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Entre 2002 e 2026: O que mudou e o que se repete no pré-Copa do Brasil

Comparação entre os ciclos mostra como amistosos e pressão externa moldaram — e ainda moldam — a construção da Seleção antes da Copa

Poucas vezes a seleção brasileira chegou a uma Copa do Mundo com tantas perguntas em aberto quanto em 2002. O título que viria semanas depois acabou reescrevendo a memória daquele ciclo, mas o cenário pré-Mundial era de construção, pressão e confiança instável.

Entre trocas no comando, resultados irregulares e decisões contestadas, o Brasil desembarcou na Ásia mais como uma promessa a ser confirmada do que como uma certeza consolidada.

Mais de duas décadas depois, o cenário é diferente, mas a análise ainda encontra pontos de aproximação.

A Seleção que se prepara para a Copa de 2026 talvez não carregue o mesmo histórico turbulento nos últimos meses pré-mundial, porém, vive um processo claro de formação. Sob o comando de Carlo Ancelotti desde maio de 2025, o Brasil ainda busca respostas e utiliza a reta final de amistosos como espaço de testes e definições.

Antes do penta, uma Seleção em construção e um país dividido

Felipão e Ronaldo durante treino da seleção brasileira em 2002
Felipão e Ronaldo durante treino da seleção brasileira em 2002 (Foto: Ulmer / Imago)

A conquista do pentacampeonato costuma dar a impressão de um caminho sólido. Mas a trajetória da seleção brasileira até a Copa de 2002 passou longe disso. O ciclo iniciado após o vice em 1998 foi marcado por instabilidade, mudanças no comando técnico e uma sucessão de resultados que alimentaram dúvidas sobre a real força do time.

Em um intervalo curto, o Brasil teve três treinadores diferentes. Vanderlei Luxemburgo deixou o cargo após resultados frustrantes — incluindo a eliminação precoce nos Jogos Olímpicos de Sydney — e problemas extracampo. Seu sucessor, Emerson Leão, também não resistiu a uma sequência ruim, marcada, entre outros episódios, pela derrota para a Austrália na disputa de terceiro lugar da Copa das Confederações de 2001.

Foi nesse cenário que Luiz Felipe Scolari assumiu, em junho de 2001, com a missão de reorganizar uma equipe que ainda buscava identidade. O início não foi promissor: logo nos primeiros meses, o Brasil acumulou resultados irregulares e sofreu um dos episódios mais marcantes daquele período — a eliminação para Honduras nas quartas de final da Copa América de 2001, considerada até hoje um dos maiores vexames da história da Seleção.

A campanha nas Eliminatórias reforçava esse cenário de incerteza. O Brasil oscilava, alternava vitórias e derrotas e chegou à rodada final ainda pressionado. A classificação só veio no último compromisso, com vitória por 3 a 0 sobre a Venezuela, resultado que encerrou uma trajetória marcada por altos e baixos e garantiu a vaga de forma bem menos confortável do que o habitual

Fora de campo, o ambiente também era carregado. A final de 1998 ainda deixava marcas, especialmente pelo episódio envolvendo Ronaldo, que sofreu uma convulsão antes da decisão e virou alvo de teorias da conspiração — caso que chegou a motivar uma CPI sobre a relação entre CBF e Nike.

Então técnico da seleção brasileira, Felipão ao lado de um quadro tático
Então técnico da seleção brasileira, Felipão ao lado de um quadro tático. Foto: GPG / Icon Sport

Nem mesmo a formação do elenco escapou das críticas. A ausência de Romário foi amplamente contestada, enquanto a presença de Ronaldo, ainda em recuperação física, dividia opiniões. O grupo que se formava tinha talento, mas não consenso.

A mudança de percepção começou a surgir apenas na reta final. Resultados importantes nas Eliminatórias e, depois, os amistosos antes da Copa ajudaram a reduzir a pressão e oferecer sinais mais positivos. Ainda assim, o Brasil embarcou para a Ásia longe de ser unanimidade.

Foi nesse contexto que se consolidou a chamada “Família Scolari”. A ideia/slogan traduziu a tentativa de fortalecer o grupo internamente para suportar o ambiente externo. E, se o caminho até ali foi irregular, foi justamente essa construção — contestada e cheia de ajustes — que serviu de base para a campanha que terminaria com o pentacampeonato.

Últimos amistosos do Brasil antes da Copa de 2002:

  • Catalunha 1 x 3 Brasil
  • Malásia 0 x 4 Brasil

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O pré-2026: menos turbulência recente, mais construção sob observação

Ancelotti durante jogo do Brasil no Maracanã
Ancelotti durante jogo do Brasil no Maracanã (Foto: Marcelo Cortes / Fotoarena / Imago)

Diferentemente de 2002, quando chegou à Copa ainda cercada por desconfiança após uma trajetória irregular, a Seleção de hoje atravessa um período de construção mais controlado — ainda que igualmente pressionado por respostas.

Isso não significa que o caminho tenha sido linear. No ciclo pós-Copa de 2022, o Brasil viveu um período de transição marcado por incertezas no comando técnico, com passagens de Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior antes da chegada de Carlo Ancelotti. Foi apenas a partir da definição do italiano como treinador que o ambiente passou a ganhar contornos mais estáveis.

Desde que assumiu, em maio de 2025, Ancelotti teve pouco mais de um ano até a Copa de 2026 — um cenário semelhante ao de Luiz Felipe Scolari, que iniciou seu trabalho em junho de 2001, às vésperas do Mundial na Ásia. A diferença está em outros aspectos.

Enquanto Felipão precisou reorganizar uma equipe emocionalmente desgastada, Ancelotti tem conduzido um processo de ajustes mais graduais, tentando transformar um elenco talentoso em um time com identidade clara. Até o momento, são oito partidas no comando — com quatro vitórias, dois empates e duas derrotas — recorte que reforça a ideia de um trabalho ainda em consolidação.

Ancelotti durante sessão de treinamento com a seleção brasileira em Orlando, na Flórida
Ancelotti durante sessão de treinamento com a seleção brasileira em Orlando, na Flórida (Foto: Victor Eleuta/Fotoarena/Imago)

Nesse contexto, os amistosos ganham papel central. Mais do que simples testes finais, eles têm sido utilizados como ferramenta ativa de construção: variações táticas, observação de peças e tentativas de definição de hierarquias.

A escolha de adversários de perfis distintos — asiáticos (Japão e Coreia do Sul), africanos (Senegal e Tunísia) e europeus (França e Croácia) — dialoga com essa necessidade de ampliar o repertório antes da Copa.

Se em 2002 os últimos jogos ajudaram a aliviar a pressão e fortalecer o ambiente interno, em 2026 eles cumprem uma função ligeiramente diferente: não a de apagar um cenário turbulento, mas a de dar forma definitiva a um time que ainda busca sua versão mais confiável.

A cobrança, no entanto, permanece como ponto de contato entre os ciclos. A presença de um técnico do porte de Ancelotti naturalmente eleva a expectativa, e cada teste passa a ser interpretado como indício do que o Brasil pode — ou não — entregar no Mundial.

Últimos jogos do Brasil antes da Copa do Mundo 2026

Seleção brasileira perfilada no gramado do Maracanã
Seleção brasileira perfilada no gramado do Maracanã (Foto: Heuler Andrey / Action Plus / Imago)
  • 31/03 – Brasil x Croácia, em Orlando
  • 31/05 – Brasil x Panamá, no Maracanã
  • 06/06 – Brasil x Egito, em Cleveland

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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