Tim Vickery: ‘Após 58, 62 e 70, o Brasil passou a pensar que era direito natural ganhar a Copa’
Brasil vive jejum de títulos há mais de 20 anos e tenta encontrar maneiras de conquistar o Mundial
A expectativa sobre a campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo ainda desponta ressalvas nos brasileiros. No programa Futebol em Contexto, da Trivela, os comentaristas Tim Vickery e Allan Simon debatem o ciclo da equipe nacional e o jejum de títulos no Mundial.
Novo episódio do Futebol em contexto
O Brasil não vence uma seleção europeia em um jogo mata-mata na Copa desde a final de 2002, na vitória sobre a Alemanha. Para Vickery, um dos principais fatores que explicam o histórico se dá pela evolução de outras seleções ao longo dos anos.
— O que aconteceu nos últimos anos é que os adversários ficaram muito mais fortes. A última Copa em que o Brasil ganhou, em 2002, o nível de jogo para mim foi o mais baixo. Muito por causa do cansaço do final da temporada e porque teve que começar em maio devido ao período de chuvas no Japão e na Coreia do Sul. Desde então, os adversários cresceram muito — avaliou.
— Após aquelas três Copas vencidas de um período de quatro (1958, 1962 e 1970), o Brasil passou a pensar que era um direito natural ganhar um Mundial. Um dos problemas do futebol brasileiro é a armadilha do sucesso. Sucesso é um processo. Quando você acha que vem com naturalidade, você esquece o processo –, destacou.
Para o comentarista, a seleção brasileira está entre as equipes que podem buscar o título mundial, apesar de não ser considerada favorita. Vickery explica que os resultados da Canarinha nos últimos anos surpreenderam os torcedores, mas é possível esperar uma trajetória diferente. No entanto, ele ponderou que na competição também é preciso contar com a sorte.
— O Brasil poderia ter vencido em 2018 e poderia ter vencido em 2022. Foi uma surpresa enorme o Brasil cair em 2022 pela qualidade de futebol que estava apresentando. A pressão em cima da bola o tempo todo, [mas contou] com as lesões que sofreu durante a Copa. A Copa sempre tem grandes parcelas de sorte. Não é tão fácil, mas o Brasil está entre os candidatos — relembrou.
Durante a análise, Simon e Vickery debateram a origem da produção de talentos brasileiros no futebol, analisando as mudanças no desenvolvimento e características dos jogadores.
Com a seca de títulos importantes da Seleção, o futebol brasileiro tem sido investigado nos mínimos detalhes. A formação de talentos não foge ao debate, muito pelo contrário. São vários os aspectos que têm sido analisados nos últimos anos para tentar explicar a queda de rendimento do Brasil e um deles é citado por Vickery.
— Eu acho que o Brasil produz muitos talentos, mas eu vejo o maior produtor de talento da história do futebol mundial sendo a rua brasileira. O que aconteceu nos últimos anos foi o domínio do futsal, mas a perda da rua nas grandes capitais por causa da especulação imobiliária, é uma tragédia para a sociedade e para o futebol –, analista o jornalista inglês.
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Vickery reforçou a importância do olhar atencioso para a evolução dos novos jogadores, mas também de diferenciar a escolha pela promoção de atletas com características físicas já desenvolvidas e optando por resultados rápidos.
— Às vezes, eu me pergunto se os jogadores certos estão sendo promovidos nas categorias de base ou se os técnicos buscando vitórias a curto prazo tem a tendência de prestigiar os maiores e os mais fortes fisicamente em vez dos melhores –, questionou.
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Era Ancelotti e os efeitos na seleção brasileira
Em meio às diferentes trocas de técnicos que passaram pela seleção brasileira –e com estilos diferentes– Tim Vickery destacou que a chegada de Carlo Ancelotti, optando pela adaptação e o pragmatismo, trouxe uma mudança significativa.
Ancelotti brilhou no comando de vários times europeus nas mais diferentes ligas e cenários. Soube trabalhar bem em contextos distintos, se ajustando sempre que necessário.
— Ancelotti não é um homem de ideias, ele não tem uma filosofia. Ele fala que não quer que os seus times tenham identidade.
— Então, com Ancelotti não vem grandes mudanças, mas o pragmatismo. Ele busca se adaptar àquilo que ele tem, ele não quer saber de ninguém ir para a Copa pensando em ser eleito o melhor do mundo. Com Ancelotti não vem uma mudança de credibilidade, mas também de como executar a mesma ideia, mas com mais eficiência. Ele é pragmático com uma crença extraordinária no talento — detalhou.
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