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Rivaldo contrata Edinho já pensando no dinheiro que Pelé pode levar ao Mogi

Alguns rótulos acompanharam Edinho em sua vida. O primeiro, desde o dia do seu nascimento, em 27 de agosto de 1970, foi ser filho de Pelé, com todos os benefícios e pressões que isso traz. Esse é indefectível e eterno, como também é ser ex-goleiro do Santos. Os rumos que percorreu e a Justiça lhes atribuíram outro, com a sentença de 33 anos de prisão por associação com o tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Ainda tentando provar sua inocência, está prestes a acrescentar mais um, o de técnico de futebol.

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A trajetória que o levou à sala de imprensa do Estádio Romildo Vitor Gomes Ferreira, onde se apresentou como o novo treinador do Mogi Mirim, começou oito anos atrás, quando foi chamado por Vanderlei Luxemburgo para integrar a comissão técnica do Santos. Trabalhou com outros treinadores importantes, como Muricy Ramalho e Dorival Júnior, e espera levar um pouco de cada um para sua nova missão. Estava há dois anos pensando em dar esse salto na sua carreira, mas ainda não havia recebido uma proposta que considerasse confiável até receber a ligação de Rivaldo.

“Ele é o dono do clube e ele o administra como uma empresa, sem política”, explica, citando conceitos de empreendedorismo para corroborar a sua confiança no projeto do ex-jogador, responsável por pagar as contas do Mogi Mirim no fim do mês. Rivaldo tem dinheiro, mas não esbanja. Para se ter uma ideia, os jogadores da Série B têm contrato até novembro porque ele não acha necessário arcar com os salários em dezembro, quando não há partidas para serem disputadas. Se algum quiser ficar para a próxima temporada, as duas partes sentam e conversam.

Com Rivaldo, o Mogi tem a segurança financeira e um nome forte para atrair patrocinadores. Atrás dele e de Edinho na apresentação, estavam estampadas as marcas de sete empresas. Quatro vão continuar, duas estão em negociação, e uma delas, a principal para o Paulista, com certeza vai sair. Entra o dinheiro da televisão, uma cota de R$ 3,5 milhões, o bastante para pagar boa parte da folha salarial, de aproximadamente R$ 300 mil por mês. Ainda na conta do chá. A folga no orçamento pode vir com a nova aliança. Porque o ex-jogador do Barcelona não está contratando apenas o filho do Rei, mas também se associando à própria majestade.

O presidente não tem nenhum problema em afirmar que o potencial de atração de patrocinadores que Pelé e seu filho possuem estão sendo levadas em conta. Rivaldo acredita que pode usar a empresa do melhor jogador da história para intermediar novos parceiros. “O pai dele por trás ajuda bastante a anunciar. Já apresentei treinador com três jornalistas aqui, hoje tem quase 20”, argumenta. “Conversamos sobre isso. Pode ser uma coisa boa para o Mogi Mirim”. Já houve pelo menos um contato entre os dois. Quando o hoje dirigente começou a procurar técnicos, surgiu o boato de que uma das opções era Edinho. O rumor chegou a Pelé, que ligou para Rivaldo para agradecê-lo por estar considerando contratar o seu filho. Rivaldo prometeu pensar. Pensou e decidiu. Uma decisão dele, pessoal. Uma decisão do presidente.

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Reforço isso porque Rivaldo resistiu a explicar os motivos que o levaram a, com suas próprias palavras, “apostar” em Edinho. Repetiu duas ou três vezes que ele era o presidente e ele que decidia. Expandiu apenas pela insistência e citou a experiência do ex-goleiro no Santos – e a possível parceria com Pelé. “Sou o presidente e acho que pode ser uma oportunidade para ele. Pelo tempo que ele esteve no Santos, pelas informações que coletei com os treinadores que trabalharam com ele. Foi uma escolha minha”, afirma.

Foi também uma tentativa de dar sequência a uma tradição do Mogi Mirim que muito orgulha o seu presidente. Muitos técnicos receberam suas primeiras chances nesse clube, de Vadão a Adilson Batista, passando por Argel. Não é certeza de sucesso para Edinho, mas não é nada mal começar sua carreira em uma espécie de celeiro de treinadores. “Estou preparado”, promete. “No Santos, eu era uma espécie de Severino, fazia de tudo um pouco. Fui criado em uma Harvard do futebol e agora tenho que me adaptar a uma nova realidade.”

Edinho e Rivaldo conversam com o elenco do Mogi Mirim antes do primeiro treino do filho de Pelé como técnico (Divulgação)
Edinho e Rivaldo conversam com o elenco do Mogi Mirim antes do primeiro treino do filho de Pelé como técnico (Divulgação)

Por isso, trouxe o auxiliar técnico Edmilson de Jesus, que conhece o mundo dos clubes pequenos e tem, segundo ele, um “vasto arquivo de jogadores”. Edinho também deixou as coisas encaminhadas para trazer alguns meninos do Santos que não estão sendo utilizados. Contratá-los será a próxima missão de Rivaldo. A de Edinho foi dirigir-se ao seu primeiro contato com o elenco e prepará-lo para a estreia na Série B, em 8 de maio, contra o Criciúma, em casa. Já tem em mãos um time que atua junto há algum tempo e foi décimo colocado do Campeonato Paulista. Por isso, as ambições são tão altas quanto a repercussão da sua chegada. Quer o acesso à elite e, dependendo do que acontecer durante o campeonato, por que não o título? “Tem que ter uma mentalidade de conquistas”, diz.

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Não conta com a torcida do pai nas arquibancadas para o primeiro jogo da Série B, mas vai tentar convencê-lo a assistir às partidas mais importantes. “Agenda é um negócio complicado com ele”, brinca. Não será tão difícil porque, segundo Edinho, o Mogi Mirim acaba de ultrapassar o Bauru no coração do Rei e se tornou o seu segundo time. O primeiro, claro, é o Santos. “Ele me ligou do aeroporto para me dar os parabéns. Perguntou qual era o salário”, conta, e arranca risadas. Porque é difícil imaginar que Edinho, filho de Pelé, precise do salário do Mogi Mirim para sobreviver. Mas precisa dessa oportunidade para, de certa forma, limpar a sua imagem. Dar ao público mais um rótulo para substituir o mais recente, fruto da sua condenação em maio do ano passado.

Edinho claramente tem muito a falar sobre isso, mas não pode entrar em detalhes por orientação dos seus advogados. Disse apenas que está sendo perseguido pelo fórum de Santos e que foi preso, no último mês de novembro, por causa de “detalhes técnicos”, sem nenhum fato novo. Sabe que isso sempre será uma sombra para ele, afinal, “tudo comigo repercute mais, em campo e na minha vida pessoal, por causa do meu pai”. Mas ele está confiante que conseguirá conciliar a responsabilidade de ser treinador, muito maior que a de auxiliar, e os problemas com a Justiça. “Isso vai ser bom para mim, como pessoa, vou poder me expressar em um contexto mais positivo. O que mais dói é ser julgado com base em mentiras”, explica.

Rivaldo também sabe que contratou Edinho junto com os seus problemas pessoais, mas afirma que nunca levou isso em consideração quando estava tomando a sua escolha. Também não está preocupado com o futuro, apenas chateado por ter sido criticado pela contratação por causa disso. “Posso dizer para o Edinho que ele tem toda a minha confiança. Se você tiver problemas pessoas, vou te ajudar. No campo também vou te ajudar. No que depender de mim, você tem todo o meu apoio”, disse ao seu novo subordinado.

Edinho não tem contrato com o Mogi Mirim, uma prática do clube desde a administração anterior, ou seja, não há nada que o impeça de deixar o clube ou ser demitido caso os seus problemas com a Justiça se intensifiquem. É registrado com carteira de trabalho, como qualquer um, mas esse é um rótulo que ele nunca terá. Edinho é filho de Pelé, ex-goleiro e ex-membro da comissão técnica do Santos, tem problema com a Justiça por causa de drogas, e agora, é o novo treinador do Mogi Mirim. Muito longe de ser qualquer um.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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