Concacaf

Por que Groenlândia busca filiação na Concacaf e não na Uefa?

Após não conseguir vaga na Uefa, maior ilha do mundo quer participar da federação de futebol da América do Norte e Central

A Groenlândia, maior ilha do mundo e região autônoma do reino da Dinamarca, é uma nação apaixonada por futebol. Dos cerca de 55 mil habitantes, pelo menos 5 mil, ou seja, 10% da população, praticam o esporte.

Por muito tempo, a Federação Groenlandesa de Futebol (KAK, na sigla local) buscou a filiação na Fifa e na Uefa — mesmo sendo mais próxima da América do Norte, se identifica culturalmente com os europeus pela influência nórdica.

O país busca filiação na Fifa desde 1998, mas é necessário ter uma federação continental primeiro. Na entidade europeia, sofreram negativa por conta da falta estrutura local em relação aos estádios.

Agora, porém, a KAK oficializou a candidatura para ser filiada à Concacaf. O pedido foi formalmente enviado em 13 de maio, mas só divulgado nesta terça-feira (28) nas redes sociais da federação.

– Este é um momento incrivelmente emocionante para o futebol da Groenlândia. Estamos convencidos de que a adesão à Concacaf é a oportunidade certa para o desenvolvimento para o futebol groenlandês. Proporcionará uma plataforma atrativa onde clubes e seleções nacionais vão jogar mais partidas e torneios internacionais. […] Nós trabalhamos duro para chegar aqui e estou confiante de que isso irá inspirar nossos jogadores e desenvolver nossa cultura no futebol. – celebrou o técnico da seleção Morten Rutkjær no ofício enviado à Concacaf.

Rutkjær é o técnico da Groenlândia desde novembro de 2020 (Foto: Reprodução/site KAK)

– Buscar a adesão à Concacaf é um momento histórico para a Groenlândia. Isto reflete a nossa dedicação em desenvolver e promover o futebol no nosso país. A adesão na Concacaf nos dará a oportunidade de participar de torneios internacionais e trocar experiências com outras pessoas nações, o que será inestimável para o nosso esporte e sociedade. – reteirou Kenneth Kleist, presidente da KAK.

O pedido de filiação da Groenlândia ganhou o apoio essencial da Associação Dinamarquesa de Futebol (DBU, na sigla em dinamarquês).

Além disso, a KAK fortaleceu os laços com a Federação Islandesa de Futebol (KSI, na sigla em islandês) para compartilhamento de informações no desenvolvimento de jogadores e treinadores.

Tudo isso importa e a Concacaf pode levar em consideração para aprovar a filiação.

O que muda para Groenlândia com a filiação na Concacaf?

Atualmente nas “sombras” dos duelos internacionais, enfrentando normalmente países que não são filiados à Fifa, a Groenlândia ganharia vários direitos com a filiação na Concacaf.

No âmbito de seleções, poderia disputar as Eliminatórias para a Copa do Mundo, a Copa Ouro e a Liga das Nações. Já os clubes da ilha poderiam jogar a Liga dos Campeões da Concacaf. Até o futsal local seria beneficiado.

– Através de nossas conexões entre os países membros existentes da Concacaf, expandiremos nosso conhecimento e rede, sabemos o que nos preparar com todas as seleções nacionais e clubes. Estamos felizes em assumir a luta contra os times que vamos enfrentar — e tenho certeza que esses jogos serão ótimos motivação para todos os jovens jogadores da Groenlândia. – completou Rutkjær.

Na história, a seleção da Groenlândia fez 81 jogos com 26 vitórias, 10 empates e 45 derrotas — as únicas rivais filiadas à alguma federação foram as Ilhas Faroe (um empate e seis derrotas), Islândia (duas derrotas), Bermuda (duas derrotas) e Gibraltar (duas vitórias e duas derrotas), segundo informações do perfil Copa Além da Copa, no X (ex-Twitter).

A seleção também joga o Island Games, Olimpíada disputada a cada dois anos por ilhas ao redor do mundo. Terminou duas vezes com o vice (2013 e 2017), além da quarta colocação em outras três.

Há precedente na Concacaf para aprovar os groenlandeses

A Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe conta atualmente com 41 países filiados.

Como esperança para Groenlândia, evidenciada no ofício enviado à entidade, há casos próximos ao deles, de nações que pertencem a países europeus, casos de Guiana Francesa, Guadalupe e Martinica — todos departamentos da França.

– Esta abertura nos membros cria uma perspectiva realista possibilidade de admissão da Groenlândia. – escreveu a KAK.

Desafio logístico também pode ser levado em consideração

Se aprovada a filiação, a logística será um desafio importante. Não existem muitos voos da América do Norte em direção à maior ilha do mundo.

Ainda é um trajeto enorme. Segundo o Google Maps, um voo de Los Angeles para capital Nuuk duraria mais de 16 horas.

No handebol, Groenlândia já é aceita

Ginásio na Groenlândia que recebeu Pan em 2018 (Foto: Divulgação)

Além do futebol, o handebol é o esporte mais popular no território e possui um histórico positivo, tendo o reconhecimento da Federação Internacional de Handebol — não do Comitê Olímpico Internacional.

O país já recebeu o Campeonato Pan-Americano de Handebol Masculino, em 2018, e o selecionado feminino se classificou duas vezes para o Mundial, em 2001 e 2023, em ambas caindo ainda na fase de grupos.

Por que as Ilhas Faroe se filiou à Uefa e a Groenlândia não?

As Ilhas Faroe são o mesmo que a Groenlândia: um território dependente da Dinamarca. No entanto, ao contrário da ilha próxima da América do Norte, o arquipélago entre a Escócia e a Islândia é filiado à Uefa desde o início dos anos 1990.

A diferença está justamente na estrutura. O território groenlandês é quase todo coberto pelo gelo, e a pequena população ocupa majoritariamente a costa sudoeste. Pelo clima, é quase impossível cultivar grama e por muito tempo praticaram o esporte em campos de terra batida, areias ou até pedras.

Com a aprovação da Fifa para o uso de gramados sintéticos, a KAK criou um projeto para um estádio com instalações padrão internacional, além da grama artificial.

Uma parceria com a Federação Dinamarquesa garantiu diversos campos artificiais pela ilha, como disse o Jesper Møller, presidente da entidade, à CNN em 2017.

– Nosso plano era construir seis campos de grama artificial até 2021, mas já estamos com 11 ou 12. Tem sido um grande sucesso. É uma longa jornada, mas já demos início a ela. O futuro do futebol na Groenlândia é brilhante! – afirmou Møller.

Porém, após aceitar a filiação de Gilbraltar, a Uefa decidiu mudar o estatuto e agora só aceita países que sejam independentes.

Campeonato da Groenlândia tem menos de uma semana

Qaqortoq foi a última cidade a receber o Campeonato da Groenlândia a partir de hoje (Foto: Reprodução)

As gigantes distâncias do país, de tamanho maior que Alemanha, França, Espanha, Itália, Áustria, Suíça e Bélgica juntas, atrapalham muito a prática do futebol, além da clara questão do clima.

Por isso, o Campeonato Groenlandês é o mais curto do mundo: dura, normalmente, uma semana.

A edição de 2023 começou em 10 de agosto e terminou cinco dias depois, jogado durante o verão. A taça é disputada apenas entre oito times, que se classificam através de eliminatórias regionais.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Nascido e criado em São Paulo, é jornalista pela Universidade Paulista (UNIP). Já passou por Yahoo!, Premier League Brasil e The Clutch, além de assessorias de imprensa. Escreve sobre futebol nacional e internacional na Trivela desde 2023.
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