Virada heroica do Brasileirão de 2023 será contada por palmeirenses a descendentes por décadas
Palmeiras teve altos e baixos ao longo do campeonato, mas reuniu forças para arrancar na hora mais decisiva
O Palmeiras é dos clubes brasileiro com mais apreço por contar suas conquistas e passagens históricas em forma de narrativas épicas. Que se tornam lendas, passadas de geração em geração de alviverdes.
As barricadas de madrugada, no Parque Antárctica, para evitar que o clube fosse tomado por inimigos, durante a Segunda Guerra Mundial. O Maracanã lotado, torcendo pelo Palmeiras, na Copa Rio de 1951. A virada sobre o Flamengo, na Copa Mercosul de 1999. O gol de Breno Lopes, na Libertadores de 2020.
Dentre as muitas, uma das lendas mais contadas e cultuadas pelos torcedores é o primeiro jogo do clube com o nome de Palmeiras, conhecido como “Arrancada Heróica”, de 1942. Esse é o episódio que serviu de inspiração para que o clube passasse a chamar de “Virada Heróica” sua campanha na conquista do Brasileirão de 2023.
O ocorrido nos anos 1940, que deu ao clube um Campeonato Paulista e virou até nome de passarela na região do Allianz Parque, teve contornos bem mais sócio-políticos. Mas, em comum com a conquista do 12º Brasileiro do clube, guarda também, além do adjetivo, o fato de ter terminado em título – e de que nunca mais será esquecido pelos torcedores.

Começo com lampejos
O palmeirense que imaginava o Palmeiras campeão brasileiro, no começo de outubro, ou está mentindo ou é otimista demais. Após cair na semifinal da Copa Libertadores, o Verdão entrou numa crise de identidade que, não à toa, fez com que uma reviravolta fosse necessária para que o time ressurgisse.
Mas a conquista do Brasileiro não começou ali, na reviravolta. Afinal, o time comandado por Abel somou 70 pontos no campeonatos. Sendo os últimos e decisivos 26, liderados por Endrick.
O Palmeiras começou o Brasileiro bem. Com cinco minutos de torneio, Endrick abriria o placar contra o Cuiabá, na vitória por 2 a 1.
Dos cinco primeiros jogos, o Palmeiras ganhou quatro, com duas goleadas (4 a 1 no Grêmio e 5 a 0 no Goiás) e uma vitória sobre o Corinthians (2 a 1) o que nunca é ruim.
Abel iniciou o ano dando moral a Endrick. No começo do Nacional, parecia que o titular ia mesmo ser o 9. Mas, então, Artur, único reforço caro do ano, vindo do Red Bull Bragantino, começou a ganhar espaço. E Endrick, a perder.
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Dez jogos de inconstância
Depois do bom início, o Palmeiras teve dez jogos de muita inconstância. Foram apenas duas vitórias entre 13 de maio e 16 de julho: 3 a 1 no Coritiba e 2 a 0 no São Paulo- no Morumbi, com gol de Endrick.
O Palmeiras empatou seis vezes e foi derrotado pelo Bahia (0 a 1), fora de casa, e pelo Botafogo, que já despontava como favorito, dentro do Allianz Parque (0 a 1).
Embora o time seguisse forte na Libertadores, com a melhor campanha geral, o desempenho no Brasileiro só caía.
Ensaio de boa fase

(Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)
O Palmeiras ensaiou uma boa fase no campeonato nos oito jogos seguintes, entre 22 de julho e 16 de setembro.
Ao mesmo tempo, Abel Ferreira perdeu, nessa época, seu jogador mais experiente. Na vitória contra o Vasco, na esteira da classificação às quartas da Libertadores, Dudu rompeu o ligamento cruzado do joelho direito.
Após conseguir seis vitórias – perdeu apenas para o Fluminense, no Rio (1 a 2) – o time começou a ver o Botafogo mais de perto.
Longe do time titular, Endrick passou por todo esse período jogando pouco e em jejum. O camisa 9 só começou como titular contra o Flu – e não foi bem.
Mesmo assim, Endrick seguiu no time contra o Grêmio, em mais uma derrota do Palmeiras, por 2 a 1, em Porto Alegre. E, então, veio a Data-Fifa.
O que ainda não se sabia é que ali, naquela derrota em Porto Alegre, Abel entendeu qual era a melhor maneira de utilizar Endrick. Atuando centralizado, como um 9 típico, o garoto não rendia. Nascia ali a ideia de um Palmeiras sem pontas.
Depressão pós-eliminação

Em 5 de outubro, o Palmeiras atingiu seu pior momento na temporada. Após ser eliminado pelo Boca na Libertadores, o Verdão parecia sem rumo. Sensação que também se sentia fora de campo.
Mas por mais traumática que tenha sido, a eliminação veio dar o choque que o time precisava. Porque no jogo seguinte, contra o Santos (1 a 2, em Barueri), Mayke que vinha sendo improvisado na ponta, voltou para a lateral, para que Endrick entrasse na equipe pela ponta-direita.
Na derrota para o Peixe, por mais abatimento que os demais jogadores mostrarem, Endrick e Kevin, os dois garotos que todos pediam a Abel, voaram.
O início de mais uma Data-Fifa, logo depois do clássico de 8 de outubro, poderia ter sido um período de paz para o clube. Mas ficou bem longe disso.
A coletiva, a formação do time e a trégua

Seis dias após a eliminação na Libertadores, a presidente Leila Pereira convocou alguns veículos para uma entrevista coletiva.
O intuito declarado era “dar explicações”. Em vez disso, a dirigente fez uma ode a si mesma e resumiu o Palmeiras a “antes e depois dela”, com certo desprezo pela História do clube. Dias depois, Leila até foi ao conselho se explicar pelo que dissera, tamanho fora seu erro de approach.
Foram dias com a controversa fala dominando o noticiário, enquanto Abel pensava maneiras de o Palmeiras voltar a jogar futebol. Não deve ter sido de propósito. Mas o fato é que tanta Leila no noticiário resultou em pouco Abel. O que era bom àquela altura.
Mesmo assim, o clima no primeiro jogo após a entrevisa foi péssimo. Tanto que, na volta da Data-Fifa, o time perde para o Atlético-MG, por 2 a 0, num jogo em que a torcida mais xingou a presidente do que torceu.
Endrick foi titular neste dia. Rony também, mas pela última vez antes de um hiato de seis jogos.
Não por coincidência, a boa fase se firmou quando a Mancha decidiu ignorar Leila Pereira. Que, por sua vez, parou de falar da organizada.
O começo da virada
Sem Endrick, suspenso, o Palmeiras que venceu o Coritiba por 2 a 0, no Couto Pereira, não tinha pinta de campeão. Até porque, só o Botafogo tinha essa pecha àquela altura. Para o Palmeiras, o Glorioso tinha 12 pontos de diferença.
Mas aí veio a goleada por 5 a 0 sobre o São Paulo. E não tem como um time do Palmeiras não sair maior de uma goleada contra o arquirrival. Na sequência, veio o 1 a 0 sobre o Bahia, num jogo em que o time foi bem, apesar do placar curto. E, então, aconteceu “O jogo” que mudou tudo. “O jogo” que alçou Endrick a um novo patamar.
“O” jogo

No Nilton Santos, em 2 de novembro, o Botafogo fez 3 a 0 ainda no primeiro tempo, no seu último ato de brilhantismo na temporada. O Palmeiras estava nocauteado em pé quando foi para o vestiário, no intervalo.
Na volta, o que se viu foi uma das melhores atuações individuais de um palmeirense na história recente do clube. Aos 4, Endrick fez jogada individual, entrou na área costurando e bateu rasteiro para vencer Lucas Perri.
Ao pegar a bola para reiniciar o jogo, o camisa 9 avisou aos colegas: “Joga em mim”.
O Palmeiras melhorou no jogo e o Botafogo parou de jogar. Aos 30, veio o que o Palmeiras precisava, com a expulsão de Adryelson após falta em Breno Lopes, que o VAR sinalizou. Parecia que tudo conspirava para o Palmeiras.
E de certo modo, isso se confirmou. Porque o Botafogo teve um pênalti a seu favor aos 37, que Weverton defendeu.
Aos 39, Endrick fez o segundo do Verdão, batendo da entrada da área. Aos 43, Endrick, da ponta direita do campo, olha para cima e faz o cruzamento na cabeça de Gustavo Gómez, que ajeita para Flaco López mandar para a rede. E Murilo, aos 54, virou para o Verdão, após cruzamento de Veiga: 4 a 3.
A sequência campeã de gols de Endrick

Dali em diante, o Palmeiras foi enfileirando vitórias: 1 a 0 no Athletico-PR, em Barueri, com gol de Endrick. Um 3 a 0 no Internacional com facilidade – em Barueri e com gol de Endrick. Depois, 4 a 0 no América-MG, com gol de Endrick. E 1 a 0 no Fluminense– dessa vez, gol de Breno Lopes.
Em 12 partidas seguidas, o Palmeiras perdeu pontos apenas três vezes: No 0 a 3, ante o Flamengo, no Maracanã. No 2 a 2, com o Fortaleza, no Castelão. E, por fim, no 1 a 1 com o Cruzeiro que selou o título. Com mais um gol de Endrick.



