Copa do Mundo 2026

Histórico e farpas: Tensão na Inglaterra entre Tuchel e Bellingham vai além da polêmica contra Noruega

Declarações após a vitória sobre a Noruega levantaram dúvidas sobre a relação entre astro e treinador alemão

A classificação da Inglaterra para a semifinal da Copa do Mundo veio acompanhada de um momento de tensão nos bastidores da seleção. Após a vitória por 2 a 1 sobre a Noruega, nas quartas de final, Jude Bellingham rebateu publicamente uma crítica feita pelo técnico Thomas Tuchel, alimentando especulações sobre um possível desgaste na relação entre os dois justamente na reta decisiva do torneio.

Apesar da repercussão, o episódio parece estar longe de representar uma crise dentro da concentração inglesa. Segundo o jornal inglês “The Athletic”, o ambiente continua sendo considerado positivo entre jogadores e comissão técnica, que estão juntos há mais de seis semanas desde o início da preparação para o Mundial.

Não é só Clairefontaine: Como a França atingiu excelência na formação ‘infinita’ de joias

Não é só Clairefontaine: Como a França atingiu excelência na formação ‘infinita’ de joias

Leia →

Mas, como o próprio site relembra, esse momento de tensão não foi o único entre os dois e já existe resquícios desse comportamento desde antes da Copa.

O que aconteceu entre Bellingham e Tuchel na Copa do Mundo?

Tudo começou logo após o apito final em Miami. Em entrevista à televisão britânica, Thomas Tuchel classificou a atuação da Inglaterra como “desleixada” e afirmou que sua equipe contou com uma dose de sorte para eliminar a Noruega.

Pouco depois, Bellingham, autor dos dois gols ingleses, foi questionado sobre as palavras do treinador. Inicialmente, respondeu apenas com um desinteressado “tanto faz”. Minutos depois, na zona mista, aprofundou a resposta.

“Talvez isso signifique que ele não saiba como é jogar nessas condições contra Erling Haaland, Martin Odegaard, Antonio Nusa e Alexander Sorloth. Não é um time fácil de enfrentar.”

Bellingham marcou duas vezes contra a Noruega (Foto: IMAGO / Brazil Photo Press)

A declaração chamou atenção por partir justamente do principal jogador da seleção em direção ao próprio treinador, algo pouco comum no futebol inglês. E o contexto ajuda a entender a reação de Bellingham.

A Inglaterra disputou 120 minutos sob forte calor e alta umidade em Miami, poucos dias depois de outro confronto extremamente desgastante nas oitavas de final, contra o México, na altitude da Cidade do México.

O meia já vinha acumulando enorme carga física ao longo do torneio e foi substituído apenas nos minutos finais da prorrogação diante da Noruega. Dentro da comissão técnica, há o entendimento de que entrevistas concedidas logo após partidas nessas condições costumam ser influenciadas pelo desgaste físico e emocional dos atletas.

Se Bellingham reagiu de forma mais impulsiva, Harry Kane adotou o caminho oposto. O capitão inglês saiu em defesa de Tuchel ainda em Miami e voltou ao assunto dois dias depois em entrevista à BBC:

Segundo Kane, as críticas do treinador tinham como objetivo manter o elenco concentrado antes da semifinal. O atacante também afirmou que Bellingham respondeu poucos minutos após deixar o gramado, sem conhecer exatamente todas as declarações de Tuchel.

“Quando você joga uma partida como aquela, e te fazem uma pergunta dois minutos após o apito final, sem você saber direito o que o treinador de fato disse, fica aquela sensação de ‘o que vocês queriam que o Jude respondesse?’ É fácil tentar criar essa divisão… mas é o oposto completo.”

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

Relação entre Tuchel e Bellingham já teve outros momentos delicados

Tuchel orienta Bellingham durante jogo da Inglaterra (Foto: Mark Pain / IMAGO)

O atrito não surgiu do nada. Ainda antes da Copa do Mundo, Tuchel chegou a afirmar, em uma entrevista de rádio, que Bellingham possuía uma “marra” que precisava ser melhor direcionada, principalmente contra adversários e não contra árbitros ou companheiros.

Na ocasião, o treinador também disse que algumas atitudes do meia poderiam soar desagradáveis para quem não o conhecesse pessoalmente. A repercussão foi imediata, e Tuchel acabou se retratando publicamente.

Pouco tempo depois, Bellingham ficou fora de convocações para jogos das Eliminatórias, o que alimentou rumores sobre uma possível relação desgastada. Durante a Copa, porém, a situação parecia diferente.

Os dois foram vistos conversando intensamente durante as pausas para hidratação, quase como um desentendimento, mas Tuchel fez diversos elogios públicos ao desempenho do camisa 10. Após a vitória sobre a Noruega, por exemplo, resumiu a atuação do meia em apenas duas palavras: “Classe mundial.”

Paradoxalmente, talvez treinador e jogador sejam mais parecidos do que diferentes. Tuchel construiu sua carreira sendo conhecido pela sinceridade quase excessiva nas entrevistas e pela forma direta como trata seus atletas — e essa característica já provocou atritos em praticamente todos os clubes pelos quais passou.

No Chelsea, sua relação desgastada com Romelu Lukaku ganhou enorme repercussão, enquanto nomes como Tammy Abraham acabaram perdendo espaço após a chegada do treinador.

Já no Bayern de Munique, Tuchel causou desconforto ao afirmar publicamente que precisava contratar um volante de origem, colocando em dúvida a adaptação de Joshua Kimmich à função.

Inglaterra tenta evitar que episódio vire distração na Copa do Mundo

Dentro da seleção inglesa, a prioridade é impedir que o assunto ganhe proporções maiores às vésperas da semifinal contra a Argentina, nesta quarta-feira (15). A avaliação, segundo o “The Athletic”, é que o episódio não alterou o bom ambiente construído durante a campanha.

A Inglaterra passou mais de um mês concentrada em Kansas City, longe da pressão dos grandes centros, e jogadores e comissão técnica seguem demonstrando forte união no dia a dia.

Por isso, internamente, o entendimento é que a troca de declarações foi consequência de um momento de enorme desgaste emocional, e não o início de uma ruptura entre técnico e principal estrela do elenco.

Com Lionel Messi e a Argentina pela frente, Tuchel sabe que a última coisa de que precisa é transformar um pequeno atrito em uma crise. E Bellingham, peça central da campanha inglesa, continua sendo um dos pilares do projeto que levou a seleção às semifinais da Copa do Mundo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo