Do racha interno à repercussão do desabafo de Luiz Gustavo: Os bastidores da crise do São Paulo
Tricolor vive dia de crise sem fim após vexame na goleada por 6 a 0 sofrida para o Fluminense no Maracanã, na última quinta-feira (28)
O vexame histórico da goleada por 6 a 0 para o Fluminense, na última quinta-feira (27), no Maracanã, tem repercussões que abalam toda a estrutura do futebol do São Paulo.
Um dia após a humilhação sofrida no Rio de Janeiro, o clube comunicou os desligamentos do diretor de futebol Carlos Belmonte e também dos profissionais Nelson Marques Ferreira e Fernando Bracalle Ambrogi.
As saídas parecem uma medida imediata para estancar a crise após o vexame. Mas a verdade é que a goleada para o Fluminense apenas acelerou um processo que já estava em andamento.
O presidente Julio Casares estava em rota de colisão com Carlos Belmonte, em uma ruptura cada vez mais escancarada nos últimos meses. A saída de Belmonte e seus pares era planejada para o fim da temporada. Ela apenas foi antecipada.
— As mudanças foram necessárias. Nós estávamos prevendo mudanças após o fim do Brasileirão e tivemos que antecipar o processo. A vinda do CEO, o Marcio, ele está aqui exatamente para apoiar o processo de profissionalização cujo futebol terá o comando do Rui Costa e do Muricy. Assim como ele fez em outros departamentos, ele está aqui para apoiar e acelerar o planejamento para 2026 — disse Julio Casares, em entrevista coletiva nesta sexta (28).
Como fica o futebol do São Paulo agora?
A partir de agora, o departamento de futebol do São Paulo será comandado pelo executivo Rui Costa, com suporte do coordenador técnico Muricy Ramalho. O superintendente Marcio Carlomagno — chamado de “CEO” por Casares — também participará do dia a dia no CT da Barra Funda.
Até por isso, a fala do presidente nesta sexta (28) tem nas entrelinhas uma articulação política já costurada por ele próprio e seu grupo político há um mês. Carlomagno já convive no CT desde o final de outubro, quando Casares decidiu transferi-lo do MorumBIS para o futebol.
A justificativa oficial foi no sentido de “reconhecer” o trabalho do dirigente na reestruturação financeira vivida pelo clube. Os motivos para a mudança vão bem além do oficialismo e só comprovam o afastamento entre o presidente e Belmonte.
Carlomagno passou a atuar diretamente no departamento de futebol, enquanto o ex-diretor acabou escanteado. Prova disso é que Belmonte só foi visto nos bastidores em um jogo do clube: a derrota por 3 a 1 para o Corinthians, em Itaquera.
Em uma só cartada, Casares esfriou um futuro adversário político e fortaleceu os seus interesses. Carlomagno é apontado como forte candidato a ser apoiado pelo grupo do presidente nas próximas eleições do clube, em 2026.

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Desabafo de Luiz Gustavo pega mal
Em paralelo à saída de Belmonte, a sexta-feira no CT da Barra Funda foi de uma conversa olho no olho entre o executivo Rui Costa e o volante Luiz Gustavo. Na noite anterior, o jogador fez um desabafo forte em entrevista na saída de campo.
— Eu cheguei no clube há dois anos, tem gente que está vivendo isso há mais tempo e isso não dá mais. Eu vivo para evoluir, e espero que esse clube, que é um clube apaixonante, gigante, muito maior do que quem está aqui, mas precisa que as pessoas coloquem os pingos no “is” para todos desenvolverem como se espera. Está na hora de o São Paulo começar a colocar as caras. Quem precisa colocar, assumir responsabilidade, todo mundo tem responsabilidade, assumir de cima para baixo para que esse time volte a ser grande no futebol — disse Luiz Gustavo.
O desabafo do jogador parecia direcionado à diretoria do São Paulo e, por isso, pegou mal entre os dirigentes. A avaliação é de que a fala foi publicizada em um momento pouco oportuno.
Ao mesmo tempo, o próprio Julio Casares reconheceu durante a sua entrevista coletiva que o São Paulo fracassou em 2025 e que será preciso mudar o planejamento para 2026.

Oposição articula pedido de impeachment
Além da saída de Carlos Belmonte, um grupo de conselheiros da oposição protocolou nesta sexta-feira (28) um abaixo-assinado pedindo a renúncia do presidente Julio Casares. O documento tem 41 assinaturas, sob a alegação de “gestão temerária”.
A tendência é de que este movimento não surta efeito prático. A situação tem uma maioria confortável para garantir a continuidade da gestão.
— É um processo político. Outros presidentes já enfrentaram. Eu reafirmo que eu tenho os grupos da coalizão todos unidos. Nós hoje conversamos. Eu não tomaria nenhuma decisão sem entender o quadro político. Entendemos que é um processo político. Cabe a mim não falar de sucessão e trabalhar para fazer um 2026 competitivo, com força — disse Casares.

O afastamento entre Belmonte e Casares
Belmonte vivia um processo de afastamento (nada) gradual de Casares, exposto inicialmente em uma gafe cometida pelo diretor de comunicação José Eduardo Martins em uma mensagem enviada por engano no WhatsApp, com tom pejorativo sobre o diretor de futebol.
Além disso, Belmonte não concordava com as negociações costuradas por Casares para a criação de um fundo de investimentos para as categorias de base do clube.
O São Paulo pretende captar R$ 250 milhões de investidores, dos quais R$ 200 serão aplicados em Cotia e os outros R$ 50 milhões para reduzir a dívida do clube. Em troca, os investidores ficarão com 30% do lucro com a venda de jogadores formados no clube.
O projeto foi aprovado pelo Conselho de Administração e agora será analisado pelo Conselho Deliberativo. O tema gera polêmica e dissidências justamente pela cessão do percentual dos garotos aos investidores.



