Ligue 1

Por divergências sobre contratações, Sampaoli deixa o Olympique logo no início da pré-temporada

Sampaoli e Olympique de Marseille decidiram encerrar o trabalho neste momento, diante dos entraves sobre os investimentos do clube para a Champions

De maneira abrupta, mas não exatamente surpreendente por seu histórico, Jorge Sampaoli deixa o Olympique de Marseille. Nesta sexta-feira, o clube publicou um comunicado anunciando que, “em decisão conjunta”, as partes optaram por encerrar o trabalho. O argentino estava à frente dos marselheses desde fevereiro de 2021 e, em sua primeira temporada completa, teve bons resultados ao classificar o clube de volta à Champions League, assim como ao chegar às semifinais da Conference League. A decisão acontece apenas dois dias depois do início da pré-temporada, e expõe rusgas sobre a política de transferências dos celestes.

“Desde o seu primeiro dia em Marselha, Sampaoli investiu plenamente no estabelecimento de uma filosofia de jogo e de um estado de espírito vencedor, correspondente aos valores do Olympique de Marseille. É, portanto, com emoção que o clube e Jorge Sampaoli anunciam sua decisão em comum acordo de encerrar a colaboração. O OM gostaria de agradecer sinceramente e calorosamente o trabalho de Jorge Sampaoli. Depois de 16 meses, o trabalho permitiu ao clube dar um passo em frente na construção de seu novo projeto e se classificar diretamente para a Champions”, diz o comunicado oficial.

“Estamos satisfeitos com os progressos alcançados e com as emoções vividas em conjunto. Mas, após uma longa reflexão, as duas partes que atuam no interesse do projeto do Olympique de Marseille concordaram em pôr fim a essa etapa. O clube iniciará agora um novo ciclo que será parte da continuidade da política esportiva implantada pelo presidente Pablo Longoria desde a sua chegada”, complementa a nota.

Sampaoli assumiu o Olympique de Marseille num momento conturbado do clube, após André Villas-Boas sair rachado com a diretoria e o time fazer uma péssima campanha na fase de grupos da Champions. O argentino conseguiu dar um fôlego aos marselheses na reta final da Ligue 1 2020/21, mesmo sem classificar a equipe para a Champions. Já começava a conquistar seu espaço, com uma personalidade que parecia se encaixar no Vélodrome, ainda mais sendo um discípulo de Marcelo Bielsa, ex-técnico muito querido pela torcida.

Sampaoli ganhou seus reforços para 2021/22 e o Olympique de Marseille indicou seu amadurecimento dentro de campo. A equipe fez uma campanha consistente na Ligue 1. Não chegou a incomodar tanto o PSG na liderança, mas se manteve durante quase todo o tempo na zona de classificação à Champions e faturou o vice-campeonato, importante pela vaga direta na fase de grupos. A equipe caiu na fase de grupos da Liga Europa, mas a repescagem à Conference ajudou e os marselheses só foram brecados nas semifinais, em duelo aberto contra o Feyenoord. Mesmo com problemas de lesão e jogadores que não entregaram o esperado, havia uma curva de desenvolvimento clara.

Contudo, lidar com Jorge Sampaoli não costuma ser das tarefas mais simples. O treinador costuma bater de frente com seus superiores e a relação nos últimos 16 meses tinha os seus desgastes. A gota d’água, então, veio logo no início da preparação para a próxima temporada. O técnico estava insatisfeito com a atividade da diretoria no mercado de transferências, para variar. No final da última temporada, o argentino deu uma indireta em coletiva, ao dizer que não sabia se ficaria e que o Olympique “precisava saber o motivo pelo qual estaria na Champions”. Em outras palavras, queria uma equipe mais competitiva para o torneio. Não que seus superiores concordassem, pedindo mais paciência até o fim da janela de transferências.

O Olympique de Marseille gastou €45 milhões no atual mercado. Porém, a maior parte dos investimentos foi para manter jogadores que estavam emprestados ao clube – Pau López, Cengiz Ünder, Arkadiusz Milik e Matteo Guéndouzi. A única novidade até o momento é o zagueiro Isaak Touré, promessa de 19 anos que chegou do Le Havre para se desenvolver. Também chega o zagueiro Samuel Gigot, que estava emprestado ao Spartak Moscou. Não são negócios que melhoram as perspectivas rumo à Champions. Especialmente quando nomes centrais como Boubacar Kamara e William Saliba não ficarão. Sampaoli teve uma reunião com o presidente Pablo Longoria e, ao ouvir que os reforços não chegariam tão cedo, preferiu encerrar seu vínculo. Conforme a imprensa francesa, a negociação amigável exime as duas partes de qualquer multa pelo rompimento.

Sampaoli também se manifestou, em seu Instagram, sobre o adeus. Falou sobre a ligação que fica com o Olympique, mas sem negar as divergências: “Assim que cheguei a Marselha, eu me senti em casa, como se tivesse vivido aqui por toda a minha vida. O OM é uma paixão. Todas as vezes que entrei no Vélodrome, meu coração explodia. A última temporada foi incrível. Ser o treinador deste clube foi um prazer para mim. Eu fui muito feliz. Mas meu ritmo e meus objetivos não são os mesmos dos dirigentes. Não há nada de errado em querer coisas diferentes. O mais importante é buscar a excelência e desejar o melhor para o OM”.

Já o presidente Pablo Longoria, em coletiva de imprensa, falou sem ressentimentos: “Há fricções profissionais, não pessoais. Eu li o comunicado, há muitas emoções. É uma questão de timing dentro do projeto. Todo mundo tem as mesmas ambições. Mas é o tempo por alcançá-las que é diferente. A janela de transferências é como presentes de Natal. Todo mundo está esperando seu presente. Não acho que falta ambição, é questão de tempo. Jorge chegou num período complicado, se comportou com honestidade e profissionalismo até o fim”.

Sampaoli encerrou sua passagem pelo Olympique de Marseille com 66 partidas dirigidas e um aproveitamento de 63% dos pontos disputados. Em número de partidas, foi seu trabalho mais longo desde os tempos de Universidad de Chile, embora tenha ficado mais tempo à frente da seleção chilena. De qualquer maneira, o argentino correspondeu às expectativas em sua segunda empreitada europeia, assim como havia feito com o Sevilla. Fica um pouco mais para trás a imagem ruim deixada pela passagem à frente da seleção argentina.

Resta saber quem apostará em Jorge Sampaoli neste momento. Não se nega a qualidade de seu trabalho e a mentalidade que costuma produzir em seus times. Entretanto, o temperamento não permite que o argentino atue em longo prazo e suas exigências no mercado de transferências não são condizentes ao tempo de casa. Além do mais, os exemplos de Santos e Atlético Mineiro mostram que a sequência pode ser melhor que a própria passagem de Sampaoli em si. Se o Olympique de Marseille oferecia um contexto para compreender a escolha do comandante, não são tantos clubes europeus que se inserem nessa realidade. E, aos 62 anos, o técnico também não possui tanto tempo de carreira pela frente.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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