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Não deveria ser (só) Milito a explicar goleada sofrida pelo Atlético-MG

Milito explicou nova goleada sofrida pelo Atlético, mas o buraco é mais embaixo, e a resposta deveria vir mais de cima

Pelo segundo jogo seguido, o Atlético-MG sofreu quatro gols e foi goleado. Nesta quinta-feira (20), foi para o Vitória, em Salvador. Gabriel Milito foi tentar explicar mais como o Galo chegou a esse ponto, e ficou evidente que não é (só) ele quem deveria falar nesse momento.

Gabriel Milito falou sobre os problemas defensivos do Atlético, de como isso foi a chave para o time perder a segunda seguida por goleada. Mas ele também falou sobre os desfalques, e ficou evidente como não há peças defensivas suficiente.

Há um mês, Otávio, o primeiro volante titular, se lesionou. No banco, não havia ninguém com características defensivas para repor. Battaglia, que poderia ser a opção, estava improvisado na zaga. Milito tentou Alan Franco e até Zaracho, mas eles não têm o poder de marcação necessário. Ali, as deficiências do elenco já apareciam.

De lá pra cá, Milito perdeu muitos outros jogadores, novas lesões, convocações e suspensos. Contra o Vitória, o treinador não tinha um lateral-esquerdo, um primeiro volante — ou mesmo um meia mais defensivo —, além de atacantes de confiança à disposição. O resultado foi um time muito mexido e desfigurado, que não soube se portar em campo.

— Eu sei que não temos jogadores de marcação forte. Battaglia pode jogar de volante e zagueiro, e hoje fez os dois. Não temos mais jogadores para colocar. Paulo Vitor (jovem da base) treina há uma semana depois de uma grande lesão (três meses fora). Necessita de ritmo de jogo — iniciou Milito.

— Igor Gomes e Zaracho, sei que são mais de ataque, mas são os mais defensivos que temos agora. Se não, teria que jogar com Pedrinho, Robert, que não podem jogar por lá. Os mais defensivos são eles mesmo — completou.

Quando Milito cita que Battaglia precisou fazer duas funções, os meias mais defensivos dele são quase que de armação, além do fato de não ter lateral/ala esquerdo, e também de precisar usar muitos jovens — hoje foram três titulares, e outros três saindo do banco —, ele deixa claro como o elenco tem falhas, e a culpa disso não é dele.

Além de não ter opções, as que tem, não são confiáveis

É claro que nenhum clube do mundo espera que terá 10/11 desfalques de uma vez no time. Mas o problema do Atlético não é (só) esse. Otávio já não tinha um reserva desde 2023. Com Felipão, ele e Battaglia já atuavam juntos, e não tinha ninguém no banco para substituí-lo. Com Milito não foi diferente.

Eduardo Vargas e Alan Franco, por exemplo, eram baixas óbvias no período da Copa América, pois sempre estão com suas seleções. Ou seja, o Galo já sabia que não os teria por um mês desde o início, e mesmo assim não tem substitutos no elenco hoje.

Contra o Vitória, Milito tinha três jovens no time titular não (só) por eles serem bons, mas porque realmente não havia outras opções. No banco, para tentar resolver, ele tirou outros três jovens, inclusive um que estava na várzea há seis meses, além de um experiente atacante que não marca gol há um ano.

Então, além de não ter jogadores para certas posições e funções, Milito tem vários outros que não passam confiança. Cadu parece um bom atacante, tem só 20 anos, deve evoluir, mas não pode ser o responsável do ataque sem Hulk e Paulinho, por exemplo.

Há um ano sem marcar, Alan Kardec tem péssima passagem no Galo, mas é a opção que Milito tem no momento (Pedro Souza / Atlético)

A culpa é de quem? De quem não se pronuncia

Por conta de todas essas questões, é justo dizer que Milito tem mínima culpa do atual momento do Atlético ser instável. Sem muitos jogadores importantes, além de ter outros não confiáveis, não há muito o que ele fazer de diferente.

A culpa, então, é mais acima, de quem montou o elenco. Vira-se o holofote para o diretor de futebol Victor Bagy e o presidente Sérgio Coelho, responsáveis pela montagem do elenco. Para Felipão já faltavam peças, para Milito, faltam ainda mais.

Mas, a culpa, sem dúvidas, está mais acima ainda. É preciso ouvir dos compradores do clube, os chamados 4Rs (entre outros), porque o Atlético parou de receber investimentos, ainda mais como SAF.

E é preciso ouvir verdades. O torcedor escutou dessas mesmas pessoas, antes deles serem os donos, que o clube poderia ter “4 Hulks”, que poderia ter mais investimento com a SAF, que as dívidas acabariam rapidamente.

Agora, o Atlético é um clube gerido por uma planilha, e só. Tudo possível para cortar gastos é feito. O desempenho esportivo está em segundo planoisso já foi deixado claro no futebol feminino —, o foco é só em sanar dívidas. Enquanto isso, as promessas dos compradores ficam só no imaginário do torcedor.

Se o Galo não pode realmente investir e manter um time de elite, eles precisam se pronunciar e explicar, não iludir a torcida com falsas promessas ou deixar as coisas como estão.

Se o Atlético não terá mesmo um elenco completo, que consiga disputar títulos, os donos do clube precisam deixar isso claro.

Por que Milito não tem um volante marcador para usar? Por que ele não tem um lateral/ala esquerdo? Por que o ataque não tem reservas de confiança? Por que o time nunca teve um meia criativo de confiança? Vão chegar em julho? Até podem chegar, como Bernard, mas por que esperar metade da temporada para ter o elenco ajustado?

São respostas que podem ser feitas a Victor ou Sergio Coelho, mas quem realmente precisa responder são Rubens e Rafael Menin, Ricardo Guimarães e demais investidores.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander Heinrick

Jornalista pela PUC-MG, passou por Esporte News Mundo e Hoje em Dia, antes de chegar a Trivela. Cobriu Copa do Mundo e está na cobertura do Atlético-MG desde 2020.
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