Vice da CBF analisa fair play financeiro no Brasil e compara cenário a Titanic
Ricardo Gluck Paul projeta implementação em 2026 diante de alto endividamento de clubes brasileiros
A criação de um fair play financeiro está no plano de metas da administração do presidente Samir Xaud na CBF, mas não é novidade na agenda da federação. Em 2019, ainda sob a gestão de Rogério Caboclo, então no cargo, houve a tentativa de implementar esse conjunto de regras no País, porém, o projeto não avançou. “Engavetar” o modelo não é uma opção agora, explica Ricardo Gluck Paul, vice-presidente da CBF, à Trivela.
Para avaliar a gravidade da situação, o executivo recorre a uma analogia com o Titanic, famoso transatlântico britânico que afundou em 1912 após bater em um grande iceberg.
— Não temos escolha. Ou tocamos música e assistimos o navio afundar de vez ou resolvemos nos estruturar para jogar botes salva-vidas e conseguir salvar a nós e aos outros que estiverem dispostos a isso.
Paul era presidente do Paysandu em 2019 e não sabe dizer os motivos para o recuo na iniciativa diante de contexto conveniente à aplicação no cenário global. A ideia de impor normas mais definidas em relação à sustentabilidade financeira de clubes de futebol começou ainda nos anos 2000, quando a Uefa passou a estudar o tema.
O sistema da entidade europeia foi aprovado em 2010, e conversas para evitar endividamento dos times ganharam espaço no mundo inteiro nos anos seguintes.
“Em 2019, estávamos enxergando o iceberg, ou seja, existia naquela época já uma visão de futuro de que, do jeito como as coisas estavam indo, estávamos caminhando para tempos sombrios. Nós víamos o mundo implementando ações importantes para evitar esse caos, e não foi implementado no Brasil”, afirma Paul.
— Naquela época, poderíamos ter desviado do iceberg. Qual a diferença para 2025? Nós chocamos com o iceberg. O cenário que temos hoje, sobretudo dos últimos quatro anos, é cenário de extremo endividamento dos clubes e mercado extremamente inflacionado. É um cenário terrível, que representa bem o choque do navio com o iceberg — analisa ele.
O endividamento dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro em 31 de dezembro de 2019 era de R$ 5,7 bilhões, segundo a pesquisa “Valor das Marcas”, da BDO. Já o “Relatório Convocados”, estudo da Galápagos Capital e da Outfield, apontou que esse dado passou de R$ 14 bilhões entre times da elite brasileira no ano de 2024. Apesar dos relatórios serem de fontes diferentes, seria um alarmente aumento porcentual de 145%.
Clubes brasileiros se mostram favoráveis ao fair play financeiro
O número ajuda a explicar a adesão à ideia por parte dos times brasileiros. O vice-presidente diz que há “consenso” e que, dos 40 clubes possíveis, 33 se interessaram em participar do debate.
— Há o entendimento unânime de que se trata da pauta mais importante no momento do futebol brasileiro — diz Paul.
O projeto — cujam ideias e formato ainda não foram apresentados publicamente — deve ser lançado em agosto. Em seguida, passa a valer o prazo de 90 dias para o Grupo de Trabalho (GT) entregar o modelo à presidência da CBF. Assim que o plano chegar na mesa de Xaud, a entidade começa a discutir a implementação.
“É um processo a ser maturado, mas naturalmente se entende que será já a partir de 2026, de uma forma extremamente responsável. Ou seja, prevendo ondas de implementação dentro de uma estrutura que não cause colapso no futebol”, explica o gestor.

O objetivo é traçar um fair play financeiro dentro da realidade das equipes brasileiras, com as características do País, mas inspirado em erros e acertos de medidas aplicadas em ligas internacionais.
Premier League e LaLiga são alguns campeonatos com regras de lucro e sustentabilidade bem definidas e que preveem punição em caso de infração, como os casos de Manchester City e Barcelona, respectivamente.
Outro exemplo é o futebol francês. A Ligue 1, por meio da Direção Nacional de Controle e Gestão (DNCG) da Liga de Futebol Profissional da França (LPF), penalizou o Lyon por inadequação ao fair play financeiro em junho deste ano e decretou rebaixamento administrativo da equipe à segunda divisão.
O dono da SAF do Botafogo, John Textor, era o presidente do clube francês na ocasião. Ele é considerado o responsável pela delicada situação do Lyon. Michele Kang, magnata que o sucedeu no cargo, ajudou a revogar a decisão e manter o time na elite.
O cenário na Europa é bem diferente do Brasil. O Botafogo na gestão do norte-americano abriu os cofres para se reforçar com nomes como Thiago Almada, Jair, Artur, Savarino, Gregore, Luiz Henrique, Jhon, Cuiabano, Savarino e, mais recentemente, Danilo.
Textor mostrou felicidade em poder contratar “sem algemas” no Glorioso. “Buscando troféus, recrutando sem algemas. Que prazer comandar um clube sem agendas políticas envolvidas”, escreveu ele no Instagram.

É evidente que, ao contrário do que ocorre na França, John Textor não tem as mesmas preocupações em atender aos critérios de sustentabilidade financeira no Brasil. Ao menos ainda não.
O mercado de transferências é um dos campos afetados com o fair play financeiro no País, reconhece Ricardo Gluck Paul. “É um elemento integrante do sistema de sustentabilidade”, declara ele.
Tudo isso, porém, depende da efetivação. Paul garante que o objetivo da administração é garantir que o projeto saia do papel.
— Dessa vez, será implementado. Existe uma vontade muito genuína da nossa presidência. Samir Xaud tem se empenhado pessoalmente e cobrado. Se comprometeu com a pauta publicamente, então, existe vontade muito grande, tanto da CBF quanto dos clubes, de implementar. Repito: não temos mais opção. O navio chocou, e tocar música para assistir o navio afundar não é opção para a gente — reforça o vice-presidente



