Copa do Mundo

‘México e Canadá são convidados’: Como é o clima nos outros países-sede da Copa de 2026?

Mexicanos e canadenses entendem status de 'coadjuvante' diante dos EUA e comentam expectativas para hospedar o maior evento do futebol mundial em 2026

Falar em sede da Copa do Mundo de 2026 imediatamente remete aos Estados Unidos, mas o país divide o posto de anfitrião com Canadá e México, que não se importam em ser “coadjuvantes” no contexto.

— México e Canadá são convidados na Copa dos Estados Unidos — diz o jornalista Luis López Romero à Trivela.

A franca declaração do comunicador não está em tom lamentoso, tampouco tem o intuito de causar polêmica.

Quando mexicanos e canadenses se uniram aos EUA e lançaram candidatura conjunta para receber o grandioso Mundial de 2026, eles entenderam ser natural todos os olhares se voltarem mais ao maior país do continente, que vai abrigar a maior parte dos jogos.

Isso se intensificou nos últimos meses por eventos em maioria alheios aos gramados. Aproximação do presidente Donald Trump com Gianni Infantino, mandatário da Fifa, e um “prêmio da paz” concedido pela entidade ao chefe de Estado do país foram algumas particularidades.

E não dá para ignorar as questões em torno da política de imigração implementada, que culmina em protestos da população. As ações do presidente Trump colocaram em pauta até boicote ao Mundial.

Mas crise política, protestos e boicotes são assuntos que, para os mexicanos, se restringem ao outro lado da fronteira. “O que predomina agora no México é o nervosismo”, afirma Romero, aos risos. “As pessoas estão animadas, entusiasmadas e nervosas”.

— É uma junção do sentimento dos mexicanos de modo geral sobre sediar o evento. O país vai se encher de pessoas estrangeiras — algo de que o mexicano sempre gosta e se fascina –, mas também há o nervosismo em relação ao futebol — explica o jornalista da “Fox Deportes – Mediapro”.

Contagem regressiva para a Copa em Guadalajara, no México
Contagem regressiva para a Copa em Guadalajara, no México (Foto: Imago)

O clima no país também é de expectativa. A nação que se despediu há pouco das festividades de fim de ano e do Dia de Reis começa a demonstrar a ansiedade pelo Mundial de futebol na Avenida Paseo de la Reforma, na Cidade do México, onde “alguns lugares já colocaram objetos ou emblemas relacionados à Copa”.

É uma forma de demonstrar que se aproximam os dias de estabelecimentos darem o play na música “Waka Waka”. A canção de Shakira lançada na Copa de 2010 se tornou símbolo do torneio desde então e surge praticamente como prenúncio do evento entre os mexicanos, ressalta o jornalista.

E o ritmo é similar no Canadá. “O relógio da contagem regressiva está do lado de fora do BC Place Stadium, há alguns cartazes e outdoors pela cidade. Sei que já existem lojas vendendo produtos da Copa do Mundo”, diz à Trivela Gemma Karstens-Smith, jornalista na “The Canadian Press”, ao analisar o panorama em Vancouver.

A empolgação definitivamente aumentou, especialmente nos últimos meses.

É a primeira vez que o maior torneio esportivo do mundo desembarca no local. Os fãs de futebol estão animados desde o anúncio das sedes, reforça Karstens-Smith, mas ainda dividem os holofotes com o esporte mais popular da nação: hóquei no gelo.

— Acho que as pessoas estão mais focadas nas Olimpíadas (de inverno) de Milão-Cortina, principalmente com o retorno dos jogadores da Liga Nacional de Hóquei (NHL) aos Jogos — destaca Neil Davidson, também da “The Canadian Press”, à Trivela.

Há ainda a questão dos ingressos, fator negativo pré-Copa entre canadenses.

A venda de entradas para prestigiar o Mundial in loco gerou críticas à Fifa pelos altos valores. A entidade divulgou estimativa de preço na comercialização e, entre o jogo de abertura e a final, os tíquetes custavam em torno de 353 a 1.882 dólares (R$ 1961 a 10.458 na época), segundo a federação.

Ficou o alerta na ocasião de que o montante poderia variar dado o modelo de precificação dinâmica — jogos com maior interesse têm aumento no valor.

— Acho que a expectativa (no Canadá) foi um pouco atenuada pelo alto custo e dificuldade em conseguir ingressos. O custo de sediar o torneio também continua sendo uma preocupação. E acho que também houve decepção pelo fato de muitas das seleções mais importantes estarem jogando nos EUA, onde estádios maiores geram mais receita com ingressos — afirma Davidson, que trabalha na divisão de Toronto.

O sorteio realizado em dezembro de 2025 determinou os confrontos da fase de grupos e os locais onde as seleções devem fincar raízes conforme os embates.

Torcedoras do Canadá em jogo contra o Equador
Torcedoras do Canadá em jogo contra o Equador. Foto: Imago

Vancouver recebe cinco duelos do primeiro estágio, um da segunda fase e um das oitavas:

  • Austrália x seleção classificada na repescagem europeia C (Eslováquia, Kosovo, Romênia ou Turquia);
  • Canadá x Catar;
  • Nova Zelândia x Egito;
  • Suíça x Canadá;
  • Nova Zelândia x Bélgica;
  • Segunda fase – Vencedor do grupo B x Terceiro colocado dos grupos E, F, G, I e J;
  • Oitavas de final – Vencedor do jogo 85 x Vencedor do jogo 87.

Toronto, por sua vez, abriga cinco da fase de grupos e um da segunda fase:

  • Canadá x seleção classificada na repescagem europeia A (Itália, Irlanda do Norte, País de Gales ou Bósnia);
  • Gana x Panamá;
  • Alemanha x Costa do Marfim;
  • Panamá x Croácia;
  • Senegal x seleção classificada na repescagem mundial 2 (Bolívia, Iraque ou Suriname);
  • Segunda fase – Segundo colocado do grupo K x Segundo colocado do grupo L;

O cronograma abre margem para sonhar com estreia do Canadá logo contra uma grande potência do futebol mundial.

— Canadá pode estrear no torneio contra a Itália em 12 de junho, em Toronto, se os italianos passarem pela repescagem — comenta o jornalista.

— De acordo com o Censo Canadense de 2021, aproximadamente 1,55 milhão de pessoas declararam ter ascendência italiana, com cerca de 900 mil vivendo em Ontário. Ter a Itália jogando em Toronto aumentará muito o interesse.

Bola da Copa em exposição na Cidade do México
Bola da Copa em exposição na Cidade do México (Foto: Imago)

A dupla de comunicadores canadense também está ansiosa para ver como a seleção se portará no torneio. A equipe treinada por Jesse Marsch vai disputar a Copa do Mundo pela terceira vez, a segunda consecutiva.

O Mundial de Catar 2022 terminou com o Canadá eliminado na fase de grupos sem somar pontos. O cenário levou o técnico a considerar um “sucesso” superar este estágio na edição de 2026. Mas Gemma Karstens-Smith acredita que o grupo pode ir mais longe.

— O técnico fez algumas mudanças interessantes tanto no elenco quanto no estilo de jogo, e acho que eles têm potencial para ser uma grande surpresa — opina.

Davidson endossa o coro e declara que o Canadá mostrou ao longo do ciclo ser uma “seleção difícil de se bater”, embora tenha sofrido com lesões de atletas importantes — como Alphonso Davies, lateral-esquerdo do Bayern de Munique.

Marsch conseguiu construir defesa mais sólida. O treinador assumiu em maio de 2024 e esteve à frente em 27 jogos, dos quais a equipe passou 14 sem ser vazada. Por outro lado, enfrenta dificuldades em consolidar o ataque e soma 58 bolas na rede no período.

Desde a Data Fifa de setembro, o grupo registra sete tentos em sete jogos. “Os gols têm sido difíceis de marcar ultimamente”, reconhece Neil Davidson.

Jesse Marsch, técnico do Canadá
Jesse Marsch, técnico do Canadá (Foto: Imago)

No México, as expectativas em torno da seleção ainda não estão bem definidas. “Não se sabe o que vai acontecer. Pode ser um Mundial muito ruim ou a mágica pode acontecer”, salienta Romero.

Os motivos para a incerteza isso são variados. O México foi eliminado na fase de grupos da Copa do Mundo do Catar e nunca conseguiu passar das quartas de final na história. Mas o que explica o nervosismo dos torcedores está mais relacionado ao retrospecto recente.

O técnico Javier Aguirre assumiu o comando em junho de 2024 para sua terceira passagem por “El Tri” e soma 23 jogos, com 13 vitórias, seis empates e quatro derrotas. Um dos principais desafios do treinador tem sido o rendimento geral da equipe.

O comentarista Christian Martinoli, da “TV Azteca”, chegou a definir a safra atual como “pior geração de todas”.

Jogadores do México perfilados antes de amistoso com o Uruguai
Jogadores do México perfilados antes de amistoso com o Uruguai. Foto: Imago

Romero adota discurso diferente, apesar de não negar que há riscos. “Aguirre ainda está em período de testes, o que me parece perigoso”, analisa. “Ele confirmou que tem 80% dos jogadores que vão disputar a Copa do Mundo definido. Agora, eu, muitos colegas e a torcida não sabemos o time titular que vai jogar a Copa do Mundo”.

— Há uma base sólida que precisa ser potencializada. O problema é que faltam menos de seis meses. Essa base que digo falhou e o México teve uma das piores Copas de sua história — afirma ele.

Eles precisam se lembrar de que jogam em casa e têm que elevar o nível.

O jogo de estreia da seleção mexicana marca o pontapé inicial no Mundial de 2026. Será contra a África do Sul em 11 de junho, no Estádio Azteca, Cidade do México. A chave inclui também Coreia do Sul e um país da repescagem europeia D (que pode ser Dinamarca, Macedônia do Norte, República Tcheca ou Irlanda).

— Se o México quer uma chance ou quer ter a chance de fazer algo histórico, precisa se classificar em primeiro lugar no seu grupo. Aproveitar a vantagem de jogar em casa — opina.

Javier Aguirre, técnico do México
Javier Aguirre, técnico do México (Foto: Imago)

Mesmo analisando que México é uma espécie de “convidado” dos Estados Unidos na Copa do Mundo 2026, o jornalista ressalta ser importante aproveitar o período para exercer a hospitalidade e apresentar o novo Estádio Azteca ao mundo.

Ele reforça não haver nenhum sentimento de “exclusão” com a atenção mais focada nos EUA, afirmação sustentada também por Gemma Karstens-Smith e Neil Davidson em relação ao Canadá.

— Os Estados Unidos foram para a Copa do Mundo e disseram ao México e ao Canadá: ‘Vamos comigo?’ E acho que o México talvez seja o que menos pode reclamar, porque recebe a cerimônia de abertura, por causa do que o Estádio Azteca representa e por ser, dos três, o país com a maior história no futebol, o que mais participou de torneios internacionais — diz Romero.

Copa do Mundo e política se misturam

O trio mostra animação pelo “grande espetáculo” e a “festa” que são esperados por meio da Copa do Mundo, mas a empolgação rapidamente dá lugar a uma certa apreensão quando o assunto muda para potenciais implicações políticas do torneio.

A palavra “alerta” é dita enfaticamente por Romero. Segundo ele, a Fifa deveria adotar mais cautela especial nesta edição.

O profissional relembra que, conforme saíam os classificados ao Mundial, cresceu a preocupação sobre logística por causa de históricos governamentais entre as nações, como Irã, Jordânia e Estados Unidos, por exemplo.

Iranianos são opositores de Israel, que teve ligação com os norte-americanos nos últimos meses.

— Acho que se deve ter muita atenção à situação porque uma tragédia pode acontecer. Não estou falando só de lado político ou sanções do governo, mas também da parte social. Acho que no México e no Canadá têm menos perigo, mas nos EUA isso pode acontecer se um só indivíduo fizer uma loucura. Acho que a Fifa e as diferentes organizações precisam ter cuidado com o que acontece nesta Copa do Mundo, que pode ser perigosa neste sentido — declara Luis López Romero.

Gianni Infantino, presidente da Fifa (Foto: Imago)

Neil Davidson chama a atenção para a possibilidade de haver protestos “contra políticas restritivas de imigração” nos EUA, enquanto Karstens-Smith tem esperança de que tais questões não interfiram na competição.

Para a jornalista, o torneio deve ser um alento diante das “coisas assustadoras” do mundo.

— O esporte pode e deve ser um lugar onde as pessoas possam se unir, independentemente de sua nacionalidade ou origem — afirma.

Romero acredita que ter três sedes na competição ajuda a evitar que as tensões escalonem para algo maior. A mudança nesta edição é motivada pelo aumento no número de seleções participantes de 32 para 48.

A tendência é que Copa do Mundo com três anfitriões se sustente por muitos ciclos dado o tamanho do evento. A próxima, em 2030, será dividida entre Marrocos, Portugal e Espanha.

Foto de Milena Tomaz

Milena TomazRedatora de esportes

Jornalista entusiasta de esportes. Se formou em Comunicação Social em 2019.

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