Brasil

Vida frenética e cuidado ‘paternal’: Como funciona uma empresa de agenciamento de jogadores

Duas das maiores empresas de agenciamento no mundo receberam a Trivela e mostram bastidores de suas operações no mercado

Janeiro é um mês repleto de significados. Pode ser sinônimo de renovação, motivação, coragem e reflexão. Para quem vive no meio do mercado de transferências do futebol, no entanto, é época de muito trabalho, viagens e uma sensação de quase frenesi.

Nos últimos meses, a Trivela visitou as sedes brasileiras de duas das maiores empresas de agenciamento do futebol mundial: Roc Nation Sports e P&P Sport Management. E grandes nomes no mercado da bola, que cuidam da carreira de jogadores como Vinícius Júnior, Endrick, Lucas Paquetá e Vitor Reis, contaram os bastidores de como funcionam os processos dentro e fora da janela de transferências.

Do cuidado quase paternal com jovens jogadores a pessoas com funções de “assistente pessoal” e departamentos inteiros dedicados a imagem e análise de desempenho, a reportagem teve portas abertas para contar como o agenciamento de atletas de alto nível vai muito além de um empresário.

Agenciar um jogador: grandiosidade, luxo e muito trabalho

É fácil imaginar a vida de empresários de atletas como algo luxuoso. Ir até as regiões mais nobres de São Paulo para conhecer as sedes dessas empresas de grande magnitude também contribuiu para o estereótipo.

Essa imagem inicial, porém, é apenas a ponta do iceberg. Um dos primeiros pontos a serem frisados por Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management no Brasil, rechaça a ideia de que esse trabalho é regado de esplendor: o foco é cuidar do jogador praticamente o dia inteiro, todos os dias — muito além do momento da transferência.

“O mais importante são as outras 22h do dia do atleta, em que ele está fora do campo”, afirma o empresário.

Revistas de Endrick em sala de reunião da Roc Nation
Revistas de Endrick em sala de reunião da Roc Nation (Foto: Guilherme Ramos)

Grandes empresas de agenciamento são compostas por diferentes departamentos. Com eles, conseguem ter o escopo total do jogador: como atleta e como pessoa física. Uma agência desse porte, tem, por exemplo:

  • Departamento de análise individual, que acompanha todos os jogos dos seus clientes e monta relatórios para serem apresentados a eles;
  • A análise de mercado, que conta com analistas próprios para mapear novas oportunidades de prospecção para a empresa e que tipos de jogadores clubes pelo mundo estão precisando — e essa informação é crucial pra empresa direcionar as transferências de seus clientes;
  • Departamentos “clássicos”, como o jurídico, de comunicação e comercial.

O trabalho, então, vai além do campo e não para quando a transferência é concluída. Depois de receber a Trivela em sua sala, Claudio revela que chegou até a dar conselhos de investimento e ajudar um jogador de um grande clube brasileiro a tirar passaporte americano. O cuidado do empresário de alto nível em muitos casos alcança níveis de amizade verdadeira.

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Quem são os empresários das grandes estrelas de futebol

A própria imagem do empresário é distorcida. No caso da P&P, Claudio é o agente principal de Vitor Reis, por exemplo. Foi quem manteve contato com Manchester City e negociou com Leila Pereira para a transferência do jovem do Palmeiras à Inglaterra. Mas não é o único.

O setor comercial é composto por outros gestores que também cuidam da carreira dos atletas. Na Roc Nation, que tem braços no agenciamento de gigantes em outros esportes, como basquete e futebol americano, há um cargo próprio para ajudar o empresário “principal” de cada jogador. O “player service”, como explica Thiago Freitas, COO da empresa no Brasil:

“Tem o agente e o player service, que não necessariamente é um agente, mas pode ser. Muitas vezes é um ‘assistente’ que vai acompanhar todas as demandas do atleta, mas não obrigatoriamente se envolve em negociações”.

P&P exibe uma apresentação com alguns de seus grandes negócios pelo mundo
P&P exibe uma apresentação com alguns de seus grandes negócios pelo mundo (Foto: Guilherme Ramos)

O player service é um funcionário da Roc Nation que não vai negociar contratos, mas é quem, por exemplo:

  • Ajuda o jogador a encontrar uma nova casa quando muda de cidade ou país;
  • Ajuda na adaptação do atleta em termos de serviços, onde fazer compras básicas e lazer;
  • Pode ser um primeiro contato da empresa com o clube atual do atleta para tratar de quaisquer questões.

Esse funcionário, inclusive, pode demonstrar o desejo de se tornar um agente principal no futuro. Thiago indica que há perspectiva de crescimento na empresa para que ele trilhe esse caminho — e, no futuro, tenha a sua própria carteira de clientes.

Com clientes graúdos em diferentes centros, a Roc Nation divide seus jogadores entre grandes empresários dentro da empresa — e Thiago é um deles. Mas quem negocia as transferências de Endrick, por exemplo, não se envolve diretamente com as de Vinicius Junior, que recebe atenção de outro agente, apesar da clara comunicação entre todos na companhia.

O departamento comercial geralmente é composto por profissionais de gestão e administração. Mas, segundo o CEO da P&P, mais do que a formação, o crucial para o trabalho é o tato com o jogador e o entendimento de futebol.

Os cuidados com o jogador: dieta, sono e redes sociais

Se os astros do futebol mundial têm aparecido cada vez mais cedo, isso significa que o trabalho dos empresários também se torna mais longevo. Agora, é comum que esses profissionais comecem a acompanhar um jogador ainda nas fases iniciais da adolescência. E a “construção” do jogador começa já neste momento.

À Trivela, foi revelado que a captação dos jogadores para as grandes empresas ocorre majoritariamente entre os 13 e 14 anos, quando os jogadores estão no pico da curva em relação a estarem abertos a amadurecerem como jogadores profissionais.

“Nós já sabemos com 13 anos quando um garoto vai se tornar profissional. O diferencial é na cabeça. O Vitor, com 16 anos, já não precisava ser cobrado das coisas, ele fazia naturalmente”, conta o CEO da P&P.

No início das operações da Roc Nation no Brasil, 65% dos clientes da empresa eram jovens que sequer haviam estreado no profissional. Agora, esse número caiu para 35% e, segundo Thiago, a ideia é que no futuro eles representem apenas 25%. Isso simboliza uma mudança de foco, mas também o crescimento dos próprios clientes dentro da companhia.

Durante a visita à P&P, Claudio fez questão de mostrar à reportagem as camisas autografadas de Vitor Reis, o exemplo de maior sucesso recente da empresa. Com carinho e orgulho nas palavras, o CEO conta como o zagueiro foi “moldado desde os 14 anos”.

E o jovem é um modelo de como funciona o trabalho da agência: ele entendeu a importância de ter boa alimentação, qualidade no sono, saber escolher seus lazeres e ter uma mentalidade de atleta profissional desde cedo.

“Hoje, o Vitor não decide nada na vida dele. A gente fala o que tem de lazer perto da casa dele e o que ele pode aproveitar no tempo livre. Tem o nutricionista que fala o que ele vai comer, o personal que fala o que ele vai treinar na academia, tudo. E na casa dele, quem manda é a esposa”, brinca o empresário.

No escritório, há uma ilha de computadores dedicados à equipe de comunicação — que, inclusive, faz toda a agenda de publicações dos atletas nas redes sociais: escolhe qual a foto, tamanho, arte, legenda, quando sai foto da família, quando a foto é de treino ou de jogo e melhores momentos. Se há incômodo por supostamente não ter liberdade? “É o preço de ser um atleta de alto nível”.

“Mas geralmente eles criam isso desde tão cedo, que os jogadores levam essa vida há muitos anos. É normal, estranho seria se não fosse assim”, diz Claudio.

Desde cedo a empresa gere tudo: alimentação, preparação física, sono, passa-tempo, moradia, equipamento esportivo e celular. Ainda no exemplo de Vitor Reis, durante a transferência ao City, uma equipe da P&P o acompanhou, ficou 10 dias em Manchester pra resolver sua moradia, uma casa para o seu personal trainer e só então voltaram ao Brasil.

Os gestores conversam com os jogadores com muita frequência, mas, nos casos mais consolidados, ja não é mais necessária a cobrança sobre sono, alimentação, preparação física e disciplina, porque isso já está internalizado. 

Como é um dia comum em uma empresa de agenciamento no futebol?

Seria óbvio pensar que a rotina dessas empresas é frenética durante os meses com a janela de transferências aberta, mas morna quando os negócios não estão sendo fechados. Mas seria igualmente errôneo ter essa visão.

Uma das visitas da Trivela ocorreu em outubro, em um período de conclusão dos campeonatos no Brasil e ainda na etapa inicial da temporada europeia, apesar de perto da janela de janeiro. Ainda assim, as salas de reunião seguiam cheias, celulares colados no ouvido e os analistas, focados — e, apesar da recepção calorosa, preferiam que não houvesse câmeras perto dos seus computadores, para manter a privacidade sobre as análises.

Em um dia comum, com a janela aberta ou fechada, os analistas estarão vendo muitos jogos, cortando vídeos e montando material para mostrar para atletas (na análise individual) e para equipe comercial.

Camisas de Lucas Silva e Vitor Reis, clientes da P&P
Camisas de Lucas Silva e Vitor Reis, clientes da P&P (Foto: Guilherme Ramos)

E algo que torcedores podem não perceber: o pessoal do comercial já fala de negociações muito tempo antes da janela. “Já estão sendo trabalhadas ao menos meia dúzia de operações para a janela de janeiro”, diz um dos representantes — ou seja, conversa com clubes interessados e negociações iniciais.

“A rotina não muda tanto com a janela aberta. A diferença é que em janeiro eu vou almoçar com os clubes para fechar o negócio, mas a maior parte dele já vinha sendo debatida antes”, diz Claudio Fiorito.

Thiago explica à reportagem que a Roc Nation conta com quatro principais pilares na sua filosofia: identificação, prospecção, acompanhamento e negociação. E essas etapas ocorrem todos os dias. Isso implica que tanto as conversas com clubes quanto a observação de novos talentos segue a todo vapor o ano inteiro.

Nesse período de janela fechada, há extensa análise e acompanhamento dos jogadores com dados, desempenho e vídeos. O COO da Roc Nation explica que, trimestralmente, a empresa cria relatórios dos próprios clientes para ver quem está em alta e quem está em baixa.

“Durante a janela, a grande maioria dos agentes fica na Europa tratando de operações dos jogadores e criando relações com clubes. Visitam clubes parceiros, oferecem jogadores, visitam dirigentes, jogadores etc”, conta Thiago Freitas.

No fim, o mundo dos agentes de futebol é repleto de bastidores com informações quase intocáveis, rotinas constantemente mutáveis, decisões difíceis a serem tomadas e pouco tempo. E a grande parte desse trabalho não é vista, mas culmina nas maiores transferências da história — e nos debates infindáveis de torcedores ao redor do mundo.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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