Copa do Mundo

Cristiano Ronaldo do povo, Khusanov é a celebridade idolatrada que lidera o novo Uzbequistão

Badalado, zagueiro virou celebridade no seu país e comanda seleção da Ásia Central no maior palco do futebol mundial

Pela primeira vez na história, um país da Ásia Central se classificou à Copa do Mundo. E a presença do Uzbequistão no principal torneio da Fifa só foi possível graças aos milhões gastos em infraestrutura, academias, campos e centros de treinamento nos últimos anos. E os altos investimentos já resultaram em um jovem craque que estampa os outdoors do país para representar a seleção: Abdukodir Khusanov.

Enquanto as favoritas ao título na América do Norte depositam suas esperanças nos craques ofensivos, o povo uzbeque se reúne para celebrar o futebol de um zagueiro. E a idolatria a Khusanov não é injustificada, já que ele se tornou o primeiro jogador de seu país a jogar na tão badalada Premier League, quando se juntou ao Manchester City, em janeiro de 2025.

Desde então, o defensor de 22 anos se tornou em uma celebridade em seu país. Até mesmo quem não acompanha futebol conhece Abdukodir Khusanov, que virou uma espécie de Cristiano Ronaldo local. Contudo, enquanto o astro português é aplaudido por seus gols, o camisa 2 da seleção arranca suspiros das arquibancadas a cada dividida, desarme e lançamento.

Abdukodir Khusanov  pela seleção uzbeque (Foto: Imago/Sebastian Frej)
Abdukodir Khusanov pela seleção uzbeque (Foto: Imago/Sebastian Frej)

Fora de campo, um exemplo da imponência de Khusanov como figura midiática pôde ser vista em seu casamento. A cerimônia luxuosa realizada em maio do ano passado, na capital Tashkent, foi amplamente divulgada pela imprensa local. E quando o zagueiro comemorou o nascimento de seu primeiro filho, em março deste ano, o site “Zamin.uz” noticiou a informação com entusiasmo.

— Muitos desejam que o recém-nascido cresça e se torne tão forte, determinado e uma pessoa que honre o país perante o mundo como seu pai. Em nome da redação do Zamin.uz e de inúmeros torcedores de futebol, parabenizamos Abdukodir Khusanov por seu novo sucessor! — começou o informe.

— Que seus passos sejam abençoados e que ele cresça para ser um filho virtuoso que traga misericórdia aos seus pais! — concluiu a nota.

O novo Uzbequistão e o peso do futebol

Desde a independência da União Soviética em 1991, o Uzbequistão ficou conhecido pelo mundo por ser uma nação reservada, com repressão dos direitos humanos e assassinatos de opositores políticos. Contudo, a percepção do país passou a mudar a partir de 2016, com a morte do então presidente Islam Karimov e a mudança de regime. E o futebol tem desempenhado um papel crucial nessa nova era.

O sucessor Shavkat Mirziyoyev, que havia sido primeiro-ministro no governo de Karimov, aproveitou da popularidade do esporte entre os uzbeques para fortalecer a seleção desde a base. O governo garante que dobrou as verbas destinadas à pasta nos últimos quatro anos, passando de 115,4 milhões de dólares a 230,8 milhões de dólares (cerca de R$ 586,3 milhões a R$ 1,1 bilhão na cotação atual).

Nos gramados, o Uzbequistão adotou filosofias de treinamento com ênfase no futebol técnico, vertical e ofensivo, por meio de treinadores encarregados de formar jogadores de elite desde jovens. Não à toa, as seleções juniores foram surpresas nas principais competições dos últimos anos.

No Mundial sub-17 disputado em 2023, a seleção uzbeque empatou com a Espanha na fase de grupos e eliminou a Inglaterra nas oitavas de final. Nas quartas, caiu para a França em uma derrota apertada por 1 a 0. Na edição do ano passado, ganhou do Paraguai e da Croácia antes de parar na Itália num 3 a 2 eletrizantes nas oitavas.

Já o Uzbequistão sub-20 foi campeão da Copa da Ásia em 2023 e chegou às oitavas de final da Copa do Mundo da categoria no mesmo ano. Nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, a seleção sub-23 participou da competição pela primeira vez em sua história, mas acabou eliminada na fase de grupos para Espanha, Egito e República Dominicana.

A Superliga do Uzbequistão, onde boa parte da seleção ainda joga, também tem recebido esforços para melhorias, inclusive com isenções fiscais oferecidas a jogadores de alto nível e um apelo por aportes financeiros privados para elevar a qualidade das atuações. Com maior competividade local, os atletas estarão prontos para o salto à próxima prateleira no futebol estrangeiro.

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Khusanov é o rosto do projeto em consolidação

Embora o atacante Eldor Shomurodov, capitão e maior artilheiro da seleção uzbeque, tenha sido o primeiro jogador do país a ter sucesso nos principais palcos europeus — inclusive sendo campeão da Conference League com a Roma em 2021/22 –, o defensor dos Citizens se tornou o rosto do projeto por sua evolução exponencial.

Em três anos, o zagueiro saiu do Energetik, de Belarus, para o Lens, da Ligue 1. Abdukodir Khusanov fez parte da seleção sub-20 campeã continental e das Olimpíadas na França. Ao mesmo tempo, fez a estreia no Uzbequistão principal ainda em 2024, participando da Copa da Ásia e sendo peça recorrente na campanha que se encerrou nas quartas de final.

O brilho precoce no Lens convenceu o Manchester City a pagar 40 milhões de euros (cerca de R$ 250 milhões à época) pelo zagueiro, que, depois de um período de oscilações em meio à adaptação ao futebol inglês, virou peça importante na rotação, emplacando sequências como titular. Até aqui, o uzbeque foi campeão da Copa da Liga Inglesa e da Copa da Inglaterra.

Khusanov tem servido como inspiração para a geração mais nova do Uzbequistão ao se destacar na Premier League e na Champions League em um gigante do tamanho dos Citizens. O defensor pode não ser o último jogador do país a conquistar o estrelato nas cinco principais ligas do continente e alcançar um status tão glamuroso.

Só que Abdukodir Khusanov ficará para sempre marcado na história da seleção uzbeque como a primeira grande estrela de reconhecimento mundial.

O papel do camisa 2 na Copa do Mundo

Khusanov em ação durante Uzbequistão x Irã pelas Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo (Foto: Imago/Sebastian Frej)
Khusanov em ação durante Uzbequistão x Irã pelas Eliminatórias Asiáticas para a Copa do Mundo (Foto: Imago/Sebastian Frej)

Com 1,86m de altura, o zagueiro é conhecido por sua velocidade e imposição física, tanto nos duelos corpo a corpo como nas jogadas aéreas. Além das capacidades defensivas, Khusanov também é um especialista no jogo com os pés, sendo um dos responsáveis por dar início à transição ofensiva do Uzbequistão.

Seja em toques curtos ou passes longos, o camisa 2 da seleção tem ótimo controle de bola e lidera a primeira linha à frente do goleiro. Em um sistema de três zagueiros, Abdukodir Khusanov é quem traz segurança e estabilidade ao sistema montado por Fabio Cannavaro.

Ao longo do ciclo da classificação inédita à Copa, o defensor jogou os seis jogos da segunda fase das Eliminatórias Asiáticas, além de oito das 10 partidas da terceira e última fase. Khusanov ajudou a seleção uzbeque a terminar como a melhor defesa do Grupo A com apenas sete gols sofridos.

Nos Estados Unidos, México e Canadá, o zagueiro será mais importante do que nunca. Com o Uzbequistão no Grupo K ao lado de Portugal, República Democrática do Congo e Colômbia, Abdukodir Khusanov é o jogador chave da seleção que tentará surpreender. Desta vez, na Copa do Mundo.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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