Copa do Mundo

Brasil sem hexa e mais: Mauro Beting fala sobre Copa do Mundo e fama de ‘neymarzete’

Das cutucadas amistosas em Neto e Casagrande à defesa de Neymar, jornalista opina sobre a seleção brasileira no Mundial

Há 20 anos, Mauro Beting cobria uma Copa do Mundo pela Trivela, onde também era colunista. Foi assim que quis começar a entrevista exclusiva com a reportagem sobre o Mundial de 2026, antes de dizer que a seleção brasileira não será campeã nos Estados Unidos, México e Canadá.

Agora, como novo creator Betfair e prestes a comentar uma Copa ao lado de Galvão Bueno — e completar a “Santíssima Trindade” dos narradores –, o jornalista advoga por Neymar, relembra a injustiça de Dunga por não tê-lo chamado em 2010 e, mesmo defendendo Carlo Ancelotti como selecionador, entende que o time poderia estar entregando mais desempenho.

O otimismo racional de Mauro Beting para o Brasil na Copa do Mundo

Pegando o gancho de 2006, Mauro está mais “pé no chão” em sua avaliação nos dias de hoje em comparação com aquela época. Segundo ele, de lá para cá, o Brasil deixou de ser favorito às Copas que disputou, mas não por demérito de treinadores ou cartolas — afinal, como relembrou, “o Brasil foi campeão com Ricardo Teixeira duas vezes”.

Desde 2002, cada Copa tem um campeão diferente e nunca houve uma alternância de poder tão grande como no cenário atual, apesar da chegada francesa nas últimas três edições. Para o jornalista, o crescimento alheio é também um motivo para a falta de favoritismo brasileira.

“A riqueza étnica do Brasil, para o futebol, é algo maravilhoso. A França, que para mim é a grande seleção deste século, em 2018, quando campeã, dos 23 chamados, 16 jogadores ou eram nascidos fora da França, ou pais ou avós. E essa riqueza étnica também está moldando a França”, começa.

Mauro Beting palpita sobre a Copa do Mundo da seleção brasileira
Mauro Beting palpita sobre a Copa do Mundo da seleção brasileira (Foto: Divulgação/Betfair)

O “amadurecimento” do futebol é outro motivo, na visão de Mauro Beting. Por conta da disseminação de informação abrangente da atualidade, é possível saber, por exemplo, como o goleiro de Togo bate um tiro de meta, de tão detalhada a possibilidade do conhecimento que uma delegação pode ter. Isso torna o jogo mais estudado e parelho do que antes.

“Acho que o Brasil, pelos nomes que tem e pelo Ancelotti, vai fazer uma Copa melhor do que encomenda. Isso é um ajuste de expectativa, mas, para mim, vai até a semifinal. Pelo chaveamento, se o Brasil for primeiro do grupo, vai até a semifinal e perde para Portugal, que passa da Argentina”, palpita.

Mesmo sem um palpite de título, Mauro vê o trabalho do técnico italiano como positivo, apesar de ter ressalvas. Ele defende o treinador no âmbito da escolha de jogadores, mas cutuca a falta de bom desempenho de forma mais consistente:

“Em termos de desempenho, acho que dava um pouquinho mais. Em termos de convocação, não. Toda convocação, eu faço a minha lista, senão vamos parecer meus amigos Casão (Walter Casagrande) e Neto, que convocam mais que o exército, mas não mudaria muita coisa e nem dá para mudar muito. Mas acho que pelo que ele tem de potencial, o trabalho do Ancelotti poderia estar melhor”.

A diferença entre comandar clubes e seleções também entra em pauta — e essa é a primeira experiência do italiano a frente de um país. Beting lembra Zagallo, campeão como treinador em 1970 e que teve sucesso comandando a seleção, mas não replicou esses bons resultados de forma convincente em clubes.

Vinicius Júnior e as individualidades da Seleção

Durante a conversa, Mauro reforça sua opinião de que quem ganha jogos, e Copas, são os jogadores. Relembra Paolo Rossi em 1982, depois de mais de um ano suspenso e que começou a Copa muito mal, calhou de destruir contra o Brasil e se tornar o melhor jogador do Mundial com apenas três bons jogos decisivos. No cenário atual, usa o exemplo de Vinicius Júnior.

Vinicius Júnior durante amistoso da seleção brasileira (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)
Vinicius Júnior durante amistoso da seleção brasileira (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

“Na história do futebol mundial, nunca um jogador que é o Ballon d’Or, Fifa The Best, o que for, jogou tão pouco com a seleção como Vini. E agora, pela experiência que tem, pelo Ancelotti que o treina, que fez o melhor dele no Real Madrid…”, reflete o jornalista.

Vini é amplamente elogiado, apesar da análise sobre seu sumiço na Seleção. É colocado como o “Muhammad Ali do futebol”, também pelo que enfrenta fora de campo e como se posiciona. “No começo eu achava até ele usava uma camisa de força tática do Tite”, diz, antes de recordar que já passaram quatro treinadores desde a última Copa, mas Vini seguiu sem performar.

Para Mauro Beting, Copa do Mundo não se vence apenas com momento, mas com experiência comprovada. E o Brasil ideal do jornalista é escalado com: Alisson; Éder Militão, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Estêvão, Raphinha, João Pedro e Vinicius Júnior.

Ainda assim, relembra que o time que começa a Copa nem sempre é o que vai ter os melhores jogos e nem o que vai chegar até o final. Em 2002, por exemplo, Felipão sequer começou o Mundial com três zagueiros.

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Mauro Beting ‘Neymarzete’?

Há quem diga que o jornalista é “amiguinho” do camisa 10 do Santos. Ele não esconde a clara proximidade — afinal, escreveu uma biografia sobre Neymar e seu pai. Mesmo que tenha havido discordâncias ao longo do caminho, o próprio admite: prefere ser amiguinho do que inimigo.

“Eu, como brasileiro e apaixonado por futebol, quero ver o Neymar na Copa. Mas eu quero ver o Neymar enquanto Neymar, não como uma possibilidade de Neymar, que é o que tem acontecido até o momento que a gente está conversando aqui. Ele não está conseguindo jogar. E não porque ele não queira, não porque falta de foco, é porque não está dando, infelizmente. Os números até são bons, mas para o nível absurdo dele, é pouco“.

Até o dia 18 de maio, quando Ancelotti anunciará a lista final para a Copa do Mundo, ainda é necessário considerar o camisa 10, na visão do jornalista. E ter uma Copa sem Neymar e Endrick, por exemplo, pode ser impactante não só como jogadores, mas como figuras com ligação com a torcida.

Mauro se coloca como suspeito para falar de Endrick. Palmeirense, próximo ao pai da joia e que acompanhou o crescimento do garoto no clube, o convocaria para a Copa para que não seja feito o mesmo erro com Neymar em 2010. Mesmo que, em sua lista, seja a terceira opção no ataque.

Mesmo que Copa não seja só momento, ele também é importante e há fundamento histórico que mostra como jogadores em alta pouco antes da Copa podem ser impactantes nela — ainda que nunca mais joguem perto desse nível.

“Eu sou daquela tese de que o funcionário do mês do McDonald’s tem que estar na Copa do Mundo. Quando eu digo funcionário do mês, é aquele cara que, inclusive, o prêmio dele era não trabalhar, porque você nunca via um funcionário do mês do McDonald’s trabalhando. Só via a foto dele na parede. Não, tem que ir”, compara o jornalista.

Espanha campeã, Argentina decepção e o Brasil que pega no tranco

Se o Brasil para na semifinal para Portugal, no palpite de Mauro Beting, é porque os portugueses eliminam a Argentina — que, para ele, será a decepção da Copa. Ele prevê o time de Cristiano Ronaldo em um duelo ibérico contra a Espanha na final, que será vencida pelo time de Lamine Yamal, amplamente elogiado durante a entrevista.

Ao analisar o grupo brasileiro, Mauro relembra outras ocasiões em que a seleção teve confrontos difíceis e precisou “pegar no tranco” para ter sucesso. Em quase todos os títulos, pegou ao menos um time muito relevante no seu próprio grupo.

Em 1958, tinha uma Áustria semifinalista na Copa anterior, Inglaterra e uma União Soviética em alta. Em 1962, tinha a Checoslováquia, que acabou vice-campeã. Em 1970, estávamos no grupo mais difícil da Copa, com a mesma Checoslováquia, Inglaterra e Romênia. Em 1994, apesar de mais tranquilo, era um grupo com a Suécia, que acabou em terceiro lugar naquele Mundial. Até mesmo em 2002, em um suposto grupo mais fácil, pegamos a Turquia, que também seria semifinalista.

O técnico Carlo Ancelotti em entrevista coletiva da seleção brasileira
O técnico Carlo Ancelotti em entrevista coletiva da seleção brasileira. (Foto: IMAGO / Brazil Photo Press)

“Eu acho um grupinho chato e depois, passando as lógicas, o Brasil não vai ter nenhuma moleza. Quanto mais o Brasil tiver pauleira, melhor. Não pode pegar a França direto, a própria Espanha, Portugal, que acho que a gente vai até longe”, analisa.

Entre colocar Yamal melhor jogador da Copa do Mundo e Kylian Mbappé batendo o recorde de maior artilheiro da história das Copas do Mundo já nesta edição, Mauro ainda se emociona ao falar de seu primeiro Mundial ao lado de Galvão Bueno — e como agora completa a Santíssima Trindade dos narradores, com Sílvio Luiz e Luciano do Valle.

“O Galvão, eu sempre fui fã, é uma pessoa maravilhosa. Quando estou trabalhando com ele, já tinha ouvido que não é a pessoa mais fácil do mundo, mas é facílimo trabalhar com ele. Pode ser uma contradição, porque ele é maravilhoso, ele é um cara extremamente generoso, tem toda a capacidade”, finaliza.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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