Fifa enfrenta ameaça de greve dos trabalhadores de estádio sede da Copa do Mundo de 2026
Estádio deve receber oito jogos da Copa do Mundo e vive momentos de tensão
A Fifa enfrenta mais uma crise a pouco mais de 60 dias da Copa do Mundo e precisará lidar com a ameaça de greve de milhares de trabalhadores do SoFi Stadium, sede do torneio em Los Angeles e palco da partida de abertura da seleção masculina dos Estados Unidos.
De acordo com o “The Athletic”, o movimento parte do sindicato UNITE HERE Local 11, que representa 2.000 trabalhadores do espaço, incluindo cozinheiros, garçons e bartenders.
Segundo o jornal, o sindicato afirmou que seus membros ainda estariam preocupados com a possível presença da Alfândega e Imigração dos Estados Unidos (ICE) nas cidades e locais onde serão realizadas as partidas do Mundial.
— Na semana passada, enviamos uma carta aos nossos empregadores informando que, caso a imigração aparecesse, invocaríamos nossas normas de saúde e segurança e nossos membros poderiam parar de trabalhar. A imigração apareceu em um hotel logo após o envio da carta, e nossos membros abandonaram o trabalho e foram para casa. Os trabalhadores estavam chorando no refeitório porque estavam com medo — comunicou o copresidente do sindicato, Kurt Petersen, ao “The Athletic”.
O jornal teve acesso à carta, que foi enviada a estádios, aeroportos, centros de eventos e hotéis. No documento, o sindicato declarou que, de acordo com os termos do contrato, os trabalhadores “têm o direito de se recusar a trabalhar em condições que os exponham a situações excepcionalmente perigosas” e que a presença de agentes do ICE ou da patrulha da fronteira cria “riscos à segurança”.
— Queremos ser claros. Se agentes do ICE ou similares estiverem presentes em sua propriedade ou nas proximidades, os trabalhadores devem ter permissão para sair ou se recusar a comparecer ao trabalho sem sofrer represálias — reforçou a carta.
O risco de greve fica ainda maior já que o acordo coletivo anterior entre o sindicato e a Legends Global, operadora do estádio, expirou. Isso porque as duas sessões de negociação, realizadas no local, terminaram sem acordo.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Fimago1070688613-scaled.jpg)
O copresidente do sindicato, Kurt Petersen, declarou ao “The Athletic” que a Fifa não se mostrou receptiva às preocupações da entidade. O sindicato também tem alertado sobre uma série de reivindicações feitas à Federação sobre o uso de subcontratados, além de exigir que a entidade não permita nenhum uso de inteligência artificial ou automação na arena, o que pode eliminar empregos do sindicato.
Há também o pedido por parte do UNITE HERE Local 11 de que a Federação Internacional de Futebol utilize uma parte dos lucros da Copa do Mundo para apoiar moradias populares locais e tem solicitado aluguéis de curta duração pelo Airbnb, que agora também é patrocinador da Federação. O sindicato explicou que isso desloca trabalhadores locais em um mercado imobiliário já escasso em Los Angeles.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, prevê uma receita superior a US$ 11 bilhões (aproximadamente R$ 55 bilhões), com um gasto de cerca de US$ 3,5 bilhões neste torneio, no qual 75% dos 104 jogos serão disputados nos EUA e os 25% restantes serão divididos entre os coanfitriões Canadá e México.
Justin Wesson, gerente sênior de políticas públicas do Airbnb na Califórnia, se mostrou contrário ao pedido do sindicado, alegando ao “The Athletic” que Los Angeles se beneficiaria com a flexibilização das regulamentações de aluguel de curto prazo para “ajudar a cidade a acomodar mais visitantes e, ao mesmo tempo, gerar milhões em atividade econômica direta”.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F04%2Fgianni-infantino-scaled-e1775940656432.jpg)
Com o impasse, o sindicato que representa mais de 30.000 trabalhadores em hotéis, aeroportos e arenas esportivas em Los Angeles e em toda a região sul da Califórnia, alertou que está preparado para entrar em greve, a menos que a Fifa, a família Kroenke — dona do estádio — e a Legends Global atendam às suas reivindicações.
— Representamos os trabalhadores que preparam alimentos, tanto dentro do aeroporto quanto para os passageiros dos aviões, assim como os trabalhadores da maioria dos hotéis e dos estádios, que cozinham, preparam a comida, servem cerveja e cuidam de todas as concessões de alimentação. Acreditamos que esses jogos deveriam ser, mas raramente são, algo que faça a diferença para os trabalhadores. Em vez disso, eles aparecem, vão embora e a cidade e os trabalhadores muitas vezes ficam em condições piores do que quando chegaram — afirmou Petersen ao periódico.
— Os trabalhadores estão com dificuldades para sobreviver. A maioria dos nossos membros tem dois empregos. Eles são a espinha dorsal da indústria que vai tornar a Fifa próspera. A Fifa, apesar das nossas tentativas de dialogar com eles, basicamente ignorou as nossas reivindicações — reforçou Petersen.
Tensão se agrava por estreia dos EUA
O SoFi Stadium tem previsto oito partidas da Copa do Mundo no local, sendo cinco na fase de grupos, duas na fase de 32 avos de final e uma nas quartas de final. Já a seleção dos EUA disputará duas das três partidas da fase de grupos, contra Paraguai e Turquia, no estádio.
— Haverá muita pressão para garantir que os jogos sejam um sucesso, mas sucesso para nós significa que os jogos sejam um sucesso para todos, não apenas para o Airbnb, o presidente da Fifa e (o presidente dos EUA) Donald Trump. No momento, é para onde as coisas estão caminhando. Alguém precisa se levantar e dizer: ‘Não, não é assim que a Copa do Mundo deve ser feita’ — declarou o representante do sindicato.
Faltando apenas alguns meses para a Copa do Mundo, as negociações continuarão. No entanto, ao site “The Athletic”, Petersen afirmou que “até o momento, tudo indica que as outras partes envolvidas nas conversas não estão demonstrando muito interesse em ceder em vários dos pontos que apresentamos”.
Petersen reforçou que seu sindicato opera de forma “democrática”, com uma liderança eleita e líderes de comitês provenientes da base da fábrica, todos presentes nas sessões de negociação e que os trabalhadores estão dispostos a negociar condições melhores de trabalho.
— Nossos membros, as pessoas que cozinham, servem a cerveja e preparam as suítes, são os que estão dispostos a dizer: ‘Chega! Achamos que merecemos mais’. As pessoas acreditam que esses megaeventos, como a Copa do Mundo, não existem para beneficiar as pessoas comuns. Se forem os funcionários do serviço de alimentação do SoFi que estiverem liderando essa luta, acreditamos que as pessoas nos apoiarão
A Fifa foi contatada pelo site americano para comentar o assunto, assim como a Legends Global e o SoFi Stadium. A Hollywood Park, entidade pertencente à família Kroenke e que engloba o SoFi Stadium, recusou-se a comentar.