Brasil

O perigo dos amistosos e as dúvidas que Ancelotti precisa resolver no Brasil

Após derrota para a França, seleção brasileira encara a Croácia na terça-feira (31) tentando aliviar pressão às vésperas do Mundial

Em março de 2010, a Argentina visitou a Alemanha num amistoso preparatório para a Copa do Mundo da África do Sul. Ganhou por 1 a 0. A Alemanha registrou somente um chute no alvo. Três meses depois, as mesmas equipes se enfrentaram nas quartas de final do Mundial. Resultado? Alemanha, 4 a 0. 

Amistoso é amistoso. Um jogo para valer é outra coisa.

Confesso que gosto da abordagem aqui para partidas da seleção brasileira contra adversários de peso. Curto o fato que o prestígio da Seleção está em jogo. É tocante. 

Mas, nas circunstâncias do futebol contemporâneo, também acho que é muito ingênua, quase infantil — e também que pode ser muito perigosa. Já vi, na vitória e na derrota, conclusões equivocadas tiradas de jogos meia-bomba.

Parece incrível, mas em mundiais consecutivos o Brasil tropeçou na mesma pedra três vezes. 

Neymar a serviço da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2022 (Foto: Imago/Newscom World)
Neymar a serviço da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2022 (Foto: Imago/Newscom World)

O problema se chamava a Copa das Confederações. Na verdade, esse torneio, já inexistente, não passava de uma coleção de amistosos glorificados no fim da temporada. Com pouca preparação e muito cansaço, os times se apresentavam para cumprir tabela, para se testar, para conhecer melhor o país onde a Copa do Mundo ia rolar um ano mais tarde.

Isso quer dizer que havia uma diferença enorme em intensidade, motivação e nível de jogo entre a Copa das Confederações e o Mundial. Mas três vezes — três vezes!!!! –, sendo duas com técnicos de alta experiência, o Brasil confundiu as coisas, pensando que as vitórias em 2005, 2009 e 2013 já colocavam o seu time diretamente na briga para a Copa do Mundo. 

“Já temos uma mão no troféu”, e tal. O ambiente ficava contaminado pela euforia do triunfo num torneio que, na verdade, teve cara de amistoso.

Dúvidas na seleção brasileira são legítimas após derrota

Vinicius Júnior durante amistoso da seleção brasileira (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)
Vinicius Júnior durante amistoso da seleção brasileira (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

A mesma coisa, só pelo outro lado, pode acontecer com uma derrota como aquela sofrida contra a França na última quinta feira (26) — que nada presta, que o rival está num outro patamar e tal.

Claro, como em qualquer jogo, tem bastante para refletir e aprender depois da partida. A grande questão, na insignificância da minha opinião, paira sobre a estrutura do time. Dá para jogar com quatro na frente e somente dois volantes? É uma preocupação, especialmente levando em consideração o calor dos Estados Unidos durante a Copa e a idade de Casemiro. 

E, de qualquer maneira, é desejável atuar assim? Não falta cadência e controle no meio? E sem tal controle, não exagerar a tendência de Vinicius Júnior, especialmente, e Raphinha também, de serem afobados demais? Uma cadência, uma pausa, não ia ajudar os velocistas, os colocando em jogo no momento certo?

(Foto: Daniel Derajinski/Icon Sport)

Para mim, todas essas perguntas e dúvidas são legítimas. O que não serve é uma resposta que entra na histeria por causa do resultado. Não estou pensando que, caso se enfrentem na Copa, o Brasil vai golear a França, como aconteceu 16 anos atrás com a Alemanha e Argentina. Mas estou afirmando com toda convicção que seria outro jogo.

O time do Brasil na quinta-feira representou, sim, uma ideia do jogo. Mas com um nível de preparação e de recursos bem diferente de uma partida eventual na Copa. O futebol de hoje exige muito dos zagueiros — colocação, força, velocidade e a capacidade de construir, por exemplo. O Brasil com Marquinhos e Gabriel Magalhães é uma coisa. Com Léo Pereira, um defensor sem grande talento para defender no chão, é visivelmente outra.

Daqui a pouco, quase ninguém vai lembrar o que aconteceu na quinta feira, ou até nesta terça-feira (31) contra a Croácia. Mas se perder um amistoso ajuda a ganhar uma Copa, então bem-vinda seja a derrota.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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