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O futebol passa longe de ser simples, mas Felipão tem tido ações para complicá-lo mais no Atlético-MG

Com escolhas controvérsias, Felipão parece buscar sempre complicar mais o futebol no Atlético, sendo que o material para facilitar está na sua frente

O futebol de modo geral não chega nem perto de ser simples. Não é “só colocar fulano” ou “só usar formação X” que as coisas vão dar certo. Nada feito nesse esporte, nem mesmo contratar Lionel Messi ou Pep Guardiola te dá 100% de certeza de dar certo. Em compensação, há alguns detalhes que podem ser observados ao longo das partidas e dos treinamentos que ajudam a facilitar as coisas. No Atlético-MG, mesmo com toda a experiência, Felipão não tem conseguido perceber esses detalhes e tem, inclusive, dificultado mais ainda o time.

Felipão é um dos mais experientes e vencedores treinadores do futebol brasileiro e mundial. Mas “só” isso não parece ser o suficiente para ele entender os problemas que o time do Atlético tem apresentado e as mudanças necessárias para pelo menos amenizar esses problemas. Como citado, futebol não é ciência exata e não é simples, mas pode ser facilitado.

No caso do Atlético, há duas situações: o esquema tático e as escolhas de Felipão, sejam as que começam o jogo ou as que entram no decorrer dele.

Como citado na coletiva após o jogo contra o Itabirito e que irritou Felipão, o time do Atlético parece mais “engessado” quando joga com dois volantes. Fica um time muito robótico, que não demonstra muito poder de criação ou de fazer algo diferente para colocar fogo no jogo ou até furar um bloqueio adversário. Diante desse cenário, ele até tentou mudar um pouco o time neste sábado, utilizando de fato um volante (Battaglia) e três meias (Igor Gomes, Scarpa e Edenilson). Mas é aí que entra a questão das escolhas.

Se Felipão queria um time mais ofensivo e criativo, para deixar de ser engessado, não fez sentido manter o (bastante criticado) Edenilson e não colocar um jogador com características mais ofensivas, como Pedrinho ou a nova sensação do time Alisson Santana, que pedia passagem há meses, ganhou chance no último jogo e arrebentou, sendo justamente esse detalhe diferente que faltava ao time.

Contra o Itabirito, Alisson entrou (exatamente na vaga de Edenilson) e, em dois minutos, criou duas chances reais de gol. Minutos depois, acertou uma bola na trave em bela jogada. É claro que o meia é um jovem que pode (e deve) oscilar e precisa aprender muito ainda, mas por que não aproveitar que ele está “on fire” e utilizá-lo cada vez mais? Principalmente com uma mudança de esquema como ele fez hoje.

– Fizemos isso (conversar) ontem ainda, mostrando lances do jogo passado, em situações que ele tem que progredir. O Alisson não é um jogador só do Galo, é do futebol brasileiro e pode ser do futebol estrangeiro. Ele tem que aprender algumas posturas que, no júnior, não é ensinado, pois não tem as mesmas dificuldades do profissional. Estamos passando para ele algumas noções e ele está se desenvolvendo devagarinho — disse Felipão sobre Alisson após o jogo.

Ainda na questão de opções, Felipão optou, tanto neste jogo quanto contra o Athletic, pela entrada de Patrick no time para fazer a meia esquerda. Por mais que o treinador cite que o jogador está treinando muito bem e é justo que ele receba sim suas oportunidades em 2024, não há nenhuma justificativa plausível para o camisa 49 estar na frente de Rubens na “fila”.

Rubens subiu ao profissional do Atlético improvisado na lateral-esquerda, onde foi muito bem substituindo Arana. Mas ele sempre foi meia, inclusive tendo muito destaque. Quando Felipão o testou na posição em 2023, o time passou a jogar muito melhor. Em 2024, era esperado mais minutos ainda para ele, que sempre foi muito bem quando acionado. No entanto, estava escanteado até esse jogo contra o Itabirito, quando o treinador preferiu Patrick, mas depois teve que colocá-lo pois Arana sentiu lesão. O jovem atleticano deu assistência para Hulk fechar o placar e, de novo, escancarou para Scolari que ele precisa jogar mais.

Não precisa dificultar, Felipão

O ponto é que, com opções que claramente são (ou estão) melhores, Felipão segue insistindo em dar minutos para jogadores que ou não estão bem no momento ou sequer já tiveram um bom momento pelo Atlético. Por que dificultar a coisa colocando jogadores que não contribuem ao invés de jovens que já demonstraram enorme potencial e estão pedindo passagem?

Outro ponto em que o treinador dificulta o time é seguir insistindo em abrir Paulinho no campo, afastando-o de Hulk. Em 2023, os dois funcionaram perfeitamente como dupla, somando 61 gols no total. Agora, Paulinho aparece frequentemente atuando mais aberto, sem a possibilidade de fazer o facão entre a defesa que rendeu a ele tantos gols no ano passado e, pior, afastado de Hulk.

Colocar Alisson e Rubens no time com mais frequência (ou até como titulares) e “segurar” Edenilson e Patrick não são coisas que garantem que o Atlético vai simplesmente melhorar. A final, vale repetir que o futebol não é uma ciência exata. Mas, nesse momento, os dois primeiros citados estão melhores do que os dois últimos, então merecem jogar mais.

Mas um detalhe que Felipão parece não entender é que dar chances para um não quer dizer escantear outro. Após Alisson brilhar no último jogo, ficou claro que ele só jogou pois o Atlético negociou Pavón com o Grêmio. Scolari até citou: “ganhamos uma contratação”. Mas ter Pavón não deveria impedir Alisson de jogar, da mesma forma que Edenilson não impede o próprio jovem ou outro de atuar, ou que Igor Gomes e Patrick impeçam Rubens. Todos podem (e devem) ter suas chances e, quem se destacar, passa a jogar – não impedindo que outro atleta, que tem que seguir tendo seus minutos, possa tomar essa vaga.

Felipão tem o direito de tentar implementar no time as suas convicções, mas, se o elenco não tem as características necessárias e já estava funcionando bem de um outro jeito, por que insistir tanto em forçar seu estilo que claramente não dá certo com o que ele tem? É claro que ele é experiente e não precisa abrir mão de tudo que sempre fez na carreira logo em seu (provável) último ano como treinador, mas é preciso entender as limitações e as características do elenco.

Foto de Alecsander Heinrick

Alecsander HeinrickSetorista

Jornalista pela PUC-MG, passou por Esporte News Mundo e Hoje em Dia, antes de chegar a Trivela. Cobriu Copa do Mundo e está na cobertura do Atlético-MG desde 2020.

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