Crise no São Paulo: Como novo Fair Play financeiro da CBF tenta evitar novas irregularidades
Após denúncias e investigação da Polícia Civil, votação de impeachment do presidente Julio Casares será nesta sexta-feira (16)
O São Paulo se vê em meio àquela que é a maior crise institucional da sua história, com votação do impeachment do presidente Julio Casares prevista para esta sexta-feira (16) no Conselho Deliberativo, por conta de supostos desvios de dinheiro do clube e gestão temerária (entenda mais sobre o caso abaixo).
A situação do Tricolor, inclusive, virou caso de polícia. Todas estas supostas irregularidades que são investigadas pela Polícia Civil poderiam ser evitadas — ou ao menos dificultadas — com uma das novas determinações do Fair Play financeiro instituído pela CBF a partir de 1º de janeiro de 2026.
Nova regra do Fair Play amplia fiscalização contra irregularidades
O Regulamento do Fair Play Financeiro da CBF tem um artigo específico para práticas de governança e integridade que recomenda a adoção de um Programa de Integridade e Conformidade (Compliance) independente para servir como canal de denúncias e controles internos, de acordo com o código de ética e conduta do clube.
O termo “independente” neste contexto é fundamental para que as auditorias ocorram sem influência de dirigentes e executivos da própria estrutura do clube. Apesar de não exigir que as instituições tenham um setor de compliance independente, a adoção deste instrumento de fiscalização é “recomendada” e levada em conta pela agência reguladora na hora de definir punições.
— A partir do momento em que você cumpre esta sugestão, isso em caso de infrações ao Fair Play, isso conta pontos para amenizar punições ou até mesmo evitar sanções da agência regulamentadora. A partir do momento em que você tem esse programa de integridade dentro desses termos, veja que tem uma série de requisitos, como a independência do Compliance Officer. Se o programa for efetivo, isso demonstra a boa-fé do clube e pode amenizar e até mesmo evitar as sanções da agência reguladora — explica o advogado Gustavo Nadalin.
Artigo 4 do Regulamento do Fair Play Financeiro da CBF
“Com vistas a fortalecer a governança, a integridade e a prevenção de riscos no ambiente de controle interno do clube, abrangendo os pilares de processos, pessoas e tecnologia, recomenda-se as seguintes medidas:
I. A estruturação e implementação de um Programa de Integridade e Conformidade (Compliance) formal, abrangendo, no mínimo, código de ética e conduta, controles internos e canal de denúncias, como pilar de suporte à correta elaboração das demonstrações financeiras/
II. A designação de um(a) Compliance Officer, responsável técnico (a) pelas funções de integridade e conformidade, dotado(a) de autonomia, independência e mecanismos técnicos de proteção contra retaliações que apoie a alta direção no cumprimento de suas obrigações regulatórias, especialmente no que tange às normas deste Regulamento.
Parágrafo único: a ausência de um sistema robusto de governança e integridade, conforme os pilares definidos neste artigo, poderá ser considerada como fator agravante na dosimetria e na aplicação de sanções, em caso de violação ou comprovada fraude às normas deste regulamento.

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Polícia Civil investiga possíveis desvios de dinheiro
A Polícia Civil investiga uma série de supostos desvios de dinheiro e irregularidades de Julio Casares e outros dirigentes do São Paulo. O inquérito policial instaurado pelo delegado Tiago Fernando Correia indica que houve movimentações atípicas nas contas do presidente, conforme relatórios do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) publicados inicialmente pelo portal “Uol”.
A investigação analisou movimentações nas contas bancárias de Casares durante 29 meses, entre janeiro de 2023 e maio de 2025. O mandatário tem um salário mensal de R$ 27.505,32 no clube. O que significa que ele recebeu R$ 617.506,90 neste período. Mas as movimentações d sua conta chegam à casa dos R$ 3.197.499,41 — média de aproximadamente R$ 110 mil por mês.
Deste montante, cerca de R$ 1,5 milhão tiveram origem em depósitos em espécie, o que corresponde a 47% do dinheiro que entrou na conta do presidente sem deixar rastros eletrônicos. Foi justamente por conta destas movimentações atípicas que o alerta de Compliance do Banco Bradesco notificou o Coaf.
A defesa de Casares alega que o presidente exerceu funções de alta remuneração na iniciativa privada antes de assumir o clube e que estes valores são referentes a estas atividades. Além disso, os advogados garantiram que a origem do dinheiro seria explicada durante as investigações.
Além disso, a Polícia Civil também investiga o ex-diretor de futebol adjunto do São Paulo Nelson Marques Ferreira pela abertura de 15 empresas durante o período em que ocupou o cargo, entre o início de 2021 e novembro de 2025.
A investigação tenta apurar se há ligação entre a criação dessas empresas e possíveis desvios de dinheiro das contas bancárias do São Paulo. De acordo com reportagem do “Fantástico” publicada no “ge”, a Polícia Civil foi alertada sobre um suposto esquema no clube por uma denúncia enviada pelos Correios.

Votação de impeachment de Casares será nesta sexta-feira
Em meio à investigação policial e sob forte pressão da torcida e também política, Julio Casares pode ser o primeiro presidente da história do São Paulo a sofrer um impeachment. A votação de um possível afastamento do mandatário no Conselho Deliberativo está marcada para esta sexta-feira (16).
Casares tentou na Justiça que a sessão do Conselho que deliberará sobre o seu impeachment levasse em conta apenas os votos presenciais. Mas uma liminar decidiu que o processo será feito de forma híbrida e com votos secretos, válidos tanto presencialmente quanto pela internet.
Ao todo, 254 conselheiros votarão no pleito. São necessários 171 votos favoráveis ao impeachment para que Casares seja afastado do cargo temporariamente. O passo seguinte no processo de afastamento é a votação com os sócios, a ser realizada em até 30 dias.



