Brasil

De sobrinho de Rivaldo à seleção: entrevista mostra por que Nino é um cara diferente

Capitão do Fluminense, Nino saiu de casa aos 14 anos, se inspirou em David Luiz para virar zagueiro e quer ser pastor após a carreira

Ao dar os primeiros passos na terra batida do campo do Centro, em Campina do Barreto, no Recife, Marcílio nem imaginava o que estaria por vir. Neto de um verdureiro e uma lavadeira, cresceu em uma casa simples, mas graças ao pai, que se tornou juiz, ainda menino estudou em uma boa escola e foi apresentado ao futsal. O menino de seu Marcílio se tornou Nino, que deixou Pernambuco aos 14 anos e passou por São Paulo e Santa Catarina antes de se tornar capitão do Fluminense, campeão olímpico e convocado à seleção principal.

Das lembranças de família ao futsal pernambucano na infância, Nino contou com riquezas de detalhes a história de sua vida em mais de uma hora de entrevista à Trivela no CT Carlos Castilho. A fala calma e o brilho no olho ganharam mais emoção ao falar a palavra Sofia.

O nome de sua filha, nascida no fim de dezembro, pode ser traduzido literalmente do grego como “sabedoria”. Característica que o zagueiro do Fluminense demonstra de sobra ao falar de todos os assuntos, como fé, futebol e principalmente família.

— Acho que amadureci muito com a paternidade, e com certeza se refletiu dentro de campo. Eu vi a expressão de um jogador da NFL, que disse assim: “Nada mais importa e ao mesmo tempo tudo importa mais por causa dela”. É a melhor frase, resume tudo — disse Nino.

 

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Além de Sofia, a voz de Nino também se modificaria ao falar de seus sonhos. O maior deles, no futebol, é o mesmo de milhões de torcedores do Fluminense.

— Tem sido um ano muito especial para mim, pessoal e profissionalmente. Tenho aproveitado muito. Já é o meu ano mais artilheiro, espero fazer mais gols, primeira convocação para a seleção, bicampeão, vendo a Sofia crescer. É um ano muito especial, sem dúvida. Espero continuar realizando sonhos — afirmou, para destacar um em particular.

Meu maior sonho no futebol era jogar a Copa do Mundo, mas hoje, é ganhar a Libertadores pelo Fluminense. A repercussão e a grandeza da história, como capitão, levantar essa taça, seria até maior que jogar a Copa.

O carinho pelo Fluminense ficou claro em todas as respostas do jogador, que vestia uma camisa escrito “Pai Tricolor”, produto especial do clube para o Dia dos Pais no último domingo (13). Tanto que o zagueiro rechaçou qualquer vontade de deixar o clube. Nos últimos anos, Nino recebeu sondagens de grandes europeus e propostas de clubes de México e Turquia.

— Desde que cheguei aqui em 2019, sempre deixei claro para as pessoas do clube e nas entrevistas que eu assim como saí do Criciúma, se um dia fosse sair do Fluminense, seria ajudando o clube, com uma venda. Sempre deixei claro que nunca faria nada que o clube não soubesse, nunca faria sacanagem com o clube, mas que fosse algo que fosse bom para os dois. Primeiro, o Fluminense. Depois, eu — resumiu.

‘Sobrinho' de Rivaldo: Nino foi adotado por família de pentacampeão

Vizinho do Arruda, antes de brilhar no Fluminense, Nino teve sua primeira grande chance no futsal do Santa Cruz. Nas mãos do treinador Barão, o fixo de qualidade técnica aprendeu muito sobre leitura de jogo, foi campeão de tudo, viajou o mundo e dividiu as quadras com nomes como Otávio (Porto) e Matheus Cunha (Wolverhampton). De lá, foi para o campo no rival Sport, onde também seria campeão com Joelinton (Newcastle) e Neto Moura (Cruzeiro).

 

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O grande passo, entretanto, veio graças ao pentacampeão Rivaldo. O craque era presidente do Mogi Mirim quando ele e seu irmão convidaram o zagueiro para deixar Pernambuco rumo a São Paulo.

A transição foi “facilitada” pelo melhor jogador do mundo de 1999, que fez o mesmo caminho anos antes, e tinha um sobrinho, Romildo, na mesma geração que Nino. A família toda de Rivaldo se mudaria para lá, e adotou o zagueiro do Fluminense.

— Quando ele fui para Mogi, a família do Romildo e do Rivaldo foi junto. Então, quando fui, não fiquei direto no alojamento, ainda passei um tempo na casa dos pais dele, fazendo testes. Passei no teste, a família deles gostou muito de mim, e me adotaram. Os dois anos que passei por lá, morei na casa deles. Sou meio sobrinho do Rivaldo (risos). Continuei tendo a base familiar, que de alguma forma amenizou a falta que eu sentia da minha família — contou.

Hoje rival, David Luiz foi inspiração para Nino virar zagueiro

Se Rivaldo e família ajudaram, o futebol tratou de dificultar. Em um dos funis das divisões de base, Nino ficou muito tempo no banco e pensou em desistir. Na verdade, decidiu. Ao voltar ao Recife nas férias do meio do ano, conversou com o pai e comunicou sua vontade. Seu Marcílio, entretanto, respondeu com uma profecia.

— Meu pai me pediu calma, me falou para orar e esperar seis meses, até para não trocar de escola no meio do ano. Se nesses seis meses eu não chegasse aos profissionais, entenderia a vontade de Deus, se ele tinha planos para mim na profissão. Eu voltei pensando que meu pai estava ficando louco. Não jogava no sub-17, ia virar profissional como? (risos) Quando voltei, comecei a jogar de zagueiro e tudo aconteceu.


O que pouca gente sabe é que o zagueiro convocado para a Seleção em 2023 — Nino foi cortado por lesão e aguarda o primeiro chamado de Fernando Diniz, na sexta (18) — só foi jogar na posição por conta de um “rival”. Hoje no Flamengo, David Luiz foi a inspiração para que o jogador trocasse o meio-campo pela defesa.

— Estava num domingo em casa e passou uma reportagem do David Luiz contando a história dele. Ele era volante, estava no Vitória, jogando mal, estava para ir embora, até que colocaram ele de zagueiro e deu certo. Eu pensei “será que é esse o caminho?”. Pouco tempo depois, faltou um zagueiro em um treino e eu pedi ao técnico para me colocar de zagueiro. Passei a ir para o banco porque fazia as duas. Fui para zaga e fiquei. Isso mudou minha situação no clube.

De jogador sem contrato à Seleção

Nino se destacou no Criciúma antes de chegar ao Fluminense. A história, entretanto, era para ser outra. O destaque no Mogi Mirim parou numa decisão de Rivaldo de fechar a base do clube. O novo treinador, então, levaria aos profissionais apenas quem tivesse idade. O zagueiro ia ficar, mas o clube não quis assinar contrato.

Sem acordo, ia para o São Carlos para jogar a Copa São Paulo de Juniores, mas isso acabou não acontecendo. Nino ficou sem clube, mas uma ligação durante viagem ao Rio, com a família, mudou tudo.

— Estava aqui no Rio com a minha família. Um empresário que tinha me visto jogar me ligou porque tinha um teste no Figueirense. Um dia antes, o teste foi cancelado, mas consegui um no Criciúma. No dia que cheguei no Criciúma, o técnico foi mandado embora e chegou um treinador que não conhecia ninguém. Ele se encantou comigo. No primeiro jogo eu já era capitão, no ano seguinte já era titular do Criciúma na Copinha, virei profissional e me destaquei.

 

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De lá para cá, Nino fez 230 jogos, oitava maior marca do Fluminense no Século XXI. Conquistou o bicampeonato do Carioca como capitão, se tornou campeão olímpico em Tóquio-2020 e chegou à Seleção. Ele pode enfim estrear pelo time principal da Amarelinha justamente com Diniz, a quem considera “fantástico e completo”.

— Ele está melhor ainda. A cada confronto de dificuldade ele cresce e melhora nosso jogo. É um cara especial. O trabalho continua o mesmo, as mesmas ideias. Tem dia que a gente esquece. Ter ele aqui é um motivo de orgulho. Todos ficam honrados demais de estar com ele, ver ele ser reconhecido, porque ele é um treinador desse tamanho, de um time enorme como o Fluminense e de Seleção.

Nino quer ser pastor ao deixar futebol

Leitor voraz, Nino tem como livro de cabeceira no momento “O Milênio”, um debate de visões sobre o Apocalipse. Antes, foi impactado por “Isto é filtro solar”, de Emílio Garofalo Neto, sobre Eclesiastes, que, em suas palavras, “reflete sobre o sentido da vida e conta como o mundo é belo, mas ao mesmo tempo, parece feio”.

Nino vai das conversas sobre cristianismo com Felipe Melo e Samuel Xavier até conversas sobre ciência com o amigo Igor Julião, hoje no Marítimo, de Portugal. O zagueiro de 26 anos garante que foi uma das pessoas que mais o ensinou na carreira.

— Hoje temos um número grande de cristãos no futebol, mas também tem ateus, pessoas da umbanda, e tratamos isso com respeito. Cada um tem direito de ter sua fé. Creio que mais do que tentar convencer a pessoa da sua fé, o objetivo é mostrar para ela pelas atitudes da fé que eu tenho. Conversava muito com o Julião, que é ateu, e aprendi muito com ele, sempre com muito respeito. Ele me fez pensar muito sobre a fé, aguçou em mim um lado curioso sobre a ciência. E acabei descobrindo por influência dele que ciência e fé tem tudo a ver.

Nino e Igor Julião em treino no Fluminense, em 2021: evangélico, zagueiro aprendeu muito com lateral ateu - Foto: Mailson Santana/Fluminense FC
Nino e Igor Julião em treino no Fluminense, em 2021: evangélico, zagueiro aprendeu muito com lateral ateu – Foto: Mailson Santana/Fluminense FC

Não à toa, seus planos para depois da carreira não tem a bola, mas a bíblia como centro.

— Depois da carreira quero estudar teologia. Eu queria me formar nisso em um seminário bom, e talvez ser um pastor. Acho que as responsabilidades são muito grandes. Tem que abdicar de muita coisa, quase como um jogador de futebol, mas me sinto chamado a isso. O que me encanta, além de jogar futebol, é falar de Deus — afirmou Nino, que repetiu a palavra “Deus” em 33 vezes durante a entrevista. Nenhuma delas em vão.

Diretor como Fred ou auxiliar de Felipe Melo?

Seu jeito tranquilo alongou a conversa e fez o meia Daniel esperar impaciente do lado de fora da sala de imprensa. Quando o amigo já estava na sala, o capitão não poupou Fred e aproveitou para provocá-lo.

 

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— Penso em me desligar do futebol, sim. Pode ser que alguma coisa mude. Eu gosto de estudar o jogo, tenho um entendimento bom, poderia ajudar se fosse treinador ou auxiliar, mas no momento não tenho vontade de seguir no futebol. Talvez um emprego como o do Fred, que fica tranquilo, sem fazer muita coisa. Fica na resenha, viaja, fica em hotel bom, volta sem pressão (risos). Um emprego desse eu aceitaria! — brincou Nino, antes de contar uma “proposta” que recebeu.

— Felipe Melo quer me convidar para a comissão técnica dele. Ele de técnico, eu de auxiliar e Samuel Xavier seria o preparador físico — contou.

Nino com Fred e Yago no Fluminense: zagueiro provocou amigo e ex-capitão - Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC
Nino com Fred e Yago no Fluminense: zagueiro provocou amigo e ex-capitão – Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC
Foto de Caio Blois

Caio Blois

Caio Blois nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e se formou em Jornalismo na UFRJ em 2017. É pós-graduado em Comunicação e cursa mestrado em Gestão do Desporto na Universidade de Lisboa. Antes de escrever para Trivela, passou por O Globo, UOL, O Estado de S. Paulo, GE, ESPN Brasil e TNT Sports.
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