Copa do Mundo

‘Somos a seleção mais oprimida da Copa do Mundo’: Irã expõe falta de isonomia da Fifa

Treinador e jogadores denunciam como estão sendo afetados pela organização do torneio devido restrições dos Estados Unidos

Desde que Estados Unidos e Israel deram início aos ataques militares no Irã, no final de fevereiro, a participação da seleção persa na Copa do Mundo foi colocada em xeque. Na segunda-feira (15), a equipe do técnico Amir Ghalenoei estreou no Grupo G com um empate por 2 a 2 com a Nova Zelândia. Fora de campo, treinador e jogadores expuseram como estão sendo afetados pela falta de isonomia no torneio.

A seleção iraniana entrou em campo no SoFi Stadium, em Inglewood, perto de Los Angeles, porém, foi obrigada a retornar a Tijuana durante a madrugada, poucas horas depois do término da partida. O treinador criticou a organização do Mundial, pois a ideia era que o elenco fizesse pelo menos uma sessão de recuperação nos Estados Unidos nesta terça-feira (16) antes de viajar ao México, mas foi impedido por questões diplomáticas.

— Disseram que temos que sair imediatamente. Estamos realmente preocupados com isso. Para ser sincero, não sabemos por que estão nos mandando de volta (para Tijuana). Parece muito estranho. Parece que outras pessoas estão planejando tudo por nós — começou Ghalenoei, por meio de um intérprete.

Nossa seleção é a mais oprimida de toda a Copa do Mundo.

Como a guerra entre Estados Unidos e Irã tem afetado a seleção

Seleção iraniana celebra gol contra a Nova Zelândia
Seleção iraniana celebra gol contra a Nova Zelândia (Foto: Imago/AAP)

Cabe ressaltar que, antes da guerra, a seleção havia sido alocada em Tucson, no Arizona, para fazer sua preparação para o torneio. Contudo, devido à falta de garantia de segurança em solo estado-unidense, a Federação de Futebol Iraniana decidiu mudar seu centro de treinamento para Tijuana.

Em meio à escalada da tensão com Donald Trump, a seleção iraniana procurou a entidade máxima do futebol para também alterar os locais de seus jogos na Copa, cujas três rodadas da fase de grupos acontecem nos EUA. Só que a Fifa não acatou esse pedido por considerar inviável alterar o planejamento da competição tão perto de seu início.

Além de ter que enfrentar viagens mais longas do que o esperado antes dos duelos, a grande questão é que cidadãos iranianos enfrentam restrições de entrada impostas pelo governo dos Estados Unidos. Segundo o “The Athletic”, 11 membros da delegação da seleção tiveram seu visto negado e não puderam fazer parte da rodada de abertura contra os neo-zelandeses.

Nosso presidente (da federação) não está aqui, nossa imprensa não está aqui, muitos dos nossos gestores não estão aqui — lamentou Ghalenoei

Amir Ghalenoei, técnico da seleção do Irã (Foto: Imago/ITAR-TASS)
Amir Ghalenoei, técnico da seleção do Irã (Foto: Imago/ITAR-TASS)

O treinador contou que costumava ter membros responsáveis por “auxiliar nas substituições” durante os jogos da seleção iraniana. Contudo, esse profissionais foram impedidos de entrar na Califórnia. A ausência de dirigentes também exigiu que pessoas da comissão técnica assumissem “questões administrativas”.

Amir Ghalenoei ainda revelou que o cronograma original do Irã era desembarcar em Los Angeles “duas noites antes” da partida, mas a entrada só foi permitida na tarde do domingo (15), um dia antes do jogo, afetando as atividades preparatórias e aumentando o desgaste físico e psicológico causado pela viagem.

A seleção então solicitou permanecer pelo menos o restante da noite de ontem nos EUA para que os atletas tivessem tempo para descansar apropriadamente e, no horário de almoço, voltassem ao México. Mais uma vez, tiveram o pedido recusado. O confronto contra a Nova Zelândia terminou às 20h, no horário local. O ônibus com a delegação deixou o estádio rumo ao aeroporto às 22h07, cujo voo estava marcado por volta das 23h.

— Por isso, acredito que somos a equipe mais oprimida desta Copa do Mundo — justificou o treinador da seleção iraniana.

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Um participante de Copa do Mundo sem condições igualitárias de competir

Medhi Taremi, atacante da seleção do iraniana (Foto: IMAGO / Sebastian Frej)
Medhi Taremi, atacante da seleção do iraniana (Foto: Imago/Sebastian Frej)

Nesse ponto é importante deixar claro que nenhuma outra seleção passou por algo parecido até aqui nos Estados Unidos, México ou Canadá, os três países-sede do Mundial. Mehdi Taremi, principal nome do Irã, foi outra voz crítica à organização do torneio durante entrevistas à imprensa internacional na zona mista do SoFi Stadium.

— Na verdade, tudo está um desastre para nós — começou o atacante.

— Não é bom para nós, sabe? Não é bom para o futebol, porque em uma Copa do Mundo, você precisa se preparar bem para o próximo jogo, pois é muito estressante para os jogadores, a comissão técnica e todos os envolvidos. Mas não temos esse apoio, e acho que a Fifa precisa nos ajudar mais do que isso — argumentou Taremi.

Mohammad Mohebbi, autor de um dos gols no empate da primeira rodada do Grupo G, também foi questionado pelos jornalistas sobre como todo esse contexto tem afetado a seleção iraniana. O meia-atacante denunciou a falta de isonomia na Copa, pois as restrições estão impedindo o grupo de competir em seu mais alto nível.

— Nós nos cansamos. Acho que esse tipo de coisa é um pouco injusto, sabe? Não é justo… Este é um ambiente difícil para nós — declarou Mohebbi.

Mohammad Mohebbi, do Irã (Foto: Imago/Photosport)
Mohammad Mohebbi, do Irã (Foto: Imago/Photosport)

Ainda de acordo com o “The Athletic”, os dois jogadores do Irã falaram juntos na área de entrevistas pós-jogo. Um funcionário da Fifa tentou repetidamente encerrar o contato com a imprensa após algumas perguntas, mas Mehdi Taremi e Mohammad Mohebbi quiseram continuar. Depois de descer do pódio, a dupla conversou mais com os repórteres.

O posicionamento de Gianni Infantino, presidente da Fifa

Em seu discurso de abertura da Copa do Mundo na Cidade do México na semana passada, o presidente da entidade máxima do futebol chegou a dizer que “teria dirigido um ônibus” de Teerã, capital iraniana, para garantir que a seleção jogasse o torneio em meio às dúvidas crescentes sobre sua participação.

Após a partida contra a seleção neozelandesa, Gianni Infantino foi até o vestiário da seleção iraniana e pareceu reconhecer os problemas citados pelos jogadores e treinador. O dirigente ficou 10 minutos no local e fez um discurso, ouvindo atentamente a sugestão de Amir Ghalenoei de que a Fifa precisa se manter “firme”.

Eu sei o que vocês (seleção do Irã) passam, eu entendo. Mas vocês são mais fortes do que tudo e enviam uma mensagem forte para o mundo inteiro — disse Infantino.

Ainda não está claro porque a delegação foi obrigada a voltar para Tijuana rapidamente. Um dirigente da federação iraniana disse que o pedido de pressa “veio da Fifa”, mas as restrições impostas impostas pela Casa Branca a cidadãos do país são uma causa provável. Representantes da entidade e da Força-Tarefa da Copa do Mundo foram contatadas para darem suas versões, mas não responderam ao “The Athletic”.

O capitão da seleção iraniana foi perguntado diversas vezes qual era a origem do problema com as viagens. Taremi se recusou a citar os EUA nominalmente, mas insinuou que a administração Trump era culpada. O atacante se mostrou “cansado” com todo o imbróglio, mas reconheceu o esforço de Gianni Infantino em tentar ajudar

— Com certeza, ele (presidente da Fifa) quer tentar nos ajudar, mas também há outras coisas envolvidas. Você sabe, todo mundo sabe. Não preciso mencionar isso, porque você sabe onde estamos — encerrou o camisa 9.

— Estamos felizes em voltar para o povo mexicano em Tijuana, mas do ponto de vista técnico, deveríamos ter ficado aqui (Inglewood) esta noite. Eles estão tornando a situação cada vez mais difícil, criando mais obstáculos, mas não vamos desistir de fazer o nosso melhor — concluiu o técnico do Irã.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus CristianiniRedator

Jornalista formado pela Unesp, com passagens por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia. Na Trivela, é redator de futebol nacional e internacional.

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