Brasil

Como seria se Neymar fosse um jogador nascido na era do futebol informal?

Atacante do Santos e da seleção brasileira vem sofrendo com lesões nos últimos anos e é incógnita pré-Copa do Mundo

No esplendor dos seus 8 anos, levando a sua nova mochila de Cristiano Ronaldo, o meu neto voltou para a escola essa semana. Ele acha isso bom — e eu fico pensando “como mudaram os tempos”. A minha lembrança do fim das férias de verão é de uma derrota cataclísmica, de um retorno triste para a cadeia após várias semanas de liberdade total.

Claro, eu estou sendo injusto, com o tempo e a geografia. Estou comparando a zona norte do Rio de Janeiro em 2026 com os arredores de Londres 50 anos atrás. Diferenças enormes, mas com temas universais.

Hoje em dia, as crianças inglesas nem sonham com a liberdade que a gente desfrutava. Sem qualquer supervisão adulta, a gente ficava solta nas ruas o dia inteiro, livre para fazer o que a gente bem queria.

E, na maioria das vezes, o que a gente queria era jogar bola. Era muito fácil: só colocar um objeto redondo aí — pode até ser uma bola de tênis — e a partida estava rolando e todo mundo era amigo.

Não funcionou no meu caso, para a decepção do meu pai, mas acredito que esse tipo de futebol informal — vamos chamar de street football ou “futebol de rua” — trata-se da melhor maneira de desenvolver talento na história do esporte.

A rua sempre foi o celeiro — com a rua brasileira, das grandes capitais, recebendo destaque especial. Faz parte da tragédia, não somente do futebol brasileiro, mas também da sociedade brasileira, que as coisas não podem mais funcionar da mesma maneira.

A região onde mora o meu neto é a origem de tantos craques. Hoje em dia eles não podem mais se desenvolver assim, jogando futebol informal. Especulação Imobiliária e, principalmente, violência urbana, tiraram esses espaços da participação popular.

Na rua onde ele mora, como tantas outras, o momento definitivo de perda foi a explosão do consumo de crack. Onde antes havia churrascos, pipas e peladas, agora reina silêncio e desconfiança.

A solução futebolística? Levar a turma para dentro, para um ambiente controlado, para o futsal.

Claro, o futsal não é novidade no Brasil. Se joga faz tempo. Zico jogava. Pouco tempo atrás perguntei para ele: “Onde você aprendeu mais, no futsal ou jogando na rua?” A resposta foi instantânea: “Na rua, claro!”

Semana passada vi uma entrevista com o mestre Johan Cruyff frisando o mesmo. Colocou um detalhe importante. No futebol da rua, o terreno, seja concreto, seja gramado, normalmente é muito ruim. No caso de concreto, é muito duro. Então, lição número um — ficar de pé. Cair no chão dói demais!

Teria sido melhor para Neymar ter aprendido outra estratégia?

Croatia v Brazil: Quarter Final – FIFA World Cup, WM, Weltmeisterschaft, Fussball Qatar 2022 AL RAYYAN, QATAR – DECEMBER
Neymar durante quartas de final da Copa do Mundo 2022 (Foto: Imago)

O jovem com talento, então, é obrigado a aprender uma coisa fundamental no futebol informal, muito pertinente se não tiver um juiz. O talentoso, especialmente se, como normalmente, for franzino, tem que evitar a falta. Precisa saber o momento para arriscar, e o momento para soltar a bola rapidinho e se deslocar para receber de novo. É sobrevivência básica.

Faço a pergunta, então: Como teria sido a carreira do Neymar se ele tivesse nascido antes, e se desenvolvido dentro dos códigos e das práticas de futebol da rua?

Porque fica bem evidente que ele é diferente. É um produto de futsal, de jogos organizados. A defesa dele, em vez de evitar a falta, tem sido de chamar a falta, e com a ajuda de saltos ornamentais, mostrar para o juiz que ele está sendo caçado. Trata-se de uma abordagem na qual a presença do juiz é, e sempre foi, fundamental.

Não teria sido melhor aprender outra estratégia? Porque a consequência de chamar faltas tem sido, logicamente, sofrer faltas, e daí sofrer lesões. E a consequência dos saltos ornamentais tem sido gerar a incompreensão, muitas vezes até a hostilidade, de nomes consagrados — Marco van Basten é o exemplo óbvio — que cresceram sob os códigos da rua.

Tudo bem, a pessoa não pode escolher a época em que nasce e vive. Mas eu fico bem feliz de ter crescido numa era em que a criançada andava livre, a gente jogava futebol informal e o fim das férias parecia uma volta para a cadeia.

Foto de Tim Vickery

Tim VickeryColaborador

Tim Vickery cobre futebol sul-americano para a BBC e a revista World Soccer desde 1997, além de escrever para a ESPN inglesa e aparecer semanalmente no programa Redação SporTV. Foi declarado Mestre de Jornalismo pela Comunique-se e, de vez em quando, fica olhando para o prêmio na tentativa de esquecer os últimos anos do Tottenham Hotspur

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