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A uma vitória do primeiro título de sua história, a Groenlândia luta pelo reconhecimento da Fifa

Ao longo desta semana, várias seleções alternativas desfrutam de sua grande oportunidade no cenário internacional. As equipes nacionais disputam os Island Games, Olimpíada bienal da qual participam diversas ilhas ao redor do mundo – a maioria absoluta, territórios dependentes de outros países. E o torneio de futebol masculino possui enorme tradição nos Jogos, exatamente por abrir espaço a seleções que raramente realizam amistosos. Nesta edição, sediada na ilha sueca de Gotlândia, 16 territórios buscam o título nos gramados. Para alguns, no entanto, a importância do evento é bem maior. Aos groenlandeses, ele oferece a chance de expor sua luta pela oficialização junto à Fifa.

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Maior ilha do mundo, a Groenlândia é a principal participante do Island Games interessada no processo de admissão da entidade futebolística. O território ao norte do Oceano Atlântico, com 57 mil habitantes, é considerado um “país autônomo constituinte” do Reino da Dinamarca. Seu status é semelhante ao das Ilhas Faroe, por exemplo. Todavia, enquanto os faroenses estão integrados à organização competitiva da Uefa desde o início dos anos 1990, os groenlandeses não têm o mesmo direito. A federação local não cumpre os pré-requisitos estruturais demandados pela Fifa, da mesma forma que precisa se filiar a uma confederação continental antes disso – a Concacaf, à qual pertence territorialmente, ou a Uefa, com a qual sua federação possui maiores ligações culturais.

A pretensão de fazer parte do sistema internacional de futebol é alimentada principalmente desde a virada do século, quando o aclamado Sepp Piontek comandava a seleção groenlandesa. O revolucionário responsável pela Dinamáquina, inclusive, dirigiu os “Ursos Polares” em seu jogo mais importante. Em 2001, para dar visibilidade à empreitada, a ilha marcou um amistoso contra o Tibet. O episódio causou até mesmo a ameaça da China em boicotar a compra de camarões dos nórdicos, seu principal produto de exportação. Ainda assim, a Groenlândia foi em frente e goleou os tibetanos por 4 a 1, em Copenhague. No mais, os groenlandeses chegaram a realizar amistosos extra-oficiais contra Islândia e Ilhas Faroe, no máximo arrancando um empate dos faroenses. Também fizeram parte das competições “Non-Fifa”, sem grande sucesso. Além, é claro, de estarem presentes nos Island Games desde 1989.

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Nos últimos anos, para tentar desenvolver o futebol na Groenlândia, a federação dinamarquesa ratificou um projeto de cooperação. O primeiro campo com grama artificial do território foi inaugurado em 2009, na cidade de Qaqortoq. Apesar de ter sido financiado pela Fifa, graças a um arranjo dos dinamarqueses, ele não possui dimensões oficiais. Além disso, outros campos menores vêm sendo bancados por doações desde então. Todavia, o principal passo rumo à oficialização da seleção permanece como um sonho. O projeto de um estádio nacional totalmente coberto em Nuuk, capital da ilha, foi congelado pelo parlamento no último mês de fevereiro. Falta verba.

As dificuldades ao futebol na Groenlândia, aliás, são bem mais arraigadas. O clima é um obstáculo óbvio, em diferentes sentidos. O Campeonato Groenlandês existe desde a década de 1950, mas precisa se limitar a três meses do ano, enquanto a fase final se concentra em uma maratona de uma semana. O acesso entre as cidades é difícil, com estradas inócuas, e deslocamentos quase sempre feitos pelo mar. O solo só permite a existência de campos de grama sintética ou de terra batida, fortalecendo o futsal como alternativa na preparação dos jogadores e na formação dos novatos – aproveitando assim a estrutura do handebol, esporte coletivo mais bem-sucedido do país, com três participações no Mundial da modalidade. O próprio ato de manter a seleção exige um alto gasto. A proposta de criar um time permanente para disputar as divisões amadoras do Campeonato Dinamarquês, como acontece com Guernsey nos níveis inferiores do Inglês, se torna impossível pelo preço exorbitante dos voos.

Desta maneira, há uma antítese que trava a seleção da Groenlândia. A falta de investimento no futebol local impede a aceitação da Fifa. Por outro lado, a aceitação da Fifa significaria justamente ter mais fundos para melhorar a estrutura. Apesar de tudo, a paixão dos groenlandeses pelo esporte ajuda a atenuar os problemas. Cerca de 10% da população é composta por jogadores federados. E a seleção luta contra as suas limitações para participar dos Island Games. Os atletas tiraram dinheiro do próprio bolso para viajar à Gotlândia, embora alguns dos melhores da equipe não tenham conseguido comparecer ao torneio por falta de condições financeiras.

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“Estamos tentando desenvolver os nossos jogadores e fazer o nosso melhor. Mas é lógico que um país como a Groenlândia também precisa de ajuda da Fifa. Se contássemos com a Fifa, a situação seria bem diferente, porque teríamos como cobrir os gastos”, aponta o técnico da equipe, Tekle Ghrebrelul, em entrevista à Al-Jazeera. O eritreu comanda um elenco composto tanto por descendentes de dinamarqueses que colonizaram a costa quanto por inuítes – os membros das etnias indígenas esquimós compõem a maioria da população.

O próprio grupo de atletas vê os Island Games como a grande chance de defender a causa da Groenlândia. É o que explica Patrick Frederiksen, um dos jogadores presentes na Gotlândia: “É realmente importante para nós. Estamos tentando apresentar o nosso melhor. É a única oportunidade que nós temos. Precisamos conquistar o respeito, mostrar que estamos treinando bastante e buscar uma posição junto à Fifa”.

Quem sabe, a exposição futura até ajude os futebolistas locais a buscarem voos mais altos fora da ilha. O nome mais famoso nascido na Groenlândia é o de Jesper Gronkjaer, que, no entanto, cresceu e iniciou carreira na Dinamarca. O atacante, de passagens marcantes por Ajax e Chelsea, disputou duas Copas do Mundo e duas Eurocopas. A seleção groenlandesa, inclusive, já contou com jogadores atuando na estrutura profissional do Campeonato Dinamarquês, como o lateral Niklas Kreutzmann e o atacante Vitus Kofoed.

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Ao menos a participação da Groenlândia neste Island Games vem justificando todas as pretensões de seus membros. A seleção figurou no torneio de futebol dos Jogos em 14 oportunidades. Nos primeiros anos costumava aparecer como a quarta força, mas a partir de meados da década de 1990 dificilmente passava de fase. Já nesta década, a melhora no desempenho é notável. O país conquistou sua primeira medalha em 2013, ficando com a prata ao perder a decisão para Bermuda. Em 2015, terminou com um digno quinto lugar. E o ouro é uma possibilidade concreta para 2017, com a segunda final da história dos Ursos Polares.

Durante a fase de grupos, a Groenlândia terminou na primeira colocação de sua chave, superando Gotlândia (Suécia), Hébridas Exteriores (Escócia) e Froya (Noruega). Já nesta quinta, pelas semifinais, eliminou Menorca, algoz na edição anterior. Após o empate por 1 a 1 com bola rolando, os groenlandeses venceram os espanhóis nos pênaltis. Farão a decisão contra os britânicos da Ilha de Man, que já foram finalistas em outras quatro oportunidades, mas também nunca botaram o ouro no peito. O momento de, quem sabe, ratificar todas as esperanças dos nórdicos em darem um passo maior rumo ao cenário internacional.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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