Brasil

A dica de Ilsinho para Caio Paulista na polêmica entre São Paulo e Palmeiras

Em entrevista exclusiva à Trivela, Ilsinho falou sobre situação de Caio Paulista, que repetiu pulo do ex-lateral, mas para o lado contrário

Quando o lateral-esquerdo Caio Paulista, emprestado pelo Fluminense ao São Paulo, “pulou o muro” para jogar no rival Palmeiras, no início desse ano, não faltaram comparações a uma troca que aconteceu há quase 20 anos, em julho de 2006, quando os papéis foram invertidos. Cria da base e recém-chegado ao profissional do Alviverde, o então lateral-direito Ilsinho tinha contrato próximo do fim e a direção do clube não acatou as condições do jovem atleta para renová-lo. Com isso, ele trocou o verde pelo vermelho, branco e preto, o que à época mostrou a força do Tricolor, campeão da Libertadores e Mundial de Clubes no ano anterior e que se sagraria tri consecutivo do Campeonato Brasileiro.

Existem semelhanças na história de ambos, principal no aspecto que deixa ainda mais quente a rivalidade Choque-Rei. Em 2006, o então novo são-paulino disse que tinha saído de “fria” e que o Palmeiras estaria “afundando” como o Titanic. Já em 2024, o ex-Flu mudou o nome de sua conta no Instagram para “Caio do Bicampeão Paulista”, em alusão aos dois títulos estaduais consecutivos do Alviverde, um deles em cima justamente do São Paulo.

Em entrevista exclusiva via videoconferência, Ilsinho assumiu à Trivela que errou na ocasião ao confundir o que eram os dirigentes e a instituição Palmeiras. Ainda afirmou não seria “hipócrita” de criticar Caio por já ter provocado anteriormente. No entanto, o experiente ex-lateral, aposentado desde 2021, passou uma dica para o agora jogador do Verdão.

— Eu cometi um erro ao comparar a entidade Palmeiras com as pessoas que administravam a base e o profissional. Coloquei todo mundo no mesmo pacote e ‘cuspi fogo’. Errei. O Palmeiras é uma coisa, os profissionais que estavam lá trabalhando não eram capacitados para aquilo e quando não é profissional toma decisões e falas precipitadas. E assim houve o desgaste na relação entre a minha família e o Palmeiras.

— Eu não posso ser hipócrita de falar que o Caio fez errado [ao provocar o São Paulo], muito pelo contrário. A gente é profissional até os 30 e poucos, tem que aproveitar e ele fez certo. Gosto dele, vou torcedor por ele, teve que aproveitar mesmo e ponto. Mas essa parte dessas agulhadinhas nas redes sociais, fazer igual eu fiz de dar entrevista, hoje, eu não faria. […] Não faça isso, deixa do jeito que tá. É você, sua família e seu clube. Faz o melhor, toma as atitudes pensando nos seus filhos e na sua família e deixa que a gente [imprensa, ex-jogadores, torcedores] fale. Se quiser, me manda uma mensagem, eu meto a boca por você, ‘dá nada’. Não vale a pena. Acho que nada se resolve na entrevista, na rede social. Tem jeitos melhores de dar respostas para essas pessoas. O Caio podia fazer um gol contra São Paulo e comemorar, é muito melhor de mandar uma mensagem por Instagram. Então, assim, eu não acho que ele fez errado, mas que ele não cometa o mesmo erro que cometi, de falar alguma coisa na entrevista ou mandar alguma mensagem subliminar via rede social.

Da semelhança nas trocas de farpas e as comparações nas redes sociais, o ex-jogador vê as situações como diferentes por conta das negociações. Ilsinho destacou que em seu caso o contrato tinha apenas finalizado, sem acordo, enquanto para Caio Paulista o próprio Tricolor falhou no prazo para comprar em definitivo o passe do lateral que estava emprestado.

— No meu caso, acabou o contrato e não tinha nada que me impedia, fui eu que escolhi a troca. No caso do Caio eu acho que o São Paulo perdeu algumas datas importantes, o clube tinha uma cláusula de compra numa data, perdeu, a partir do momento que perde o jogador volta para o mercado. Aí, o Palmeiras entrou na parada e ofereceu mais dinheiro para o Fluminense, uma proposta salarial melhor também para o Caio. Muita gente fala que o Caio escolheu sair e ele até pode ter escolhido, mas se o São Paulo tivesse cumprido a cláusula de compra nada disso teria acontecido.

Se há 18 anos, a troca de Ilsinho representava a força são-paulina, a mudança de 2024 também é uma mostra do Palmeiras supercampeão e poderoso de hoje. Inclusive, Gabriel Menino, em entrevista à TV Palmeiras, falou que Caio Paulista se impressionou com a estrutura alviverde, superior a do clube do MorumBIS.

O ex-jogador que também passou por Internacional, Shakthar Donetsk e Philadelphia Union, falou que, quando chegou em 2006, era exatamente ao contrário: o lado verde da Barra Funda era quem estava defasado em relação à estrutura. Por isso, questiona o que houve nos últimos anos para que o São Paulo “parasse no tempo”.

— Se o Caio falou que a estrutura palmeirense é melhor, talvez seja, e por matérias que a gente viu, aparenta ser melhor, né? Realmente, a pergunta é o porquê do São Paulo ter parado no tempo. Se em 2006 quando eu mudei era muito melhor, 20 anos depois era para ser 20 vezes melhor ainda, era para continuar as melhorias. E qual o motivo que parou [de evoluir] sendo que em todos esses anos teve venda de Lucas Moura, David Neres, Antony, contratos de patrocinadores, campanhas, enfim.

— Isso é um caso a ser repensado. Por que não repetir o planejamento quase perfeito iniciado em 2005 com os títulos do Campeonato Paulista, Libertadores e Mundial de Clubes e deu sequência em três Campeonatos Brasileiros? O que mudou na filosofia do time para que isso não tenha dado sequência? São perguntas que a gente de fora não consegue responder, mas é um tema que teria que ser abordado sim e até esse tipo de entrevista é boa porque faz o São Paulo acordar e sair daquela zona de conforto.

O que tem feito Ilsinho desde a aposentadoria?

Os são-paulinos mais ligados nas redes sociais perceberam o que Ilsinho tem feito desde que deixou os gramados. Mais calado nos tempos de jogador, o aposentado lateral agora aposta na carreira de comunicador e produtor de conteúdo no canal IlsinhojrTV, que conta com mais de 24 mil inscritos no YouTube, fazendo sucesso principalmente entre os tricolores. Ele faz lives e grava vídeos analisando taticamente clubes brasileiros, buscando trazer o ângulo de ex-atleta ao lado de outros três amigos.

Não era um plano para ele assim que pendurou as chuteiras, mas pelas décadas dedicadas ao futebol, era a única coisa que “sabia fazer”. O irônico é que o lateral nunca foi apegado a falar para as câmeras ou dar entrevista.

— Depois que a gente para de jogar, a gente entra num limbo assim, meio que não sabe o que vai fazer, né? Eu achei que nunca ia trabalhar com futebol, mas querendo ou não, durante vinte e poucos anos foi a única coisa que eu soube fazer. […] A gente começou a fazer produzir sem pretensão nenhuma, começamos a fazer uns vídeos falando de futebol, a galera foi gostando, foi engajando, hoje eu sou cobrado a falar de esquema tático, coisas que eu particularmente não ia parar para ver — assume.

— Por incrível que pareça, eu nunca gostei de dar uma entrevista, eu sempre evitei a entrevista ao máximo, falar com a imprensa não era meu forte. […] Agora, o que eu faço é falar, é engraçado como as coisas mudam assim. Hoje eu tenho outro entendimento até do approach jogador e imprensa também, que antes era de um jeito, hoje é de outro. […] A própria mídia mudou. Se na época de jogador tivesse a experiência de hoje, talvez as coisas teriam sido um pouco diferentes.

Ilsinho e amigos analisando o amistoso Brasil x Espanha no Youtube (Foto: Reprodução)

Além das lives, Ilsinho tem uma escolinha de futsal na Filadélfia, onde permaneceu morando mesmo após sair do Philadelphia Union. Ele concluiu a Licença B de treinador e atualmente faz mestrado para se tornar diretor esportivo, área que projeta seguir. Se trabalhará no Brasil ou nos Estados Unidos, o brasileiro não sabe e nem descarta qualquer destino.

Ele, que realizou o sonho de ser campeão no São Paulo, na Europa e jogar com a Seleção Brasileira, busca, nessa nova carreira na gestão desportiva, alcançar a Copa do Mundo e a Premier League, duas ambições que não conseguiu nos tempos de jogador.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de eSports no The Clutch. Além disso, atuou como assessor de imprensa no setor público e privado.
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