Copa do Mundo

‘Estão tratando a Copa do Mundo como se fosse um show da Taylor Swift’

Valores considerados extorsivos afastam torcedores tradicionais do Mundial de 2026 e reforçam a percepção de que a competição se distancia de sua base histórica

A confirmação dos preços dos ingressos para a Copa do Mundo de 2026 provocou indignação entre torcedores da Inglaterra. Para muitos deles, acompanhar a seleção no torneio que será disputado nos Estados Unidos, Canadá e México deixou de ser um sonho possível. A reação mais recorrente é de frustração e de ruptura com a Fifa.

A forma mais barata de assistir aos três jogos da Inglaterra na fase de grupos custará 705 dólares (R$ 3.820) por partida, enquanto ingressos para a final partem de 4.185 dólares (R$ 22,6 mil).

Seguir a seleção inglesa desde a estreia até a decisão pode ultrapassar 7 mil dólares (R$ 38 mil) apenas em ingressos, sem considerar passagens, hospedagem e alimentação. Para torcedores habituados a acompanhar o time em Copas do Mundo, o impacto é imediato.

Torcedores tradicionais fora do estádio na Copa do Mundo

Billy Grant, conhecido entre os viajantes como “Billy the Bee”, prepara-se para a sua nona Copa do Mundo desde 1990. Mesmo com voos reservados, ele admite que os preços mudaram completamente seus planos.

“Isso muda a cara do futebol. As pessoas que criam o clima da Copa estão sendo excluídas”, disse, em entrevista ao “The Athletic”.

A Associação de Torcedores de Futebol da Inglaterra (FSA) classificou os valores como “escandalosos” e cobrou uma reação da Federação Inglesa. Já a Football Supporters Europe pediu a suspensão imediata das vendas, chamando o modelo de extorsivo.

Torcedor da Inglaterra durante partida da Copa do Mundo (Foto: Imago)

Para os torcedores, o problema não é apenas financeiro, mas simbólico: a sensação de que a Fifa trata a Copa como um grande espetáculo comercial, e não como um evento popular.

O modelo de venda também agrava o cenário. O pacote que garante ingressos até a eliminação da seleção exige pagamentos antecipados que chegam a 5,2 mil libras, com reembolsos apenas após o fim do torneio. Além disso, menos de 2.000 ingressos da categoria mais barata estarão disponíveis para torcedores ingleses, empurrando a maioria para valores acima de 430 dólares (R$ 2,3 mil) por jogo — antes da revenda inflacionar ainda mais os preços.

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Crítica dos ingleses sobre o Mundial nos EUA

Para torcedores como Reg e Mark Lawton, que acompanharam a Inglaterra nas Copas de 2014, 2018 e 2022, o impacto é claro. O orçamento inicial para 2026 precisou ser revisto drasticamente.

Eles falam de inclusão, mas isso é desprezível”, afirmou Reg. Assistir à final? “De jeito nenhum. Prefiro dar o dinheiro para a caridade do que para a FIFA.” “Não parece mais o futebol que você ama”, resume Mark ao The Athletic.

A comparação com torneios recentes é inevitável. No Catar, ingressos da fase de grupos custavam cerca de 68 libras (R$ 492). Agora, um único jogo decisivo pode ultrapassar 3 mil (R$ 21,7 mil). Para muitos, isso descaracteriza a Copa do Mundo como experiência coletiva.

Todo o modelo comercial, eles estão tratando como se fosse um show da Taylor Swift. Eu estava esperando com o coração na mão, sabendo como a FIFA é, mas eles superaram meus medos“, disse Reg.

Thomas Concannon, da FSA e da Embaixada de Torcedores da Inglaterra, alerta para um efeito simbólico profundo: torcedores com décadas de lealdade consideram encerrar ciclos históricos de presença em jogos da seleção.

Alguns cogitam viajar apenas para amistosos preparatórios e voltar para casa antes do torneio. A Inglaterra seguirá bem representada em 2026. Mas o perfil de quem estará nas arquibancadas tende a mudar.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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