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Sampaoli tem uma qualificação inegável para resgatar o futebol do Flamengo, mas também é uma dinamite extra num ambiente explosivo

Sampaoli passa longe de ser um especialista em gestão de crises, mas possui ferramentas para guiar uma recuperação no Flamengo por suas ideias de futebol

Era uma união fadada a acontecer. Tantas e tantas vezes o Flamengo flertou com a contratação de Jorge Sampaoli, até que finalmente a situação se alinhasse para a chegada do argentino neste meio de temporada. O retorno de Jorge Jesus desde o início era improvável, diante do compromisso do lusitano com o Fenerbahçe. Os rubro-negros não tinham muito tempo para gastar na espera, com uma situação que se torna cada vez mais claudicante, ainda mais depois da derrota para o Maringá na Copa do Brasil. Buscam um comandante que conhece o futebol brasileiro, que pratica um jogo ofensivo e que tantas vezes demonstrou interesse pelo Fla. Porém, que é também uma dinamite a mais para o ambiente explosivo que existe na Gávea.

A admiração do Flamengo por Sampaoli se criou a duras penas para o clube. O treinador, afinal, impôs algumas derrotas sonoras enquanto dirigia outras equipes. Começou ainda em 2011, quando a Universidad de Chile deu um show diante do Fla e se apresentou ao continente com os 4 a 0 das oitavas de final da Copa Sul-Americana, que acabaria por conquistar. Ali já pintava um treinador que os rubro-negros ficavam de olho desde cedo, antes de seus voos mais altos, especialmente na seleção chilena.

Já mais recentemente, em anos mágicos para o Flamengo, Sampaoli conseguiu dar duros golpes diante dos cariocas. Os 4 a 0 com o Santos no Brasileirão de 2019 não atrapalharam o título flamenguista, mas serviram como imposição inédita numa temporada mágica sob as ordens de Jorge Jesus. Foi também uma despedida em grande estilo ao técnico, de uma passagem marcante pelo Peixe. Rolaram depois os 4 a 0 com o Atlético Mineiro no Brasileirão de 2020, que abalaram as estruturas na Gávea e derrubaram até treinador, diante da saída de Domènech Torrent do Fla. No fim das contas, o argentino nem fez tudo o que prometia no Galo, mas também sublinhou seu nome com um ano positivo.

Está claro como Sampaoli, apesar de suas virtudes na armação de um time, também não é infalível. E os relacionamentos costumam se desgastar rapidamente tendo o argentino à frente. O trabalho na seleção da Argentina durante a Copa de 2018 foi caótico, para dizer o mínimo. A passagem pelo Olympique de Marseille era positiva até os atritos com a diretoria pela contratação de reforços fazerem o técnico perder a paciência muito cedo – e antes que as contratações realmente chegassem. Já mais recentemente, no Sevilla, o veterano não encontrou o fio da meada para devolver o time a uma situação tranquila na tabela e durou pouquíssimo.

O Flamengo, como sempre, é um barril de pólvora. E ainda mais agora. A falta de competência de Vítor Pereira em seus poucos meses de trabalho foi flagrante, mas não que a culpa se concentre apenas no treinador. A diretoria toma decisão equivocada atrás de decisão equivocada, num planejamento esportivo que nunca foi o forte da gestão atual – mesmo que as taças tenham pintado com uma frequência histórica. Já o elenco não transmite a mesma imagem de outros tempos. Há posições carentes, lideranças em queda de rendimento e jogadores que tantas vezes são escalados só por nome. Se por muito tempo se discutiu as dificuldades de uma renovação no grupo rubro-negro, talvez agora mudanças mais drásticas se façam mais urgentes.

Sampaoli precisará construir essa relação interna. Não tem uma personalidade tão afável para manejar os medalhões, mas poderá convencê-los na bola, tal qual fez Jorge Jesus. Auxilia o fato de ter velhos conhecidos, como Gerson ou Arturo Vidal. Também tende a pedir zilhões de reforços, como tão costumeiro em seus trabalhos, o que gera embates diretos com a diretoria. A margem de manobra é pequena, pensando no momento da temporada que assume. O Brasileirão começa agora, a Copa do Brasil necessita de uma reação imediata e mesmo a Libertadores pode se tornar um pouco mais complicada com a derrota na estreia. A atuação horrível contra o Maringá mostra que o salto pode não acontecer num passe de mágica, já que os entraves não acabaram com o adeus de Vítor Pereira.

Mas, apesar de todas as ressalvas, Sampaoli tem uma capacidade de armar boas equipes que pode se sobrepor a tudo. O argentino soube fazer a maioria de seus times jogarem um bom futebol. E é nisso que o Flamengo se agarra. Por currículo, muito provavelmente Sampaoli é o mais indicado para os rubro-negros desde que Jorge Jesus saiu – e, a bem da verdade, com uma gama de experiências até maior que a do Mister. Passado não é garantia nenhuma dentro de campo quando não se sabe manejar o presente, o próprio técnico está ciente disso. Mas ajuda quando, enfim, as ideias que o novo comandante agrega parecem condizentes com as expectativas que giram ao redor do clube.

As primeiras semanas logo serão decisivas para Jorge Sampaoli. Exatamente porque o clima ao redor do Flamengo é uma panela de pressão e as seguidas decepções na temporada cobram bastante. Nem se pede que o argentino bote o time para praticar um futebol agressivo de imediato, mas as próprias demandas das competições exigem uma sequência de vitórias que não é das mais simples. Gestão de crise não é a especialidade do novo técnico. Porém, os triunfos sempre abrem as portas. E vai ser por um futebol bem sucedido que os rubro-negros confiam sua sorte ao novo comandante.

Há chances críveis de que dê certo, pelas características de alguns jogadores e também por virtudes de Sampaoli. São bem maiores, por exemplo, do que com Vítor Pereira. Entretanto, também é preciso ter um pouco de cautela na empolgação pelo fósforo que o argentino sempre risca em seus clubes. No Flamengo, o risco de uma explosão nunca depende de uma fagulha muito grande, especialmente agora, depois de tantas bombas nos últimos meses. Na pior das hipóteses, Sampaoli ficará tempo suficiente para que Jorge Jesus volte a estar ao alcance. Mas não é isso que os rubro-negros desejam – sejam os da direção, pela quantidade de tiros n'água e multas rescisórias dos últimos anos, sejam os da torcida, que aguardam uma temporada que ao menos termine vitoriosa. Para tanto, Sampaoli precisa emplacar o quanto antes. Terá muitos recursos, mas não a paciência, que a ele mesmo tantas vezes falta.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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