entre trabalhos de pivô e ataques à área. Dois pontas tradicionais que agarravam as linhas e dois meias criativos e associativos.
Era um time mais dominante com a bola, que pressionava alto para recuperá-la e apostava no controle por dentro com duelos individuais pelos lados com pontas desequilibrantes e Neymar para criar espaço a partir de dribles e tabelas — e se ele próprio tiver espaço, lançar companheiros como um armador clássico.
Como Neymar deve jogar na Copa do Mundo de 2026?
Neymar se tornou efetivamente mais meia criador do que atacante nos últimos anos, principalmente com as lesões que frearam seus aspectos físicos mais predominantes no início da carreira. Não é mais um jogador explosivo como antes.
Inicialmente, a ideia de Carlo Ancelotti para o 4-2-4 que deu certo no Brasil passava por dois meias tradicionais atuando pelos lados. Os dois se aproximariam do meio e o foco da progressão se dava pela região central, com tabelas e dribles em curto espaço — quase uma ode ao futebol brasileiro “tradicional”.
Sem Rodrygo, essa ideia caiu por terra. Martinelli e Vinicius Júnior não têm características parecidas e o sistema ruim. Depois, foi a vez de Estêvão se lesionar e, em uma Copa sem os dois, é difícil que essa ideia volte a aparecer. Rodrygo, na prática, era uma versão mais jovem, ágil e em alto nível do que Neymar é hoje em dia.
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Neymar poderia ser esse meia pela esquerda que se torna um criador pelo meio. Seria algo semelhante ao que já fez praticamente em todas as suas participações em Copas.
O italiano convocou dois pontas tradicionais para cada lado: Vini e Martinelli para a esquerda, Luiz Henrique e Rayan para a direita. Raphinha tende a ser visto como um meia, assim como Paquetá e, às vezes, Matheus Cunha. E Ancelotti disse em entrevista coletiva que Neymar seria “um atacante central”.
Isso implica que, na teoria, Neymar brigaria pela posição com Matheus Cunha no ataque. O jogador do United é o principal centroavante do time, mas jogou em todo o ciclo como falso nove — e até como um dos meias no 4-3-3 contra a Croácia. A ideia de Ancelotti pareceu sempre passar por um atacante móvel, que baixa para ajudar na criação. Neymar ofereceria isso, na visão dele.
Há duas contrapartidas dessa visão: Igor Thiago e Endrick. O primeiro é uma opção mais tradicional de camisa 9: alto, forte, pivô e que briga na área. O segundo, o oposto: baixinho, veloz, explosivo e que, ainda que habilidoso em associação, vai muito bem atacando espaços. São duas possibilidades diferentes para a ideia inicial, que parece ser o falso nove.
No fim, ao que Ancelotti dá a entender, Neymar seria o falso nove em um 4-3-3 como no jogo contra a Croácia: dois meias à frente de Casemiro e dois pontas tradicionais. Se treinar bem e merecer ser titular, pode tirar Matheus Cunha do time, ou até mesmo Raphinha, com Cunha se tornando esse meia pela esquerda como foi anteriormente.
Em sua última Copa, Neymar pode encerrar uma transição curiosa de uma carreira em que já passou por tudo. De segundo atacante móvel a falso nove, ponta tradicional, atacante-criador e camisa 10 tradicional.