Brasil

São Paulo respira com renúncia de Casares, mas ainda tem desafios grandes no horizonte

Agora ex-presidente anunciou que deixa o cargo nesta quarta-feira (21)

No dia em que o MorumBIS, casa do São Paulo Futebol Clube, foi chamado de “gigantesca máquina de caça-níqueis” por um dos promotores à frente da operação do Ministério Público e Polícia Civil contra a venda ilegal de camarotes, o (agora ex) presidente Julio Casares anunciou, em seu perfil do Instagram, a renúncia ao cargo que ocupava no clube.

A renúncia nesta quarta-feira (21) é uma consequência direta da votação feita no Conselho Deliberativo durante a última sexta (16), na qual 188 dos 235 conselheiros se mostraram favoráveis ao impeachment de Casares, o que lhe afastou do cargo. Ele poderia esperar até a última instância, uma assembleia dos sócios, mas escolheu renunciar antes.

Segundo o comunicado divulgado em suas redes, que não está aberto para comentários, o ex-presidente diz que sua decisão “não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações“, e que tomou a atitude para preservar a saúde, família e ambiente esportivo do São Paulo.

Ele também chamou os bastidores do clube de “ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos“.

Quem assume o cargo definitivamente é o vice Harry Massis Junior, que fica até o fim do mandato, em dezembro de 2026.

O que levou ao impeachment de Casares

As últimas semanas marcaram o derretimento de uma gestão que começou em dezembro de 2020 e, embora tenha quebrado o jejum com o Paulistão de 2021 e ganho dois títulos inéditos (Copa do Brasil e Supercopa), termina como uma das piores da história do Tricolor.

O apoio popular já havia despencado a partir do momento em que a gestão levou a dívida do São Paulo a quase R$ 1 bilhão devido a escolhas financeiras e esportivas equivocadas, especialmente durante o segundo mandato de Casares, que começou em 2024.

A gota d’água veio no fim de 2025, quando o “ge” publicou um áudio vazado entre Douglas Schwartzmann, diretor da base, e Mara Casares, ex-esposa de Julio e diretora feminina, cultural e de eventos, negociando a venda clandestina de ingressos para o camarote do show da Shakira, realizado em fevereiro daquele ano no Morumbis.

Este fato motivou o pedido de impeachment da oposição e a abertura de uma inquérito da Polícia Civil e Ministério Público. Diferentes frentes da investigação apuram, por exemplo, a razão do recebimento de R$ 1,5 milhão por depósitos em dinheiro nas contas de Julio Casares e de 35 saques nas contas do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões. Há a suspeita, inclusive, que parte desse dinheiro possa ser oriundo da venda e contratação de jogadores.

A última diligência realizada pela Polícia Civil, na manhã desta quarta, ainda achou R$ 28 mil em espécie na casa de Mara Casares.

São essas supostas irregularidades financeiras e denúncias de corrupção envolvendo as contas bancárias do São Paulo, de Casares e de aliados muito próximos que minaram o apoio político e da torcida, fundamentais para o fim da gestão. Mas a renúncia não significa que acabaram os problemas do Tricolor.

Torcida do São Paulo comemorou o afastamento de Casares no Morumbis (Foto: Imago)
Torcida do São Paulo comemorou o afastamento de Casares no Morumbis (Foto: Imago)

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Os desafios do São Paulo

Eles começam justamente na parte política. A renúncia de Casares é um passo importante para desintoxicar a gestão são-paulina, mas ele está longe de ser o único responsabilizado pelo frágil momento do Tricolor.

Olten Ayres de Abreu Júnior, por exemplo, segue na prestigiada posição de presidente do Conselho Deliberativo. Com esse cargo, Olten Ayres tentou aumentar o mínimo de votos necessário para aprovar o impeachment do ex-presidente e mudar a data de votação, em claro sinal de apoio a Casares.

Mara Casares, embora afastada do Conselho, ainda consta como diretora feminina, cultural e de eventos, bem como Douglas Scwartzmann, ao menos no papel, segue responsável pelo valorizado Centro de Formação de Atletas de Cotia. Não é uma novidade, inclusive, que Schwartzmann esteja envolvido num impeachment de presidente no São Paulo.

O conselheiro ocupou os cargos de vice-presidente de marketing e comunicação e secretário-geral durante o mandato de Carlos Miguel Aidar. Ele esteve no centro das denúncias de lavagem de dinheiro de recursos que teriam sido desviados do São Paulo em 2015, com envolvimento da então namorada de Aidar, que também terminou na abertura do processo de impeachment e renúncia de Aidar. Coincidência?

Schwartzmann, naquela época, foi acusado de se passar por um empresário estadunidense que teria pedido comissões à Under Armour, que fechou acordo para ser a fornecedora de uniformes do São Paulo no mesmo ano de 2015 por meio de… Julio Casares. Ele também foi indiciado por desviar dinheiro, ao lado da namorada de Aidar, na transferência do jogador Iago Maidana. Muita coincidência?

Portanto, o dirigente é a prova de que o processo político do Tricolor está contaminado, a ponto de um réu numa denúncia de corrupção conseguir voltar a uma posição de prestígio interno no clube 10 anos depois para, de novo, se tornar investigado por outra denúncia de corrupção.

Harry Massis Junior tem a missão como presidente de não só guiar um processo democrático sem a interferência de quem prejudicou o clube, como também fazer o máximo para garantir que estes não voltem à cena. Abre-se, por exemplo, a oportunidade de separação entre social e futebol, e a profissionalização deste departamento — uma medida que provou-se como única salvação de clubes brasileiros que enfrentaram cenários recentes parecidos de corrupção nos bastidores e finanças catastróficas.

Harry Massis Junior (à direita), novo presidente do São Paulo, conversa com Baby, líder da Torcida Tricolor Independente (Foto: Imago)
Harry Massis Junior (à direita), novo presidente do São Paulo, conversa com Baby, líder da Torcida Tricolor Independente (Foto: Imago)

E o futebol…

Claro, os desafios refletem dentro de campo. Algumas medidas que envolvem o departamento profissional de futebol já foram tomadas. Marcio Carlomagno, braço-direito de Casares e nomeado CEO do clube, já foi dispensado pelo novo presidente.

Carlomagno ocupou a posição de Carlos Belmonte, que deixou o cargo de diretor de futebol por desavenças com Casares antes da crise, e era a principal aposta do ex-presidente como candidato para as eleições do fim do ano.

Sem Belmonte nem Carlomagno, e com Muricy Ramalho afastado por questões médicas, Rui Costa tem sido o único nome para tocar as negociações durante a importante janela de transferências. O diretor, no entanto, tampouco está garantido por Massis. Mas se tirá-lo, quem vai negociar pelo Tricolor?

Não que essa mudança atrapalhe mais do que a falta de dinheiro. Com o caixa vazio, o São Paulo só tem conseguido se reforçar com jogadores em fim de contrato ou por empréstimo. Foi assim que contratou Danielzinho, Carlos Coronel e Dória. Ainda aguarda pelas chegadas de Lucas Ramon em abril e negocia os empréstimos de Allan, do Flamengo, e Julián Fernández, do New York City. O principal reforço para a temporada, no entanto, precisa ser a reestruturação financeira.

Por fim, o São Paulo possui uma comissão técnica liderada por Hernán Crespo que parece absolutamente consciente do momento do time, jogadores experientes, vencedores e identificados e uma base valiosa em Cotia. São pontos de partida para um projeto esportivo que, se blindado das crises políticas, pode fazer uma temporada aceitável e clarear o horizonte são-paulino. A ver se os responsáveis vão ter a competência e a honestidade para tal.

Foto de Diogo Magri

Diogo MagriSubcoordenador de conteúdo

Jornalista nascido em Campinas, morador de São Paulo e formado pela ECA-USP. Subcoordenador da Trivela desde 2024. Cobri Copa América, Copa do Mundo e Olimpíadas no EL PAÍS, eleições nacionais na Revista Veja, fui editor de conteúdo nas redes sociais do Futebol Globo CBN e também estive na coordenação da PL Brasil.

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