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Entre acertos e erros, dez pontos que (até o turbulento rompimento) marcaram o trabalho de Sampaoli no Santos

Desde os seus primeiros meses no Santos, Jorge Sampaoli transpareceu uma relação intempestiva com a diretoria do clube – e, em especial, com o presidente José Carlos Peres. A queda de braço oscilou ao longo do tempo, mas manteve um equilíbrio necessário para que o argentino pudesse desenvolver o seu trabalho na Vila Belmiro. Mesmo sem títulos, o comandante ofereceu um ano marcante aos santistas. O Peixe deu motivos à sua torcida sonhar, com um futebol de encher os olhos em tantas atuações. Porém, o rompimento criou uma enorme tempestade, o que sequer é inédito na carreira do comandante. Entre aquilo que já saiu na imprensa e o que apenas se especula, cada lado busca sua razão e ambos possuem seus erros.

Este texto não tem intenção de dizer quem está certo na história, Sampaoli ou Peres. Há mágoas nas duas partes e ninguém melhor que o próprio torcedor alvinegro para avaliar seus sentimentos. Óbvio que o técnico gravou seu nome na Vila Belmiro. Resta saber como serão as lembranças, misturadas com tudo o que se vive nestas horas sísmicas na Baixada. Da singela carta de agradecimento assinada pelo treinador às informações de pedidos exorbitantes no mercado, a tinta está muito fresca para dar um veredito sobre o que ocorre.

O que dá para fazer, no entanto, é avaliar o que aconteceu nos últimos meses desde que Sampaoli chegou ao Santos. Não acertou em tudo, mas o saldo da epopeia é positivo. Abaixo, levantamos dez pontos (bons ou não) que marcaram a temporada do treinador à frente do Peixe – dentro ou fora de campo. O intuito é resgatar um pouco do que se vivenciou até o adeus.

Respeito à própria história do Santos

O Santos é um clube que historicamente se consagrou por seu futebol ofensivo e de muitos gols. Não tem como pensar nas grandes campanhas do Peixe e não associá-las com um futebol extremamente técnico, de dribles, de mágicas. Sampaoli resgatou isso. O argentino reproduziu em campo aquilo que os torcedores alvinegros entendem como seu DNA. Faltou ao treinador aproveitar um pouco mais as categorias de base, mas ele também ajudou a lançar a versão mais recente dos “meninos da Vila”: o atacante Tailson. O garoto de 20 anos não seria tão regular, embora acabasse somando algumas boas aparições, decisivo na vitória sobre o Vasco durante o segundo turno. Além do mais, Sampaoli tratou de valorizar a Vila Belmiro. Declarou sua preferência por jogar no alçapão e convocou a torcida para encher as arquibancadas. Com tudo que oferecia, terminou correspondido pelos torcedores.

Jogadores que evoluíram em suas mãos

Ao longo do ano, alguns jogadores do Santos subiram de nível pelo alto rendimento com Jorge Sampaoli. Nem todos mantiveram a regularidade, mas encerram 2019 de maneira positiva, com bem mais visibilidade e consideração junto às arquibancadas. A zaga, talvez, tenha os dois maiores valores neste sentido. Gustavo Henrique já tinha moral e viveu outro bom ano. Lucas Veríssimo, por sua vez, se tornou um nome indispensável e terminou premiado até mesmo com a Bola de Prata. Diego Pituca funcionou bem no esquema do time, um dos mais frequentes durante o Brasileirão. Jean Mota esteve bem melhor durante o primeiro semestre, mas merece a menção. Vale destacar ainda Jorge, que não emplacou na Europa e recuperou o bom futebol na Vila, também eleito o melhor da Série A pela ESPN.

Alto nível de Carlos Sánchez e Soteldo

Se alguns jogadores cresceram com Sampaoli, outros passaram a pleitear o status de ídolos. E o desempenho ao longo do ano serviu para que Soteldo e Carlos Sánchez garantissem ao menos um lugar na memória dos santistas. O baixinho registrou um sucesso inédito de um jogador venezuelano no Brasileirão. Gastou a bola e, de jovem promissor, encerrou a liga nacional como um dos melhores jogadores do país. A mítica camisa 10 alvinegra esteve muito bem vestida. Carlos Sánchez, por outro lado, se confirmou como um meio-campista acima da média na América do Sul. Idade não foi problema, diante da vitalidade e da técnica que o uruguaio deu à faixa central. Ficou a impressão de que até poderia ter feito mais, ao ficar restrito ao banco em parte do primeiro turno. Foi o motor da equipe. Menção ainda a Marinho e seus mísseis aleatórios, que chegou no meio da temporada e anotou gols importantes na boa sequência final.

As escolhas que deram errado e as teimosias

Nem tudo deu certo para o Santos ao longo do período Sampaoli. Alguns pedidos de contratação naufragaram clamorosamente. E ninguém supera Cueva, não apenas por ser uma clara barca furada, como também pelo altíssimo preço. O peruano mal jogou, arrumou confusão e deixou uma dívida que ainda deve ser paga pelo Peixe. Uribe é mais um nessa lista, longe de emplacar. Outro imbróglio que vale ser lembrado envolveu o goleiro Vanderlei, em desgastes desnecessários, embora a boa forma de Everson no Brasileirão tenha feito muita gente se esquecer do atrito. Além disso, a impressão no Brasileirão é que, se tivesse aberto mão de algumas de suas “certezas”, o treinador até poderia ter registrado uma pontuação maior. A insistência com o esquema dos três zagueiros irritou parte dos santistas e certa exposição do esquema provocou algumas derrotas sentidas ao longo da campanha.

Eliminações nos mata-matas

O Santos teve uma ótima campanha na fase de classificação do Paulista. O desempenho nos pontos corridos do Brasileiro fala por si. Mas é preciso reconhecer que Sampaoli ficou devendo um pouco mais nos mata-matas que disputou. A queda nos pênaltis para o Corinthians durante o estadual, apesar do domínio do clássico, nem foi o maior problema. Mas ficou a impressão de que dava para fazer melhor na Copa do Brasil, com a eliminação em casa por conta dos contragolpes do Atlético Mineiro. E, sobretudo, a caminhada na Copa Sul-Americana poderia ter sido muito mais longa. Cair em casa para o River Plate do Uruguai provavelmente foi o momento mais baixo nesta empreitada, até pelos requintes de crueldade do jogo com portões vazios que o Peixe não soube resolver. Era uma competição para ir mais longe – e até sonhar com a taça. Em diferentes compromissos, o time exibiu carências para resolver os jogos e sentiu falta de um goleador, algo que se aprimorou na reta final da Série A.

A relação com os “meninos da árvore”

Sampaoli viveu às turras com a diretoria e também não fez muitos amigos em outros clubes. Em compensação, deu a atenção necessária aos torcedores. E o maior símbolo desse lado terno do comandante aconteceu com os chamados “meninos da árvore”, que escalavam as árvores nos arredores do CT do Santos para assistir às atividades do time. A relação de amizade que Sampaoli criou com a garotada se refletiu em uma série de episódios bem bacanas – e cada vez mais difíceis de se registrar em clubes profissionais. Os meninos confeccionaram um bandeirão ao treinador, que chegou até a levá-los em uma visita à sua casa. Eles ainda pediram a permanência na frente do prédio onde mora o técnico, mas não teve jeito. Tudo isso, no fim das contas, simboliza uma relação próxima que os torcedores alvinegros apreciaram. O trato com a molecada era um agrado a qualquer santista.

A integração com a cidade

Outra história peculiar envolvendo Sampaoli estava em sua própria relação com a cidade de Santos. Em um universo paralelo do futebol que parece sempre tão distante da realidade, atos simples do treinador se transformaram em notícia. O simples costume de ir aos treinamentos andando de bicicleta ganhou as manchetes – e ainda mais depois que a “magrela” do argentino terminou furtada. Foi outra forma de estabelecer proximidade com a torcida e até certa abertura com a população da Baixada Santista. O treinador se integrou, o que nem sempre se nota de maneira tão pública. Virou um cidadão a mais. Seu terceiro filho, inclusive, nasceu durante a estadia na cidade.

As goleadas (pelo bem e pelo mal)

Ao longo do ano, o Santos fez um punhado de partidas marcantes. Nem todas a seu favor, é verdade. O estilo de jogo aberto da equipe resultou em algumas derrotas sentidas, sobretudo no primeiro semestre e na má fase entre os turnos do Brasileirão. Os 5 a 1 do Ituano, os 4 a 0 do Botafogo de Ribeirão Preto, os 4 a 0 do Palmeiras e os 3 a 0 do Grêmio estão entre os pontos baixos dos santistas no ano. Ao menos, os massacres do Peixe foram bem mais emblemáticos. Teve passeio pra cima do Altos, do América de Natal, do Vasco, do Goiás, do Botafogo, do Cruzeiro. Alguns jogos nem precisaram de placares tão elásticos, mas contaram com domínios indiscutíveis, como aconteceu nos 2 a 0 sobre o Palmeiras ou nos 3 a 0 sobre o Vasco. E se a última impressão é a que fica, em campo a apoteose se deu nos 4 a 0 inapeláveis sobre o Flamengo, no que também poderia ter acabado em mais tentos.

O melhor futebol santista em muito tempo

O torcedor do Santos sabe das dificuldades que encarou nos últimos tempos. Especialmente ao longo do 2018 sofrível, o Peixe não apresentou um futebol razoável. Sampaoli representava uma quebra. E trouxe premissas que se casaram com aquilo que se esperava na Vila. Até parecia, de início, que o elenco não seria suficiente para segurar tal proposta ofensiva do treinador. O argentino correspondeu às expectativas exatamente pela forma como imprimiu seu ritmo costumeiro em uma equipe que deixava a desejar em certos setores. Não seria exagero dizer que, desde os tempos de Neymar, não se via um Santos tão empolgante – e sem precisar necessariamente de um craque. Com alguns jogadores acima da média e um coletivo bastante azeitado, o Santos deu liga. Taticamente, dominou vários oponentes. Nem sempre foi regular, claro, mas na maior parte do tempo superou o seu sarrafo. E ficou até a dúvida sobre a maneira como Sampaoli poderia render se tivesse, por exemplo, as alternativas ofensivas de 2018.

O horizonte aberto a treinadores estrangeiros

Este legado não é apenas ao Santos. O sucesso de Jorge Sampaoli e de Jorge Jesus neste 2019 ajuda a quebrar as barreiras (e os preconceitos) que existiam contra treinadores estrangeiros no Brasil. A impaciência costumava ser ainda maior com os forasteiros que decidiam se aventurar por aqui, sem muito tempo para desenvolver seus trabalhos. Sampaoli e Jesus tiveram, no início de suas empreitadas, derrotas que seriam custosas a dirigentes com pavio curto. No entanto, ambos foram bancados e não demoraram a dar resultados. Mais do que isso, não demoraram a apresentar uma filosofia de jogo diferente do que se vê no país. Que fique claro: nacionalidade pouco importa, quando a diferença se reverte em campo. Todavia, o mercado interno parece um tanto quanto saturado com a mesmice. O Santos apostou alto, num treinador renomado que vinha queimado da seleção argentina, e colheu os frutos. O clube deverá fazer algo parecido rumo a 2020. Sampaoli deixa uma porta aberta àqueles que vêm do exterior e sua saída também pode ser vista como uma sequência caminho, não como uma perda irreversível.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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