Lado B de Brasil

Ferroviário, Caxias, Ferroviária, Athletic: quem são os promovidos na Série D 2023

Entre sábado e domingo, a Série D definiu as quatro equipes que conquistaram o acesso rumo à terceirona nacional

O final de semana contou com uma ampla festa ao redor do Brasil. Foram definidos no sábado e no domingo os quatro times promovidos na Série D do Campeonato Brasileiro. Sobrou emoção nos duelos válidos pelas quartas de final da competição nacional. O Ferroviário está de volta à terceirona depois de um ano, com uma campanha invicta, mas na qual passou aperto na reta final. Já o Caxias enfim consegue o acesso depois de oito anos, com direito a quatro quedas justo no momento decisivo durante o intervalo. A Ferroviária pega o elevador depois de duas décadas, num encontro que virou até caso de polícia na Paraíba. Por fim, o Athletic Club será o único estreante na Série C, num trabalho de amplo investimento nos últimos anos.

Abaixo, um resumo sobre os quatro promovidos. Vale enfatizar que a Série D continua, agora com a briga pelo título. Nas semifinais, Caxias e Ferroviário se enfrentam numa chave, enquanto o outro finalista será Ferroviária ou Athletic Club.

Caxias

O Caxias está entre os participantes mais tradicionais da Série D nos últimos anos. Porém, os grenás tiveram dificuldades para conquistar o acesso desde o rebaixamento na terceirona, em 2015. Foram sete participações na quarta divisão até a promoção sair, com quatro derrotas anteriores na fase decisiva. A primeira queda nas quartas de final aconteceu em 2018, com duas derrotas para o Treze. O filme se repetiu em 2019, contra o Manaus. Em 2020 os grenás caíram mais cedo, nos 16-avos de contra o Mirassol. Entretanto, o pesadelo retornou com a derrota para o ABC nas quartas de 2021. Isso até que o América de Natal se tornasse algoz nas quartas de 2022. Diante disso, a promoção dos gaúchos é tão celebrada dessa vez. Ganharam da Portuguesa da Ilha por 1 a 0, na visita ao Rio de Janeiro.

O Caxias chega a 17 participações na Série C, a divisão nacional que mais disputou em sua história. Os grenás possuem sua tradição na competição nacional, com quatro aparições na elite durante os anos 1970 e também certo costume na Série B até o início deste século. Na atual campanha na Série D, o Caxias não chamou tanta atenção na fase de classificação, mas conseguiu se impor em duelos apertados nos mata-matas. Passou por Inter de Limeira e depois por Ceilândia, até superar os embates decisivos contra a Portuguesa da Ilha – que vinha com uma campanha superior.

O empate por 1 a 1 em Caxias do Sul na ida mantinha a situação aberta para o duelo de volta das quartas de final, no Estádio Luso-Brasileiro, com a vantagem do mando para a Portuguesa da Ilha. E até por isso a promoção do Caxias ganhou contornos épicos, com a vitória por 1 a 0 arrancada nos minutos finais. A Lusa foi melhor na etapa inicial, com boas chances de sair em vantagem. Luan incomodou e o artilheiro Marcelo Toscano desperdiçou grande chance. Já no segundo tempo, o Caxias ganhou um pouco mais de escape, embora a posse de bola continuasse com a Zebra.

Numa partida mais aberta, o lance decisivo aconteceu aos 40 minutos. O Caxias ganhou um pênalti, convertido pelo atacante Eron, numa pancada no meio do gol. O artilheiro da Série D chegou a 14 tentos na competição, já o recorde em uma só edição da quarta divisão. Depois disso, a partida teve sua dose de emoção. A Portuguesa da Ilha partiu com tudo rumo ao ataque e parou no goleiro Fabián Volpi – primo de Tiago Volpi. Do outro lado, Feijão também teve a chance de anotar o segundo para os grenás e esbarrou no goleiro Dida. Apesar da iniciativa dos cariocas, os gaúchos sobreviveram e puderam enfim comemorar.

O grande destaque na campanha do Caxias foi o centroavante Eron, responsável por mais da metade dos gols anotados pela equipe. O elenco dos grenás também trazia algumas figurinhas carimbadas que ficaram no banco, como o lateral Moacir e o atacante Marcão. Já o técnico Gérson Gusmão celebra o segundo acesso nacional em sua carreira. O comandante do Caxias também dirigia o Operário Ferroviário que faturou o título da Série C em 2018. Aumenta sua lista de feitos com uma promoção de grande significado, que um clube gaúcho não registrava na quarta divisão desde 2018.

Ferroviário

Poucos acessos na história da Série D foram mais imponentes que o conquistado pelo Ferroviário. O Tubarão da Barra concluiu uma campanha invicta, em que somou 13 vitórias e nove empates. Foi o melhor time da fase de grupos, com 36 pontos, embora tenha sofrido um pouco mais nos mata-matas. Passou por Princesa do Solimões e Nacional de Patos com uma vitória e um empate em cada duelo. Já nas quartas de final, o Ferrão empatou as duas diante do Maranhão, num confronto de enorme tradição. A passagem dos cearenses se confirmou apenas pelo triunfo nos pênaltis, dentro do Estádio Presidente Vargas, depois de um dramático empate por 1 a 1 contra os maranhenses.

O acesso confirma o retorno imediato do Ferroviário rumo à Série C. O Tubarão tinha sido rebaixado com a penúltima colocação na temporada passada. E a tradição que o time construiu na Série D durante os últimos anos é respeitável, com o título faturado na participação em 2018. É uma reconstrução notável dos tricolores, que chegaram a passar pela segunda divisão do Campeonato Cearense entre 2015 e 2016. Neste período, o Ferrão ficou nove anos sem divisão nacional. Os cearenses possuem seis aparições na Série A, a última em 1984, e outras sete na Série B, na qual não figuram desde 1991.

Nesta fase decisiva, o empate por 1 a 1 na ida contra o Maranhão permitiria ao Ferroviário decidir em casa, diante de sua torcida, dentro do Presidente Vargas. Entretanto, a partida em Fortaleza ofereceu doses cavalares de emoção por seu desfecho. O primeiro tempo mostrou que a missão do Ferrão não seria tão simples. O MAC contou com o nervosismo dos anfitriões para fazer uma partida mais equilibrada e até criou a melhor chance antes do intervalo, mas Jorge perdoou. Já no segundo tempo, o Tubarão tomou a iniciativa e passou a martelar. Parou no goleiro Moisés, que colecionava milagres para manter os maranhenses no jogo. Além disso, o Bode ainda tinha algumas escapadas em que poderia ter saído em vantagem.

O primeiro gol da partida foi exatamente do Maranhão, mas já no apagar das luzes. A defesa do Ferroviário entregou o ouro e Rafael sofreu pênalti do goleiro Douglas. Gabriel Fontes converteu, naquele que parecia o gol do acesso do MAC, aos 46 da etapa final. Porém, o Ferrão ainda voltou a martelar. Moisés salvou mais uma, mas, numa cobrança de escanteio, Fernando marcou o gol contra que salvou o Tubarão aos 50. A definição iria então para os pênaltis. Na marca da cal, o Ferroviário foi bem mais competente. O Maranhão teve a primeira cobrança invalidada por paradinha de Leone, enquanto o goleiro Douglas pegou os dois tiros seguintes. Vitória dos cearenses num fácil 3 a 0, que valeu o acesso.

O treinador do Ferroviário é Paulinho Kobayashi, que teve uma interessante carreira como jogador entre os anos 1990 e 2000, lembrado especialmente no América de Natal. O veterano também rodou bastante como técnico, numa lista de feitos que inclui o título piauiense com o Altos, em 2017. O paulista trabalhou em vários times do Nordeste nestes últimos anos, já na segunda passagem pelo Ferroviário. Já dentro de campo, a grande figurinha carimbada do Ferrão é o atacante Ciel. O veterano de 41 anos segue dando caldo e anotou dez gols em dez partidas na Série D, inclusive o da ida contra o Maranhão.

Ferroviária

A Ferroviária esteve envolta pela maior polêmica desta fase decisiva da Série D. Empresários supostamente ligados ao clube foram acusados de tentar aliciar jogadores do Sousa, para que não entrassem em campo no duelo deste domingo. A denúncia foi realizada pelos paraibanos e a polícia chegou a ser acionada, com ameaças da torcida local ao empresário Cesar Poubel. O lateral Leozinho e o atacante Luís Henrique teriam recebido propostas financeiras para não jogar, segundo o próprio presidente do Dinossauro. Conforme o depoimento de Poubel, por sua vez, ele tinha uma proposta de transferência para Luís Henrique jogar no Japão, que não estaria ligada a entregar a partida. No fim das contas, ambos os atletas estiveram em campo. Porém, a Ferroviária subiu com o empate por 1 a 1 no Marizão, depois de ter vencido por 1 a 0 na Fonte Luminosa.

A Ferroviária vem de um grande investimento nos últimos anos, que impulsionou o futebol feminino e levou o time masculino de volta à elite do Paulistão em 2015. Em 2022, o clube teve 92% de suas ações compradas pelo empresário Giuliano Bertolucci, com a saída de Saul Klein – herdeiro das Casas Bahia e condenado por crimes sexuais. Nesta nova gestão, os grenás terminaram rebaixados na última edição do estadual e deixavam dúvidas sobre o rendimento na Série D. Conquistaram o acesso quando as expectativas não eram exatamente as maiores. Chegaram a terminar a fase de grupos na quarta colocação, se classificando no limite, e só eliminaram o Hercílio Luz nos pênaltis, antes de passarem pelo Anápolis nas oitavas. Essa foi a sexta participação seguida da Ferrinha na quarta divisão. Antes disso, tinham batido na trave com a queda para o Atlético Cearense nos pênaltis das quartas de final em 2021. A promoção para a Série C representa a volta à terceirona pela primeira vez desde 2002.

Diante do pano de fundo, a partida no Marizão foi bastante emocionante. A Ferroviária tinha a vantagem pela vitória por 1 a 0 na partida de ida e aumentou o placar agregado logo aos cinco minutos. Depois de uma cobrança de lateral, Xavier recebeu na área e mandou de primeira na gaveta. O Sousa tentou a resposta na sequência, mas parou na defesa grená. A partida ficava aberta, entre a pressão de um lado e os contragolpes do outro, com direito a bola na trave que quase rendeu o segundo dos visitantes. O empate do Dinossauro ainda assim viria antes do intervalo, numa cobrança de falta fechada de Luís Henrique – justo ele.

Já no segundo tempo, a Ferroviária buscou administrar o resultado. O Sousa tinha a necessidade da virada e armava uma blitz contra os paulistas. O abafa foi grande, mas o Dinossauro não conseguiu encontrar seu segundo gol. Faltava mais clareza nas finalizações. Maycon Rangel teve as melhores chances dos paraibanos, inclusive uma nos acréscimos do segundo tempo, mas mandou para fora em ambas as brechas. A despeito de todo o clima, a Ferroviária pôde comemorar o feito na Paraíba.

O técnico da Ferroviária é Alexandre Lopes, ex-zagueiro bastante rodado em clubes da Série A e do exterior nos anos 1990. Ele dirigia a equipe sub-20 dos grenás e assumiu a equipe principal após a demissão de Elano. Já em campo, quem continua como grande referência da torcida é o goleiro Saulo. Aos 38 anos, o arqueiro é o dono da posição desde 2020. Sua experiência também se provou valiosa na empreitada durante a Série D.

Athletic Club

O Athletic Club foi uma das primeiras SAF's do futebol brasileiro, mas não chamou tanta atenção por figurar longe da elite nacional. Porém, os alvinegros dão sinais concretos de crescimento nos últimos anos. O clube manteve seu departamento profissional inativo por décadas, mas cresceu rapidamente desde a volta às atividades em 2018. Após subir duas divisões, a equipe de São João del Rei voltou à elite do Campeonato Mineiro em 2021 e alcançou as semifinais nas duas últimas edições do estadual – chegando a vencer o Atlético Mineiro em uma das partidas em 2023. Os alvinegros também foram bicampeões do interior. Já a estreia na Série D em 2023 seria marcada com o sucesso imediato. O Athletic conquistou o acesso graças à vitória na ida contra o Bahia de Feira, por 2 a 0, fora de casa. Neste sábado, o Tremendão anotou 1 a 0 em pleno Mineirão, mas o resultado foi insuficiente para os baianos.

O Athletic Club surgiu em 1909, inspirado no nome e nas cores do Atlético Mineiro. Durante a maior parte de sua história, porém, o time de São João del Rei se limitou às competições amadoras e às divisões de acesso. A equipe havia disputado o Campeonato Mineiro pela primeira vez em 1970, mas desativou seu departamento profissional logo depois e passou 49 anos inativa. O novo acesso à elite seria conquistado em 2020. Desde então, o Athletic se notabilizou por contratar medalhões como Loco Abreu e Ricardo Oliveira, enquanto se destacava no Mineiro. As boas campanhas recentes no estadual se encadearam, assim como renderam uma vaga inédita nas divisões nacionais para 2023. Oportunidade aproveitada logo de cara. O Athletic passou na liderança de seu grupo na primeira fase, antes de superar Brasiliense e Camboriú.

Já no duelo decisivo, o Athletic Club deu um grande passo com a vitória por 2 a 0 sobre o Bahia de Feira na ida. Por conta das limitações em seu estádio, o clube de São João del Rei atuou no Mineirão. E os baianos bem que tentaram uma reviravolta. Desde o primeiro tempo, o Tremendão já iniciou a pressão contra o Athletic em busca da vitória. O gol saiu logo aos 20 minutos, numa cobrança de falta de Reinaldo buscando o cruzamento que contou com a colaboração dos adversários para entrar direto. Quase Reinaldo ampliou em outra cobrança de falta, mas acertou a trave. O Bahia de Feira seguiu com os melhores lances, até que os mineiros se acertassem.

O segundo tempo seria mais equilibrado, com a melhora do Athletic. Entretanto, o Bahia de feira ainda rondava o segundo gol e levou perigo em alguns momentos, sobretudo em investidas pela esquerda. Faltou um pouco mais de precisão na hora de concluir. O Athletic buscou mais a posse de bola, com lances esporádicos no ataque. Douglas Pelé ainda poderia ter empatado, mas parou no goleiro Alan. Já no final, o técnico Cícero Júnior terminou expulso.

Cícero Júnior teve papel importante na reconstrução do clube. O treinador participou inclusive do acesso ao Campeonato Mineiro. Voltou ao cargo no último mês de abril, após uma passagem pelo Villa Nova. O goleiro Glauco e o atacante Brandão estiveram entre os destaques nos confrontos decisivos que valeram o acesso. Será a primeira vez do Athletic Club na Série C, e com uma estrutura administrativa que deixa esperanças de novos saltos. Nos últimos anos, Minas Gerais têm sido um terreno prolífico para clubes de empresários e o investimento recente respalda os alvinegros.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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