O que Vini Jr ainda precisa melhorar para ser o protagonista do Brasil pós-Neymar
Astro do Real Madrid, Vini tem deixado uma impressão de que poderia mais com a camisa do Brasil. Então o que falta?
É justo dizer que, desde as inconstâncias físicas de Neymar após a Copa do Mundo de 2022, há uma tendência a esperar de Vinicius Júnior o protagonismo da seleção brasileira. É igualmente justo afirmar que isso ainda não aconteceu.
Vini tem sido o principal jogador do Real Madrid desde 2022, quando houve a passagem de bastão oficial de Karim Benzema ao brasileiro. Seus números cresceram, a briga por prêmios individuais começou e, apesar da inconstância recente e da chegada de Kylian Mbappé, o camisa 7 ainda é venerado em Madri.
Ainda assim, há um sentimento de que falta algo. Com ou sem Neymar, Vinicius não tem sido o grande destaque da Seleção, nem mesmo com Carlo Ancelotti, com quem teve grande sucesso na Espanha — Rodrygo e Estêvão foram melhores, por exemplo. O que falta, afinal?
Números ótimos de Vinicius Júnior podem não contar toda a história
Vini Júnior tem números excelentes de participações em gols na história recente da Champions League, por exemplo. Seu lado criativo é forte: cria para si mesmo com conduções e para os outros com cruzamentos de diferentes ângulos, passes em profundidade ou contra-ataques.
Um ponto que ainda pode incomodar é o momento da conclusão.
É evidente o quanto o brasileiro evoluiu desde que chegou ao Real Madrid — no início da sua passagem, era motivo de piada por perder chances claras, mas já se tornou um atacante confiável para marcar algo próximo dos 20 gols por temporada.
A grande questão do camisa 7 talvez seja a forma como ainda perde grandes chances. Vini é um jogador com muito volume: ele próprio e o time criam muito, mas seu aproveitamento com certeza poderia ser maior.
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Um dado que não necessariamente conta toda a história, mas ajuda a entender o “problema”, é a diferença de gols marcados e gols esperados (xG).
Na atual temporada de LaLiga, por exemplo, o brasileiro marcou 11 gols em 28 jogos, uma média de pouco mais de um gol a cada três jogos. Mas esperava-se que marcasse praticamente 12 (11,5 xG) — ou seja, marcou menos do que o esperado tendo em vista as oportunidades que teve.
Os xG podem ser nebulosos. A diferença de um gol esperado, vendo dessa forma, pode não parecer tão grande. Mas uma oportunidade de “apenas” 0,5 xG, por exemplo, pode ser uma grande chance desperdiçada de frente para o gol.
Na Champions League isso ficou evidente durante a última vitória contra o Manchester City. Vinicius Júnior marcou dois gols, incluindo um de pênalti, mas teve quase três gols esperados e perdeu grandes chances de diferentes formas. Era para ser uma partida com mais de um hat-trick e um desempenho superior ao que de fato ocorreu.
Seu mapa de xG na Champions ilustra isso. Os círculos pintados representam os gols marcados e, quanto maior o círculo, maior o xG. É possível perceber como Vini perdeu algumas grandes chances, inclusive dentro da pequena área.
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Se em LaLiga a diferença é de praticamente um gol negativo entre marcados e esperados, na Champions é pior ainda: o atacante marcou cinco vezes e teve 7,22 xG, mais de dois gols negativos na comparação.
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O histórico de Vinicius Júnior em frente ao gol
Talvez uma grande questão sobre Vinicius Júnior em frente ao gol é a expectativa. Sua carreira já começa com uma artilharia e MVP do Sul-Americano sub-17, quando tinha apenas 16 anos. Mesmo sendo um ponta driblador desde cedo, havia o aguardo pelo possível goleador que poderia ser.
Vini se tornou um atacante confiável para marcar gols, mas não esse grande artilheiro. Na atual temporada, o camisa 7 tem apenas 11% de taxa de conversão na Champions League e 12% em LaLiga, números muito baixos. Nas últimas Eliminatórias para a Copa do Mundo, foram só dois gols em 11 jogos e 9% de conversão, além de oito grandes chances perdidas.
Sua comparação com outros pontas de estilo parecido reforça isso:
- A campanha na Champions de Kylian Mabppé em 2016/17, ainda adolescente e quando surgiu como um ponta clássico, teve 35% de conversão;
- A menor taxa de conversão de Neymar na Ligue 1, em 2019/20, foi de 18% — mas em uma temporada de 13 gols em 15 jogos;
- Apesar dos altos e baixos na atual temporada com lesões, Raphinha tem 21% de conversão em LaLiga, e são 11 gols em 8,89 xG, diferença de mais de dois gols em relação ao esperado;
- Para a comparação ir ainda além: Yuri Alberto, centroavante muitas vezes criticado por perder gols fáceis, teve uma taxa de conversão de 15% no Brasileirão de 2025 — mesmo marcando “só” 10 gols em 11,4 xG.
— Vini Jr. (@vinijr) December 17, 2024
Em sua temporada em que debateu-se sobre o merecimento da Bola de Ouro, 2023/24, Vini marcou 15 gols com 19% de conversão de suas oportunidades, número que também não enche os olhos.
Mesmo que o argumento não seja de que Vinicius precise sempre superar as expectativas no quesito xG, até porque é um dado que gere debate, essa não é a primeira temporada que o brasileiro está abaixo do esperado ou no “zero a zero”.
Vini também já terminou uma temporada com diferença negativa entre gols marcados e esperados em 2022/23, quando foi 8º melhor jogador do mundo na lista da Bola de Ouro.
Espaço para melhora e comparações
O histórico não significa que ele não possa melhorar.
Ele já superou seus gols esperados, mesmo que não por muito — em 2023/24, por exemplo, foram 15 gols em 13,1 xG. Mas há exemplos de jogadores semelhantes que reverteram esses números.
Cristiano Ronaldo é um exemplo óbvio, mas de difícil comparação por ser um dos grandes jogadores de todos os tempos. Bryan Mbeumo, no entanto, é um caso mais palpável e recente: foi de ponta inconstante em frente ao gol a um dos artilheiros da Premier League.
Antes de ir ao Manchester United no início dessa temporada, Mbeumo teve duas campanhas do Campeonato Inglês marcando 9 gols, mas com xG negativo. Na temporada passada, no entanto, marcou 20 gols em 12,2 xG, um número absurdo de praticamente oito gols a mais do que o esperado.
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Se quiser se espelhar em Mbappé, Vini verá no companheiro um grande artilheiro como ponta no PSG que, mesmo marcando muitos gols, ainda supera o esperado: 29 em 26,3 xG em 2022/23 e 27 gols em 20,9 xG em 2023/24, suas últimas temporadas na França. Em sua estreia em LaLiga, mais centroavante do que antes, foram 31 gols em 25,9 xG.
Talvez o que falte para Vinicius Júnior se manter efetivamente em disputas por prêmios individuais sejam, também, números vantajosos. Sem marcar tanto, pode não ter o argumento tão forte. E, no fim, é também desse tipo de protagonismo que a seleção brasileira precisa, principalmente depois de Neymar deixar o time como o maior artilheiro do país.