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Nos 50 anos de Rivaldo, 15 atuações memoráveis do craque com a camisa da Seleção

Rivaldo colecionou partidas mágicas com a seleção brasileira, incluindo duas Copas do Mundo em altíssimo nível

Rivaldo costuma ser tratado tantas vezes como um “craque subestimado”. E quem faz esse tipo de afirmação geralmente tem seus motivos para justificar, já que o camisa 10 nunca teve mídia do tamanho de seu talento. O que não dá para considerar como algo menor, porém, é a importância que o meia teve para a Seleção. Nem sempre a relação foi um mar de rosas, com críticas duras ao “estilo individualista” do armador e aos seus momentos de baixa. Olhando para trás, a passagem do pernambucano pela equipe nacional é até relativamente curta, concentrada em dois ciclos de Mundiais. Em compensação, Rivaldo tantas vezes entregou futebol no mais alto nível e correspondeu nos maiores palcos.

A Copa do Mundo de 2002 é o maior símbolo da grandeza de Rivaldo. Para muitos, foi o melhor jogador do Brasil no Mundial e os argumentos são bastante válidos, com gols decisivos em cinco jogos e papel fundamental também quando passou em branco. Mas vale lembrar que, em 1998, ele também seria responsável direto por levar o Brasil à final, em especial pelas apresentações gigantes contra Dinamarca e Holanda nos mata-matas. O camisa 10 ainda teve uma Copa América para chamar de sua, magnífico na conquista em 1999. Isso sem falar nos jogos de Eliminatórias e mesmo nos amistosos. A Argentina era uma de suas vítimas favoritas.

Nesta terça, Rivaldo completa 50 anos. E sua história está diretamente atrelada à seleção brasileira. Aproveitando o gancho, relembramos 15 partidaças do craque com a Amarelinha. A ideia era fazer uma lista com 10 jogos, em referência à sua camisa 10, mas o nível é tão alto que a relação precisou ser maior do que isso. Nada mal para quem totalizou 74 aparições com a equipe adulta, somando 35 gols e inúmeros lances inesquecíveis.

16 de dezembro de 1993 – 1×0 México

Rivaldo estreou pela Seleção em dezembro de 1993, na época como jogador do Corinthians, meses depois de estourar com o Mogi Mirim. E sua primeira partida com a Amarelinha impressionou Carlos Alberto Parreira meses antes da Copa de 1994. O bom papel feito contra o México até fez acreditar que o garoto de 21 anos pudesse pintar no Mundial dos Estados Unidos. O gol brasileiro na vitória por 1 a 0 foi do estreante, que aproveitou o escanteio batido por Branco para concluir de cabeça. Ainda quase fez um tento do meio do campo, na tentativa de encobrir Jorge Campos, mas errou o alvo por pouco. O novato chegou a ser testado em posições diferentes no meio, nas funções então ocupadas por Zinho e Raí.

“A estreia de Rivaldo foi excelente. Teve personalidade para buscar jogo e se saiu muito bem. Podemos contar com ele. Sua versatilidade é impressionante: tanto joga do meio para a frente como fica mais atrás. Se bem que eu o prefira na esquerda, buscando as jogadas de frente. Ele é impetuoso, tem presença de área”, comentou Parreira depois do jogo. Contudo, Rivaldo não manteria a forma no primeiro semestre de 1994 e acabou perdendo espaço às vésperas da Copa.

16 de junho de 1998 – 3×0 Marrocos

Rivaldo teve aparições esparsas pela Seleção entre 1994 e 1997. Esteve presente nas Olimpíadas de Atlanta, quando recebeu muitas críticas, e era reserva no “time dos carecas” que levou a Copa das Confederações de 1997. Ganhou a posição mesmo em 1998, impulsionado pela excelente fase no Campeonato Espanhol – primeiro no Deportivo de La Coruña e então no Barcelona. Seu cartão de visitas na Copa do Mundo veio contra Marrocos, na segunda rodada. O camisa 10 acabou ofuscado por Ronaldo, mas foi dele o grande lançamento para o primeiro gol do centroavante. Depois, ampliou ao completar um passe rasteiro na área.

3 de julho de 1998 – 3×2 Dinamarca

Um dos jogos mais difíceis do Brasil na Copa de 1998 contou com uma atuação brilhante de Rivaldo. O camisa 10 foi dono da partida, numa noite em que a Seleção teve momentos errantes e acumulou falhas. Depois que os dinamarqueses abriram o placar e Bebeto empatou, Rivaldo teve extrema frieza para vencer Peter Schmeichel e virar com um leve toque por cima do goleiro. Depois do novo empate dos escandinavos, o craque tirou o coelho da cartola com um chutaço do meio da rua que entrou no cantinho. Foi brilhante. “Sabia que daria a volta por cima. Fui criticado por prender a bola, mas essa é a principal característica do meu jogo e não seria tolo em ficar repetindo uma coisa errada. Eu voltei, definitivamente”, afirmou, depois do jogo.

7 de julho de 1998 – 1×1 Holanda

Uma das maiores semifinais da história das Copas teve uma atuação de gala de Rivaldo, ao lado de Ronaldo. O camisa 10 serviria alguns passes açucarados para o camisa 9. Numa enfiada magistral, saiu o gol brasileiro. Na segunda chance gerada por Rivaldo, Ronaldo perdeu um lance cara a cara com Edwin van der Sar. O meia, porém, também desperdiçou um chute na pequena área contra o goleiro holandês. Nos pênaltis, Rivaldo converteu a segunda cobrança brasileira.

28 de abril de 1999 – 2×2 Barcelona

Rivaldo atravessava um momento esplendoroso com o Barcelona em 1999, mas enfrentou seu clube pela seleção brasileira, em amistoso que comemorava o centenário dos blaugranas. O camisa 10 seria o grande destaque do Brasil no Camp Nou, mesmo ao lado de Romário e Ronaldo. Rivaldo marcou um bonito gol, num chute forte, e se emocionou na comemoração. Mostrou uma camiseta com a foto do falecido pai, bem como os escudos de Brasil e Barcelona. Ainda aproveitou para dar show com belos lances individuais.

17 de julho de 1999 – 3×0 Uruguai

Rivaldo seria fantástico na conquista da Copa América de 1999. O camisa 10 marcou gols importantes nas quartas de final contra a Argentina e na semifinal contra o México. Já na decisão, coroou-se como o principal jogador do torneio ao destruir o Uruguai. Foram dois gols e uma assistência no triunfo por 3 a 0 em Assunção. Fez o primeiro de cabeça e o segundo de cavadinha, mas o melhor viria no lançamento cirúrgico para Ronaldo fechar a contagem. No dia seguinte, recebeu nota 10 do jornal O Globo.

7 de setembro de 1999 – 4×2 Argentina

As atuações mais marcantes de Rivaldo pela Seleção aconteceram, é claro, em Copas do Mundo. Porém, aquela apresentação no Beira-Rio contra a Argentina é histórica. Ofereceu o máximo do camisa 10, participando de todos os gols nos 4 a 2 sobre a Albiceleste. Foram dois gols no primeiro tempo, quando uniu chegada ao ataque e capacidade de definição. Completaria sua tripleta no segundo tempo, antes de servir Ronaldo no quarto gol. Ainda esmerilhou os argentinos com seus passes cheios de categoria. Aquela atuação é definitiva, às vésperas de ser eleito o Bola de Ouro em 1999.

26 de abril de 2000 – 3×2 Equador

O Brasil passou sufoco em diversos momentos nas Eliminatórias para a Copa de 2002. Logo na segunda rodada, a equipe seria vaiada no Morumbi, sem encantar na vitória por 3 a 2 sobre o Equador. Rivaldo carregou o time naquela noite, para impedir uma decepção maior. O craque empatou o jogo, depois que Alex Aguinaga abriu o placar com um golaço. A virada surgiu num cruzamento seu, enquanto anotaria também o terceiro num rebote. Jogava como o digno melhor do mundo.

7 de outubro de 2001 – 2×0 Chile

A classificação do Brasil para a Copa de 2002 é mais lembrada pelos heróis descobertos por Felipão na reta final. Jogadores como Luizão, Edílson, Denílson e Marcelinho Paraíba foram muito úteis. Mas Rivaldo também tem sua importância na passagem, com gols marcados nas três últimas vitórias da Seleção na campanha – contra Paraguai, Chile e Venezuela. Diante dos chilenos é que o camisa 10 foi mais decisivo, brigando pela bola para Edílson abrir o placar e fuzilando para o segundo. A vaga ainda não tinha sido garantida, mas a tranquilidade era maior a essa altura.

3 de junho de 2002 – 2×1 Turquia

Com seus motivos, a participação de Rivaldo na estreia da Copa de 2002 é mais lembrada por sua encenação ao tomar uma bolada “na cara”. Porém, o camisa 10 foi o melhor em campo do Brasil na difícil vitória sobre os turcos. O camisa 10 teve grande papel na criação e seria dele o cruzamento na medida para Ronaldo empatar o marcador. Seria ele também a assumir o pênalti sofrido de maneira contestável por Luizão, culminando na virada no final. Aquele pastelão que rendeu a expulsão de Hakan Ünsal foi apenas a cereja do bolo.

17 de junho de 2002 – 2×0 Bélgica

Para muita gente, aquele foi o jogo mais difícil do Brasil na Copa do Mundo de 2002 – até pela influência da arbitragem. E o peso de Rivaldo foi enorme, para tirar a Seleção do sufoco. O camisa 10 nem seria exatamente brilhante ao longo dos 90 minutos, mas seu gol foi. Abriu o placar no meio do segundo tempo com um lance de gênio. Matou no peito, ajeitou com a ponta da chuteira no giro e encheu o pé para estufar o barbante. “Apesar das críticas, nunca me abati. Sempre acreditei no meu potencial e é muito bom ver o seu esforço reconhecido. Foi uma sensação maravilhosa. Deixar o campo aplaudido por todo o estádio com a camisa da seleção brasileira, numa Copa do Mundo, é mais emocionante do que fazer um gol”, comentaria depois.

21 de junho de 2002 – 2×1 Inglaterra

A vitória contra a Inglaterra deu pinta de que o Brasil realmente poderia ser campeão do mundo. Rivaldo acabou sendo um coadjuvante de luxo na grande tarde de Ronaldinho Gaúcho. O camisa 10, ainda assim, deixou sua marca e balançou as redes pelo quinto jogo consecutivo naquele Mundial. A batida de chapa nos acréscimos do primeiro tempo, para assegurar o empate, evitou um cenário preocupante aos brasileiros na segunda etapa. “Ninguém gosta de crítica, ainda mais quem trabalha duro. Não tenho que dar resposta para ninguém, mas é lógico que fazer gols importantes e se destacar numa Copa é muito bom”, afirmou naquele momento.

26 de junho de 2002 – 1×0 Turquia

Rivaldo não chegou a participar diretamente do gol que definiu a classificação do Brasil à final da Copa de 2002. Contudo, dá para argumentar que o camisa 10 fez sua melhor exibição na Copa neste jogo, o único em que não influenciou diretamente o placar. Rivaldo conduziu a Seleção em momentos nos quais o time parecia desligado e dominava o meio-campo. Fez de tudo um pouco, da criação à marcação. Foram algumas boas chances no primeiro tempo, além de seus dribles com as características passadas largas.

30 de junho de 2002 – 2×0 Alemanha

É uma pena que a Copa do Mundo fabulosa de Rivaldo não tenha sido coroada com gol na decisão. Ainda assim, a presença do camisa 10 em Yokohama é clara. Ronaldo sabe muito bem que seus dois tentos dependeram do corta-luz espetacular do meia e também do chute que gerou o famoso rebote de Oliver Kahn. A consagração definitiva do pernambucano, em uma campanha na qual a supremacia da Seleção corresponde diretamente à sua excelência nas sete partidas.

“Acho que agora ninguém vai mais questionar o meu futebol. Sinceramente, se alguém ainda duvidar da minha capacidade, não sei mais o que fazer. Não sei o que esta pessoa espera de um jogador de futebol. Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Era um título que tinha deixado escapar em 98 e isso não poderia se repetir. Realizei o maior sonho que tinha. Esta conquista eu dedico ao meu pai, Romildo, que já não está aqui, mas olha por mim onde quer que esteja”, diria Rivaldo, naquele inesquecível 30 de junho.

16 de novembro de 2003 – 1×1 Peru

Rivaldo jogou pouco pela Seleção depois da Copa de 2002. Foram apenas oito partidas, quatro delas pelas Eliminatórias para a Copa de 2006. O craque dava sinais de desgaste físico e não correspondia pelo Milan. Ofereceu sua última boa apresentação com a Canarinho diante do Peru, num empate por 1 a 1 em Lima no qual o time não agradou. Rivaldo, em compensação, se safou. O meia marcou um gol de pênalti, garantiu boas jogadas e ainda acertou a trave. Seria sua penúltima aparição pela equipe nacional, antes de um empate contra o Uruguai. Nada que diminuísse a história construída no topo do mundo, com títulos e o reconhecimento amplo da maneira como decidiu pelo Brasil.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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