Brasileirão Série A

No clássico no Maracanã, confianças reviradas dum campeonato emocionado, sob pressão

Flamengo e Botafogo se enfrentaram sob um calor escaldante, e o jogo poderia ser um resumo do que é o principal campeonato do país

O Brasileiro é por pontos, mas podia ser também por confianças, sossegos ou estresses corridos. Numa maratona de jogos e justificativas, gols e bravatas, cada clube vai tentando construir sua pequena saga individual de abril a dezembro, com Copas e convocações no meio do caminho, vencendo para subir na tabela e também, na mesma medida, garantir a tranquilidade efêmera de uma segunda-feira à frente, entrando em campo para chutar a bola, mais a crise, para o lado de lá. É uma disputa pautada pela pressão. Joga-se para ganhar, ganha-se pela paz.

Junta tudo isso às onze da manhã, Libertadores numa semana e mata-mata nacional na outra, o outono em calor de verão porque conseguimos: as estações viraram licença poética, e só. Flamengo e Botafogo no Maracanã foram a campo como um resumo do que é o principal campeonato do país, a urgência de anteontem e a baixíssima paciência com as construções, como se Tite e Artur Jorge tivessem de dar uma resposta já no almoço de domingo da quarta rodada, dez por cento da tabela, nem o primeiro terço do primeiro turno, e a saturação de quem precisa ver o time funcionando, e logo.

O Flamengo, a meu ver, administrou mal a semana, e é claro que a falta de vitórias faz parecer uma engenharia de obra pronta, mas penso mais no que tenta construir enquanto discurso. É claro que a fisiologia, a manutenção física dos jogadores e o giro de titulares são elementos naturais e necessários, mas a cobrança é por excelência e a rotina é de corda esticada. Tite, ao ser perguntado na Bolívia sobre como a torcida deve entender essa novidade de se preservar titulares com base na ciência, disse que não há novidade nenhuma. Ele deve saber também que não é fácil bancar trivialidade sem vitórias no Flamengo.

Num dia de jogo da Libertadores, titulares treinaram no Rio de Janeiro em fotos nas redes sociais, como um dia ordinário, comum. Repito: não questiono o revezamento, mas acho que a forma de comunicar frente a partidas tão importantes (Palmeiras, Libertadores, Botafogo) contribuiu para o incômodo da torcida com o desempenho. Vendeu-se um plano e não houve nem lampejos de bom futebol. Eram dez anos sem passar um jogo em casa da Série A sem acertar um chute no gol. Não é banal para quem esvaziou os compromissos anteriores e não se indignou muito com o que conseguiu exibir.

Isso não quer dizer que Tite não pode forjar um elenco campeão, pelo contrário. Escrevi há quarenta dias que esse Flamengo tem capacidade de arrebatar um Maracanã pela força de seu elenco, com bola e gás para passar o ano amassando quem vier pela frente, ainda que o torcedor mais crítico sinta falta de plástica. É justo que ele entre na semana frustrado, porque sem um, nem outro. Se por um momento topou o time da defesa sólida e das vitórias no ponto, isso se perdeu por um instante e ficou quase nada para a cerveja sob o sol do domingo pela frente.

O Botafogo, olha que louco, ganha com os méritos de sua confiança, logo ela, retomada aos trancos e barrancos, batendo em liderança precoce, de novo – quem diria? A chapa de gol de Luiz Henrique é o resultado do investimento em talento ofensivo, providencial numa vitória por 2 a 0 que veio também com caixa de Savarino logo diante das dúvidas após a lesão de Tiquinho. Marlon Freitas jogou uma barbaridade, John é uma grata mudança no gol, e a Estrela Solitária pode embalar no Brasileiro novamente.

Artur Jorge jogou com Danilo Barbosa, e depois teve Gregore e Tchê Tchê para não perder o gás. Tem quatro na frente e ainda Jeffinho para entrar, nada mal. Terá Cuiabano para rodar o lateral-direito e um mês de maio para ver se a consistência garante os pontos para avançar na Libertadores. Faltou um senso de urgência contra o Junior Barranquilla na derrota da estreia, mas dá tempo. É importante para a sequência que o clube jogue o mata-mata continental. Era importante não ter medo de ser líder da tabela de novo.

Quando bateu uma hora da tarde, a moral elevada do Glorioso contrastou com um misto de desapontamento e irritação do lado rubro-negro, partes que coabitam um clássico carioca e também o humor inescapável do Brasileirão. O campeonato é imprevisível porque o astral varia e baliza a tensão dos jogos como em nenhum outro lugar. É tudo meio sorriso, meio corda bamba, semana após semana. É divertido, claro que é, mas excessivamente tenso também, à flor da pele demais, que o diga Ramón Díaz. Faz parte, mas haja emoção.

Foto de Paulo Junior

Paulo Junior

Paulo Junior é jornalista e documentarista, nascido em São Bernardo do Campo (SP) em 1988. Tem trabalhos publicados em diversas redações brasileiras – ESPN, BBC, Central3, CNN, Goal, UOL –, e colabora com a Trivela, em texto ou no podcast, desde 2015. Nas redes sociais: @paulo__junior__.
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