Não é só no Brasil: As exigências e polêmicas que marcam a carreira de Sampaoli
Treinador de 65 anos é conhecido pelos pedidos de reforços e reclamações com a diretoria dos clubes no qual trabalha
Jorge Sampaoli é constantemente alvo de clubes brasileiros. Recentemente, o treinador, mais uma vez, entrou na mira do Santos para substituir Cleber Xavier, e chegou a ter conversas avançadas conversar com o Peixe.
O negócio acabou não concretizado, uma vez que a equipe da Baixada Santista optou por contratar Juan Pablo Vojvoda.
Um dos motivos da desistência do Peixe pelo treinador foi o alto número de exigências. Segundo apurou a Trivela, o Santos atendeu às exigências salariais do treinador, aceitou uma longa comissão técnica, com todos os profissionais indicados pelo argentino, e iniciou conversas com alguns atletas, também a pedido do técnico.
No entanto, a situação envolvendo possíveis reforços começou a irritar a diretoria. De acordo com o apurado, quando o Santos sinalizava positivamente para a negociação, o treinador mudava de ideia e indicava outro atleta para a mesma função.
Outro ponto teria sido a falta de interesse nos Meninos da Vila. O argentino teria deixado claro que não via os jovens, inclusive os que já haviam sido promovidos ao profissional, prontos para serem utilizados no atual momento da equipe, gerando frustração nos dirigentes santistas.
A atitude de Sampaoli não é novidade. Por onde passou, o treinador ficou marcado pelo alto número de exigências e polêmicas envolvendo atletas e diretoria. Na França, país em que trabalhou no Olympique de Marseille e Rennes, o técnico deixou uma má visão independente do trabalho apresentado dentro de campo.
No clube francês, o treinador teve um dos tantos pedidos acatados: o volante Gérson. Com o brasileiro no plantel, foi vice-campeão francês na temporada seguinte. Mas logo depois deixou o clube, e como de costume, reclamando da falta de reforços da equipe.
— Todos lembramos do seu trabalho no Marselha, que foi um sucesso esportivo. Ele assumiu um clube em crise e o classificou para a Liga Europa e, na temporada seguinte e para a Liga dos Campeões. Sem falar na alta qualidade de jogo. Mas ninguém esqueceu que ele bateu a porta no pior momento possível: no início de julho, dois dias após a retomada dos treinos. Ele tinha exigências demais em termos de contratações e sabia que a diretoria não conseguiria atendê-las — afirmou o jornalista Romain Lantheaume, coordenador do site francês “Top Mercato“.

Polêmicas e desentendimento com jogadores marcam Sampaoli
Sampaoli é um velho conhecido da torcida brasileira. Com passagens pelo Atlético-MG, Flamengo e pelo próprio Santos, o treinador consegue extrair um bom futebol de seus atletas. No entanto, as questões extracampo acabaram pesando para sua demissão em praticamente todos os clubes que defendeu.
Nos últimos anos, o treinador colecionou polêmicas, desentendimento com jogadores e até episódios de agressão envolvendo atletas e membros de sua comissão técnica.
No Rubro-Negro, em que esteve no comando em 2023, o argentino ficou marcado pelo distanciamento entre ele e os jogadores, algo que ficou agravado pelo soco do preparador físico Pablo Fernández em Pedro após a vitória sobre o Atlético-MG pelo Brasileirão. Dias depois do episódio, Gérson e Varela também trocaram socos em um treino da equipe.
Já no Atlético-MG, Sampaoli esteve no comando entre 2020 e 2021, e novamente polêmicas envolveram a sua passagem. Como de costume, o treinador fez grandes exigências, teria se distanciado dos atletas e também recomendado rescisão imediata de jogadores do elenco.
— Logo de início, mostrou seu perfil exigindo gratificações especiais, em total desarmonia com as gratificações dos jogadores, além de se isolar num grupo de “empregados” seus (sua equipe) e participar com sua turma das indicações e do processo de contratações. Chegou a exigir (e conseguir) a demissão de um antigo roupeiro da equipe profissional, com a justificativa que “falava muito alto”. Trata-se de um roupeiro antigo, e muito querido no profissional e que conviveu com gerações de jogadores espetaculares que passaram pelo Galo — contou o ex-dirigente do clube mineiro, Lásaro Cândido da Cunha, em um artigo publicado no X (ex-Twitter), após a demissão do argentino.
— Em relação à utilização dos jogadores da equipe, desprezou atletas que estavam no elenco, recomendando imediata rescisão, empréstimo, mas que posteriormente alguns desses jogadores passaram à titularidade da própria equipe por ele montada. Além disso, exigiu a contratação de determinados jogadores para depois dizer que não os queria no grupo, sem contar aqueles contratados por imposição do técnico e raramente utilizados na equipe — seguiu.
Até mesmo no Santos, clube que esteve interessado em Sampaoli recentemente, o treinador gerou mal-estar em sua primeira passagem em 2019. O argentino assumiu o Peixe como 10º colocado do Brasileirão, já sem Gabigol, transferido do Flamengo, e outros atletas importantes, e com pouco dinheiro, gerando um grande atrito.
O treinador teria reclamado da falta de reforços, de promessas não cumpridas, e alegou não saber da crise financeira vivida pelo Peixe. Inclusive, mesmo com pouco dinheiro no caixa, o Santos se virou para atender os pedidos do técnico e contratou 14 reforços, gastando cerca de R$ 80 milhões. Dentre os contratados, estavam Soteldo, vindo do Huachipato, do Chile, o goleiro Everson, e Cueva, que na época estava no Krasnodar, da Rússia.

Tantos pedidos, afetaram a relação do treinador com o presidente do Santos na época, José Carlos Pérez. As reclamações por falta de reforços foram apenas a ponta do iceberg, com o argentino também lamentando falta de planejamento e demora na renovação de contrato de jovens talentos.
Com tantos conflitos, Sampaoli pediu demissão do Santos após o fim do Campeonato Brasileiro 2019, em que foi vice, apesar de ter mais um ano de contrato pela frente.
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Questões vão além do Brasil
Além do Marseille e outros clubes brasileiros já citados, Sampaoli também deixou a impressão de ser um técnico bastante exigente, no que diz respeito a contratações, e polêmico em outros clubes que treinou.
Apesar a má impressão que deixou em Marselha, o Rennes optou por contratar o técnico no fim de 2024. Mas a passagem do treinador foi uma decepção, durando apenas 80 dias.
— Sua passagem na Bretanha foi um fiasco total (sete derrotas em dez jogos), terminando em uma rescisão amigável. No aspecto esportivo, ele não conseguiu mudar o rumo da equipe. E a janela de transferências de inverno foi a gota d’água. Ele exigiu dois zagueiros que demoraram a chegar, enquanto a diretoria contratou um goleiro (Brice Samba), quando ele queria terminar a temporada com Steve Mandanda — explicou Romain Lantheaume.
— Depois dessas experiências, duvido que algum clube da Ligue 1 esteja disposto a tentar Sampaoli novamente. E isso apesar de sua impressionante reputação em termos de estilo de jogo. Seu temperamento explosivo e suas exigências elevadas em contratações são falhas significativas — completou.

No Sevilla, clube que teve duas passagens entre 2016/2017 e 2022/2023, as questões vividas foram as mesmas já citadas, seguindo o mesmo padrão: muitas exigências, conflitos com atletas, afastamento do elenco e demissão, embora tenha um bom retrospecto dentro de campo. No entanto, em sua segunda passagem, os resultados não agradaram.
E engana-se quem pensa que apenas clubes tiveram problemas com o treinador. Seleções comandadas por Sampaoli também não passaram ilesas. Tanto Chile (2012 a 2016) quanto Argentina (2017 a 2018) também foram marcadas por polêmicas.
Embora o treinador não pudesse exigir contratações nas seleções, houve episódios de discussão e descontentamento. Na La Roja, mesmo com classificações para a Copa do Mundo, títulos e um aproveitamento de quase 70%, o treinador pediu demissão após quatro anos de trabalho, depois de um desgaste causado pela divulgação de seu salário por parte do presidente interino da Federação Chilena.
Já na Albiceleste, a situação foi ainda mais complicada. Sampaoli teve brigas públicas com Messi e Di Maria, além de fazer uma campanha pífia com a Argentina na Copa do Mundo de 2018, sendo eliminado nas oitavas de final para a França por 4 a 3.
— Em uma conversa eu perguntei o que aconteceu na Copa do Mundo de 2018. O auxiliar me disse: ‘Ele brigou com o nosso melhor jogador, e por isso perdemos’. O Sampaoli também me disse: ‘Briguei com o Messi’ (risos). Ele tinha uma personalidade muito forte. Às vezes, ele perdia um pouco o grupo por aquela loucura dele de ser tão exigente — contou Marcio Zanardi em entrevista a “ESPN”. Na época, ele trabalhou como auxiliar de Sampaoli no Santos e hoje é treinador do Amazonas.
Outro ponto dessa passagem pela Argentina, foi a cena emblemática de Javier Mascherano, durante a Copa do Mundo da Rússia, conversando com o treinador enquanto segurava uma prancheta. Na época, a imprensa argentina noticiou que, em crise, eram os jogadores quem escalavam a equipe para os jogos do Mundial.



