O perigo dos amistosos e as dúvidas que Ancelotti precisa resolver no Brasil
Após derrota para a França, seleção brasileira encara a Croácia na terça-feira (31) tentando aliviar pressão às vésperas do Mundial
Em março de 2010, a Argentina visitou a Alemanha num amistoso preparatório para a Copa do Mundo da África do Sul. Ganhou por 1 a 0. A Alemanha registrou somente um chute no alvo. Três meses depois, as mesmas equipes se enfrentaram nas quartas de final do Mundial. Resultado? Alemanha, 4 a 0.
Amistoso é amistoso. Um jogo para valer é outra coisa.
Confesso que gosto da abordagem aqui para partidas da seleção brasileira contra adversários de peso. Curto o fato que o prestígio da Seleção está em jogo. É tocante.
Mas, nas circunstâncias do futebol contemporâneo, também acho que é muito ingênua, quase infantil — e também que pode ser muito perigosa. Já vi, na vitória e na derrota, conclusões equivocadas tiradas de jogos meia-bomba.
Parece incrível, mas em mundiais consecutivos o Brasil tropeçou na mesma pedra três vezes.
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F03%2Fneymar-selecao-brasileira-scaled-e1773697241855.jpg)
O problema se chamava a Copa das Confederações. Na verdade, esse torneio, já inexistente, não passava de uma coleção de amistosos glorificados no fim da temporada. Com pouca preparação e muito cansaço, os times se apresentavam para cumprir tabela, para se testar, para conhecer melhor o país onde a Copa do Mundo ia rolar um ano mais tarde.
Isso quer dizer que havia uma diferença enorme em intensidade, motivação e nível de jogo entre a Copa das Confederações e o Mundial. Mas três vezes — três vezes!!!! –, sendo duas com técnicos de alta experiência, o Brasil confundiu as coisas, pensando que as vitórias em 2005, 2009 e 2013 já colocavam o seu time diretamente na briga para a Copa do Mundo.
“Já temos uma mão no troféu”, e tal. O ambiente ficava contaminado pela euforia do triunfo num torneio que, na verdade, teve cara de amistoso.
Dúvidas na seleção brasileira são legítimas após derrota
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F03%2Fvinicius-junior-selecao-brasileira-2-scaled.jpg)
A mesma coisa, só pelo outro lado, pode acontecer com uma derrota como aquela sofrida contra a França na última quinta feira (26) — que nada presta, que o rival está num outro patamar e tal.
Claro, como em qualquer jogo, tem bastante para refletir e aprender depois da partida. A grande questão, na insignificância da minha opinião, paira sobre a estrutura do time. Dá para jogar com quatro na frente e somente dois volantes? É uma preocupação, especialmente levando em consideração o calor dos Estados Unidos durante a Copa e a idade de Casemiro.
E, de qualquer maneira, é desejável atuar assim? Não falta cadência e controle no meio? E sem tal controle, não exagerar a tendência de Vinicius Júnior, especialmente, e Raphinha também, de serem afobados demais? Uma cadência, uma pausa, não ia ajudar os velocistas, os colocando em jogo no momento certo?
/https%3A%2F%2Fmedia.trivela.com.br%2Fmain%2F2026%2F03%2Fancelotti-selecao-brasileira-2-1-scaled.jpg)
Para mim, todas essas perguntas e dúvidas são legítimas. O que não serve é uma resposta que entra na histeria por causa do resultado. Não estou pensando que, caso se enfrentem na Copa, o Brasil vai golear a França, como aconteceu 16 anos atrás com a Alemanha e Argentina. Mas estou afirmando com toda convicção que seria outro jogo.
O time do Brasil na quinta-feira representou, sim, uma ideia do jogo. Mas com um nível de preparação e de recursos bem diferente de uma partida eventual na Copa. O futebol de hoje exige muito dos zagueiros — colocação, força, velocidade e a capacidade de construir, por exemplo. O Brasil com Marquinhos e Gabriel Magalhães é uma coisa. Com Léo Pereira, um defensor sem grande talento para defender no chão, é visivelmente outra.
Daqui a pouco, quase ninguém vai lembrar o que aconteceu na quinta feira, ou até nesta terça-feira (31) contra a Croácia. Mas se perder um amistoso ajuda a ganhar uma Copa, então bem-vinda seja a derrota.