Jurassic Park: A rodada das Eliminatórias será povoada por centroavantes intermináveis
Enquanto o Brasil sonha com Endrick, várias e várias seleções da América do Sul confiam em dinossauros da grande área

O brasileiro tem uma relação praticamente messiânica com o centroavante da Seleção. Para quem viu Romário e Ronaldo destruírem todo mundo no tetra e no penta, é como se a terra prometida do hexa não fosse possível sem alguém que honrasse a vocação de artilheiro. Alguns falsos profetas surgiram nestas duas décadas sem a taça. O momento atual, no entanto, é promissor para se acreditar nos prodígios. Se ainda não deu para Vítor Roque fazer sua estreia, os próximos compromissos nas Eliminatórias terão Endrick ao menos no banco, à espreita para encher a torcida de esperança, e também o talentoso João Pedro em busca de sua afirmação.
Obviamente, a necessidade de um centroavante lendário não condiciona a conquista da Copa do Mundo. Vide o que aconteceu com a Argentina, que levou seu tri com a descoberta de Julián Álvarez, um talento imenso, mas não o homem típico que se imagina com a 9. Para a Albiceleste, o messianismo é outro – atende mesmo pelo nome de Lionel Messi, com a camisa 10.
De qualquer maneira, o trunfo do goleador é importante a muitos times que ambicionam grandes feitos. Os próprios argentinos precisaram resolver seu problema na linha de frente, com a fase ruim de Lautaro Martínez, antes de se endireitar no Catar. E não deixa de ser curioso que, num momento em que as duas principais seleções da América do Sul veem longos futuros pela frente com seus jovens atacantes, os demais concorrentes se agarrem ao passado. Esta rodada das Eliminatórias, definitivamente, será dos centroavantes veteranos. Um Parque dos Dinossauros a céu aberto na grande área.
Basta olhar para quem reapareceu. Luis Suárez ganhou as manchetes no Brasil, por motivos óbvios, novamente na Celeste. Mas o Paraguai também voltou a recorrer aos serviços de Óscar Cardozo. São dois protagonistas da Copa do Mundo de 2010. O Peru continua fiel a Paolo Guerrero, enquanto o Chile também segue dependente de Alexis Sánchez. Se por um lado Marcelo Moreno jogou a toalha na Bolívia, por outro La Verde convocou pela primeira vez Jair Reinoso, um centroavante de 38 anos. A Venezuela também deposita suas esperanças de ir à Copa do Mundo pela primeira vez no rodado José Salomón Rondón. As exceções na rodada são só o Equador e Colômbia, mas por falta de oportunidade. Enner Valencia não estará em campo porque se lesionou, enquanto Radamel Falcao García certamente seria objeto de pedidos não fosse a reserva no Rayo Vallecano.
Aqueles que voltam

Luis Suárez será um dos nomes principais das Eliminatórias nesta Data Fifa. A seleção uruguaia parecia encerrada para o Pistoleiro, que não negou o tom de despedida na Copa do Mundo. Porém, a vontade do craque em fazer seus gols é maior. E não tinha como ignorar tudo o que o veterano proporciona ao Grêmio. Sua passagem por Porto Alegre é histórica, especialmente por essas últimas apresentações no Brasileirão. Marcelo Bielsa fez jogo duro no início de seu trabalho e parecia disposto a prescindir da lenda. Contudo, uma hora precisou se render ao veterano de 36 anos. Luisito conhece muitos atalhos dentro da área, engrandece os companheiros e tecnicamente é muito diferente dos demais. Além do mais, gosta de jogo grande. Ama a Celeste.
Não é a volta de Suárez que abre as portas para todo mundo, todavia. Edinson Cavani vem se arrastando no Boca Juniors e chamá-lo não faria sentido, especialmente pelo futebol que costuma se praticar com Bielsa, mais dinâmico. Elétrico, o Pistoleiro deve ter um encaixe automático. E não estará sozinho. Darwin Núñez ganha confiança com o Liverpool e começou em excelente forma nas Eliminatórias, vide a maneira como arrebentou o Brasil. A Celeste ainda contará com a estreia de Federico Viñas, que faz uma boa temporada com o León, no México. Os charruas poderiam se virar sem Luisito. Mas são ainda melhores com um craque deste calibre, especialmente quando pode ser usado de maneira inteligente, e não como centro das atenções.
No caso do Paraguai, o problema é mais visível. O time não engrena e a boa aposta em Daniel Garnero como técnico pode demandar paciência. Antonio Sanabria é o principal centroavante, mas tem suas limitações. Adam Bareiro e Gabriel Ávalos passaram a ser testados mais recentemente, pelo desempenho no futebol argentino. Mas por que não chamar o grande goleador do ano no Campeonato Paraguaio, campeão e artilheiro tanto do Apertura quanto do Clausura? Foi o que o treinador fez. E, com isso, proporcionou o retorno de Óscar Cardozo, do alto de seus 40 anos. Volta após dois anos de sua última aparição e após quatro anos de seu último gol com a Albirroja.
Cardozo, de fato, faz miséria no Libertad. Também é um jogador acima da média na história da seleção paraguaia. Ainda pode contribuir, a uma equipe que se vê estagnada há vários ciclos. Ajuda a própria relação com Garnero, que tirou o melhor do veterano nos últimos anos para conquistar repetidas vezes o Campeonato Paraguaio. Diante da chance, Tacuara poderá guardar seus tentos. E isso porque Garnero nem quis lançar mão de outro velho conhecido, Roque Santa Cruz, com quem foi vencedor também no Olimpia. Como o matador da Copa de 2002 atualmente é reserva de Cardozo no Libertad, talvez fosse um pouco demais arriscar. Mas, com seus 42 anos, o ancião não deve para muitos novinhos.
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Aqueles que continuam

Formar um centroavante não é uma missão simples. Pelo contrário, durante tanto tempo virou um dilema nas categorias de base brasileiras. Não é nem uma questão de geração, mas de transformação da maneira como o futebol é jogado. E nem sempre é simples preparar um atleta com faro de gol, personalidade e coragem para encarar as jornadas nas Eliminatórias. Não à toa, a maioria das seleções na América do Sul prefere mesmo recorrer aos velhos homens de confiança.
Um exemplo clássico é o de Paolo Guerrero, onipresente no Peru mesmo aos 39 anos. Nem as lesões, as suspensões e a queda de desempenho barraram o capitão da Blanquirroja. Não é tão imprescindível quanto em outros tempos, mas não perdeu o moral e ainda consegue seus lampejos. No entanto, agora também tem companhia. Gianluca Lapadula segurou a onda na ausência do colega de posição e, neste momento, se mostra até mais confiável. Foi um verdadeiro achado, como um italiano de raízes peruanas pronto para os Incas. E dá para dizer que fez falta, pela lesão no tornozelo que o tirou das primeiras rodadas das Eliminatórias. Mas não que traga uma perspectiva de longo prazo, aos 33 anos.
O Chile vive uma relação parecida com sua referência ofensiva, Alexis Sánchez. O camisa 10 é outro tipo de atacante, longe de ser um centroavante clássico. Mas há uma dependência da Roja, especialmente em anos de declínio da geração dourada. Apesar dos pesares, mesmo já passando de seu melhor no futebol de clubes, Alexis é muito mais refinado que todos os outros. Mas ganha uma sombra. Quem anima ultimamente é um garoto que pode ser o sucessor ou mesmo um companheiro, com mais presença física. Damián Pizarro tem 18 anos e já é o titular do Colo-Colo. Desandou a fazer gols nas últimas semanas pelo Campeonato Chileno, destruindo o líder Cobresal e marcando também no clássico contra a Universidad Católica. Já surge um messianismo ao seu redor e pedidos para que entre logo como titular, após a primeira convocação.
A Bolívia não fica atrás de chilenos e peruanos em termos de um nome inescapável na linha de frente. Mas não por tanto tempo. Marcelo Moreno anunciou que esta Data Fifa marcará sua despedida de La Verde. Possui os recordes de gols e partidas pela equipe nacional, mas não vê tantas perspectivas num time atravancado pela desorganização. Aos 36 anos, vai ganhar um descanso. O mais curioso é que o potencial substituto consegue ser mais velho que Moreno. Antônio Carlos Zago assumiu a equipe boliviana e convocou Jair Reinoso, artilheiro do Aurora. O centroavante de 38 anos nunca havia defendido a seleção, até porque nasceu na Colômbia e só ganhou a nacionalidade boliviana em 2019. Nome respeitado na liga local, vira um fio de esperanças para um time que dificilmente vai à Copa do Mundo no curto e médio prazo.
Quem se enche de esperanças é a Venezuela. E com sua liderança também no comando do ataque. José Salomón Rondón é uma figura histórica para o futebol local, a começar pela carreira que construiu no exterior. Também tem uma lista de feitos respeitável com a Vinotinto, além de ser o capitão. Aos 34 anos, sua caminhada se vê em declínio e não causa tanto impacto no River Plate. Na seleção, pelo contrário, marcou gols fundamentais para a excelente largada dos venezuelanos no qualificatório. Como a Copa do Mundo nunca pareceu tão palpável ao país, não é agora que vão prescindir de seu astro. Para animar um pouco mais, recentemente surgiu a alternativa de Eric Ramírez, centroavante de 24 anos que vem se saindo bem no Atlético Nacional. Pode ocupar a lacuna de opção que antes era de Josef Martínez, em declínio mais recente.
O Equador pode não contar com Enner Valencia nesta Data Fifa, mas não tem como pensar em La Tri nos últimos anos sem o jogador do Internacional. O centroavante de 34 anos liderou o time de Gustavo Alfaro rumo à Copa de 2022 e continua como uma figura central, mesmo com a troca de treinador e a chegada de Félix Sánchez. É um jogador que adiciona muita energia à equipe, mesmo que a idade pese, e que possui uma natural hierarquia dentro de um elenco equatoriano que é bastante jovem no geral. Tão jovem que seus potenciais substitutos deixam desconfianças pela inexperiência. Leonardo Campana e Kevin Rodríguez despontaram como talentos empolgantes, mas não com uma solidez como a construída por Valencia. Terão que assumir o fardo nos próximos compromissos.
Por fim, a Colômbia é a única dessas seleções intermediárias da América do Sul que parece num momento distinto na discussão sobre seu centroavante. Aos 37 anos, Radamel Falcao García realmente parece ter ficado para trás. As lesões maltrataram seu corpo por mais de uma década e o Tigre de Santa Marta não é mais tão feroz. Ele ainda seguia convocado até março, mas a reserva no Rayo Vallecano tornou sua permanência indefensável. Rafael Santos Borré é o atual titular, um centroavante de gols em grandes momentos, mas um tanto quanto inconstante. Cucho Hernández é mais jovem e pode ser testado pelo estrago que faz com o Columbus Crew. Ainda assim, os Cafeteros acionaram um trintão. Jhon Córdoba tem 30 anos e não estreou pela seleção nem quando fazia sucesso na Alemanha. Agora, mais escondido no Krasnodar, vira estepe ao técnico Néstor Lorenzo.
Se o Brasil pode sonhar com Endrick e João Pedro, enquanto a Argentina tem Julián Álvarez além de Lautaro Martínez na manga, nem todos os vizinhos são afortunados com a fonte da juventude neste momento. Contar com um veterano não é de todo ruim, especialmente quando ele atende pelo nome de Luis Suárez. Entretanto, o cenário das Eliminatórias mostra como as dificuldades de formar centroavantes não vem sendo apenas nossas. Alguns dos medalhões passam longe do melhor momento, mas tantas vezes parece melhor recorrer a velhas certezas do que lidar com amargas verdades.



