Brasil

Emocionado, Dorival abre o coração e promete devolver Seleção ao povo em apresentação na CBF

Dorival assina contrato até depois da Copa do Mundo de 2026 e defende Neymar em primeira entrevista

Dorival Júnior entrou no auditório da sede da CBF, no Rio de Janeiro, pontualmente às 15h (horário de Brasília) desta quinta-feira (11) para ser apresentado oficialmente como novo técnico da seleção brasileira. Foi diante da imprensa e em frente a um painel que estampava sua foto e o slogan “Novos sonhos para sonhar” que o treinador assinou contrato com a entidade até depois da Copa do Mundo de 2026.

Quem revelou a duração do vínculo foi o presidente Ednaldo Rodrigues, em um discurso em que ele apresentou o treinador e ainda disse que a contratação é para “consumar um projeto vitorioso”. Foi apenas depois desta solenidade, de posar para fotos e de vestir o agasalho com o escudo da CBF que Dorival falou pela primeira vez como técnico da Seleção.

De imediato, o técnico fez um pronunciamento em que evocou toda a sua história, desde as origens na Ferroviária, em Araraquara, até os 14 títulos como treinador e a luta contra o câncer que ele e a esposa superaram nos últimos anos. Em dez minutos, Dorival fez um discurso pontuado pela emoção e disse que a partir de agora, a Seleção não é “sua”, e sim, será a “Seleção do povo”.

“É uma carreira que me entreguei de corpo e alma para buscar esse momento. Estou aqui representando a Seleção mais vitoriosa do planeta, que inspirou muitos e muitos do mundo todo e tem por obrigação voltar a fazer o mesmo. O futebol brasileiro é muito forte, se reinventa. Ele não pode viver um momento como esse que estamos passando. Que possamos rapidamente absorver e encontrar um novo caminho” (Dorival Júnior)

Para encontrar este “novo caminho” para a sua “Seleção do povo”, Dorival fez logo a sua primeira convocação: o torcedor brasileiro. O treinador quer trabalhar para resgatar a credibilidade da Seleção, além de aproximá-la da torcida.

– Estou aqui de coração aberto, buscando fazer a primeira convocação do momento: que o torcedor brasileiro viva um pouco mais a sua Seleção. É obrigação nossa entregar uma Seleção que volte a passar credibilidade a todos nós. Eu peço de coração que o torcedor volte a participar do dia a dia da nossa Seleção. E num segundo momento, tão importante quanto, eu convoco a cada um dos senhores que estejam envolvidos no futebol. O futebol brasileiro precisa de cada um de vocês. Não podemos nos dividir entre uma seleção de Diniz, Tite, Mano Menezes, Felipão. A Seleção é do povo. A partir de agora, não é a Seleção do Dorival. É a Seleção do povo brasileiro – afirmou o treinador.

> Confira as principais falas de Dorival Júnior

Imagem da Seleção está arranhada?

“O mais importante é voltar a encontrar uma estrutura que facilite essa recuperação. Eu sei que foram resultados complicados, o momento foi complicado. Eu imagino o esforço que o Fernando tenha feito para encontrar soluções. E às vezes com toda a entrega não consegue encontrar. Vamos fazer o melhor para encontrar um caminho. Vamos encontrar um equilíbrio para a partir daí termos outra conduta em busca da nossa classificação e de disputa direta de mais um título”.

Dorival diz que Neymar é um dos três melhores do mundo

“Brasil tem que aprender a jogar sem o Neymar. Porque agora ele tem uma lesão. Mas nós temos um dos três maiores jogadores do mundo, e depois vamos contar com ele. Não tenho problema nenhum com o Ney. A proporção que aquela situação tomou foi desproporcional. Após aquela partida nós já estávamos conversando. A diretoria do Santos tomou uma decisão e eu respeitei. Mas sempre que nos encontramos foi uma situação positiva. O futebol é muito dinâmico. O céu e o inferno estão a um palmo de distância”.

Dorival faz só o “feijão com arroz”?

“Eu fico muito tranquilo. Minha primeira equipe, o Figueirense, depois a quarta equipe, o Figueirense, a décima equipe que foi o Santos de 2010, a penúltima o Flamengo, a última o São Paulo. Todas jogavam de uma forma diferente. Então esse feijão com arroz tinha sempre um tempero diferente de cada estado. Eu ajudei a salvar seis equipes grandes do rebaixamento. E cheguei a decisões importantes de competição. Não voltei três vezes ao Flamengo, duas ao Santos, duas ao São Paulo por acaso. Foi porque deixei algo plantado. Se foi um feijão, ou se foi um arroz, eu acho que agradei. E retornar é muito difícil. Em algumas eu havia ganho campeonatos, em outras não”.

Dorival Júnior quer que a Seleção volte a ser do povo (Staff Images/Divulgação CBF)

Expectativa de assumir a Seleção

“Em duas ou três oportunidades, meu nome foi ventilado e acabou não acontecendo. Quando surgiu dessa vez, da maneira como foi, também imaginei que fosse uma especulação natural de mercado pela saída do Fernando. De repente, se concretizou. Para mim, não criei expectativa, como havia criado anteriormente. Fato natural, você está envolvido. Mas procurei não criar expectativa e a partir do momento que recebi uma chamada, as coisas mudaram um pouco. Era sonho, era objetivo. Eu não saí do São Paulo. Eu não troquei o São Paulo. Estou vindo para uma Seleção. Não é um convite, é um chamado. Nenhum profissional em sã consciência deixaria de atender”.

Saída do São Paulo

“Eu tinha meu contrato no São Paulo, todos os jogadores contratados foram com a concordância da diretoria. Nós montamos o São Paulo para que o treinador que chegar faça o que bem entender. São jogadores versáteis para termos elenco enxuto em condição de poder abastecer toda e qualquer situação que viesse acontecer ao longo das competições”.

Conversou com Diniz?

“Não, não conversei ainda com o Fernando (Diniz). Com relação à comissão, venho conversando com o presidente. É um momento em que eu preciso ter ao meu lado pessoas que também confio, com quem já trabalhei. Algumas funções serão necessárias, dentro da liberdade que ele me deu, não que os que estão aqui dentro não sejam profissionais. Preciso ter pessoas ao meu lado com quem já tive momentos positivos e negativos. Algumas situações, com certeza, precisaremos intervir. Presidente me deu liberdade, mas com responsabilidade com os profissionais que aqui estão e com aqueles que poderão chegar”.

Instabilidade política na CBF

“O contato com o presidente Ednaldo foi no final de semana. Um prazer a uma satisfação poder chegar neste momento da minha carreira à frente da seleção. Sobre instabilidade política é um assunto em que eu não entrou. Tenho a confiança do presidente para fazer meu trabalho daqui para frente, preparar a equipe, ganhar jogos e chegar numa Copa do Mundo que será muito disputada. Vou trabalhar neste sentido, me preparei muito para estar aqui. Tenho uma convicção muito grande que a seleção brasileira vai alcançar seus objetivos”.

Emoção de assumir a Seleção

“Quando eu deitei, fiquei pensando qual seria a pergunta (Kiomi Nakamura, repórter japonesa setorista da Seleção há duas décadas). Eu nunca planejei minha vida. Mas eu esperava muito estar aqui. Eu vi muitas entrevistas dos meus técnicos, Leão, Parreira, Felipão. E dos meus amigos que estiveram aqui: Fernando, Tite, Mano. E imaginava que poderia estar aqui um dia representando o povo brasileiro como treinador da seleção. A partir de segunda-feira, o presidente vai começar a me cobrar”.

Copa América em meio ao Brasileirão

“Sofri bastante com tudo isso, mas nunca tirei a possiblidade de um profissional estar à frente do seu maior sonho. Em 2016, o Santos disputando a ponta do Campeonato Brasileiro. De repente, nas Olimpíadas perdemos o Gabigol, Zeca e Thiago Maia. Na sequência, Copa América, mais três jogadores do Santos convocados. Foi um problema muito sério, e o Santos ainda conseguiu um vice-campeonato daquela competição. Sei o quanto pesa a saída desses jogadores, mas o quanto são importantes na Seleção. Temos que ter equilíbrio entre necessidade e a vontade do seu clube. Mas não é fácil. Já vivi o outro lado e agora vou ter que pensar dessa forma e me colocar na situação do outro treinador, do lado oposto. Não são situações fáceis”.

Mudanças de nomes e na maneira de jogar?

“Não é nem uma mudança de nomes que vêm acontecendo de maneira gradativa em relação à Seleção da última Copa. É uma mudança emocional, postural. É uma mudança em que o atleta tem que entender que está aqui vestindo uma camisa muito pesada, respeitada no mundo todo e referência no mundo todo. Se neste instante, não estamos em posição adequada em relação à classificação para a Copa do Mundo, vamos tentar ao máximo reverter tudo isso. Que busquemos e encontremos o caminho que a seleção brasileira sempre apresentou”.

“Primamos por termos aí um futebol vistoso, bem jogado e acima de tudo efetivo. Temos que manter o máximo possível, voltar a protagonizar grandes jogos. Temos capacidade e potencial suficiente para isso. Temos que entender um pouco mais o que representa essa Seleção. Que cagada um assuma um pouco mais a sua responsabilidade quando for convocado. Os atletas têm que sentir um pouco mais vestir a camisa da Seleção. A lição que o Zagallo deixou para gente tem que ser mais valorizada por nós. Esse homem que ele foi tem que deixar marcada essa condição. O atleta que vem para a seleção brasileira não pode deixar de ter essa gana, essa garra e essa vontade de vestir a camisa da seleção brasileira”.

Trabalhos anteriores na Seleção

“Tudo pode ser aproveitado. Eu acredito que uma reciclagem acabe acontecendo e proporcionando dificuldades maiores. Acabamos uma Copa do Mundo e já iniciamos uma preparação para o momento seguinte. Não imaginava que teríamos tantas dificuldades. Não quer dizer que não possamos buscar algo diferente. Os comportamentos precisam ser repetidos. É muito diferente de um clube que você joga hoje e amanhã já se reapresenta em busca de correções. na Seleção, você se apresenta para jogar e terá de repente dois dias de jogos e talvez aí cinco ou seis de treinamentos. Todos encontram o caminho e temos que encontrar também. Esse é o grande desafio. Buscar rapidamente termos uma equipe que passe segurança maior”.

Dorival evitou falar sobre a instabilidade política da CBF (Staff Images/Divulgação CBF)

Renovação da Seleção

“Vocês acompanham meu trabalho há algum tempo. Pode ser que tenha um treinador que tenha revelado mais jogadores. Mas é muito difícil o número de atletas que eu dei oportunidade ao longo de toda a minha carreira. Quer fosse na minha primeira equipe, o Figueirense, como na última, o São Paulo. Sempre contei com uma mescla que é necessária e saudável em qualquer sentido para que tenhamos a competitividade mantida. Não vai ser diferente. Para mim, não importa. Se o Thiago (Silva) estiver bem, ele terá oportunidade. É um grande jogador. Os ciclos se encerram a partir do momento em que outro esteja melhor. Por isso, temos que ter equilíbrio, consciência e buscar os melhores de momentos. Eu vou tentar trazer aqueles que estejam em melhores condições. Em alguns momentos, uma possibilidade tática necessária. Mesmo que não vivencie um novo momento. Na maioria delas, vamos tentar trazer aqueles que estejam em melhores condições. Encontrando esse caminho, que possamos abastecer com peças pontuais para que não soframos tanto como viemos sofrendo nesse primeiro momento das Eliminatórias”.

Estilo de jogo

“Em todas as equipes, eu me adaptei à equipe. Nunca chego com sistema pré-estabelecido. Prefiro identificar o tenho à mão e depois empregar um sistema. Números para mim são relativos: 3-5-2, 4-3-3, para mim isso é balela. Quero defender com maior número possível e defender com o maior número possível de jogadores. Muito difícil falar agora entre os sistemas do Fernando, do Ancelotti, até porque eles estão em clubes. E dentro de uma seleção é um pouquinho diferente. Esse encaixe é fundamental, para que na prática as coisas deem encaixe”.

Quando será a estreia de Dorival?

Dorival Júnior já tem em vista a sua estreia pela Seleção. O Brasil volta a jogar em 23 de março, quando enfrenta a Inglaterra em um amistoso em Wembley, em Londres. Está previsto ainda outro duelo com a Espanha, no Santiago Bernabéu. Mas até agora, esta partida não foi oficializada pela CBF. Esta será a última Data Fifa antes da disputa da Copa América, em junho.

O Brasil está no Grupo D da competição e estreia no dia 21 de junho, contra Costa Rica ou Honduras, no SoFi Stadium, em Inglewood, próximo a Los Angeles na Califórina. Colômbia e Paraguai são as outras seleções da chave.

O acerto da CBF com Dorival

O treinador de 61 anos era o principal alvo da entidade máxima do futebol brasileiro desde que Ednaldo Rodrigues reassumiu a presidência da CBF, após decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele ouviu os primeiros contatos do mandatário nos últimos dias e já demonstrava interesse em ser o sucessor do interino Fernando Diniz, demitido na semana passada. A negociação não demorou a ser concretizada, já no último domingo. Agora, Dorival será apresentado oficialmente como treinador da Seleção nesta quinta-feira (11)

Foto de Eduardo Deconto

Eduardo Deconto

Eduardo Deconto nasceu em Porto Alegre (RS) e se formou em Jornalismo na PUCRS. Antes de escrever para a Trivela, passou por ge.globo e RBS TV.
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