Brasileirão Série A

Botafogo já tem dura missão para 2024: tentar recuperar o torcedor depois do vexame no Brasileiro

Apoiado pela torcida durante boa parte do Brasileiro, o Botafogo foi abandonado no último jogo do ano no Nilton Santos, enquanto os jogadores foram alvos de xingamentos

A temporada ainda não acabou, mas o Botafogo já sabe uma de suas principais e talvez mais duras missões para 2024: recuperar o torcedor, que foi humilhado nesta reta final do Campeonato Brasileiro. Entre os tantos motivos que fizeram o clube perder o título que estava na mão até pouco tempo, o Glorioso não pode reclamar de falta de apoio da torcida, que encheu o Nilton Santos em boa parte do Brasileirão. Mas, como era de se esperar, os sucessivos vexames do time já voltaram a afastar os alvinegros.

Durante este Campeonato Brasileiro, o Botafogo teve onze jogos seguidos com ingressos esgotados no Nilton Santos. Desde o duelo com o Vasco, na 13ª rodada, até a partida contra o Grêmio, em São Januário, na 33ª rodada, as todas as entradas para os jogos do Glorioso em casa foram vendidas com antecipação.

Mesmo quando o Botafogo passou oscilar durante o segundo turno, a torcida não deixou de apoiar e marcar presença. Pelo contrário. Em todos os jogos foram feitos grandes festas, com mosaicos 3D, bandeiras, faixas, barras e o que mais tivesse direito – sempre com arrecadação de dinheiro feita pela própria torcida, através do Movimento Ninguém Ama Como A gente.

Botafogo teve a sua melhor média de público dos últimos anos neste Campeonato Brasileiro (Foto: Vitor silva/Botafogo)

Não à toa, o Botafogo teve, neste Brasileiro, a sua melhor média de público em pelo menos dez anos. O clube teve uma média de 26.796 pagantes por jogo em casa no Brasileirão. De acordo com levantamento do “GE”, esta é a melhor marca desde 2012.

Botafogo recebeu pouco mais de 15 mil torcedores no último jogo em casa neste Brasileiro (Foto: Gabriel Rodrigues/Trivela)

Apoio se transformou em protestos, cobrança e abandono

A relação entre torcida e clube teve uma turbulência na partida contra o Goiás, quando o Botafogo ficou apenas no empate em 1 a 1 e completou cinco jogos sem vencer. Mas, naquela ocasião, as criticas e vaias eram voltadas principalmente para o técnico Bruno Lage, que acabou demitido no dia seguinte.

Mesmo com a irregularidade no segundo turno, os torcedores seguiram enchendo o Nilton Santos. Mas, depois da virada épica sofrida para o Palmeiras por 4 a 3 e da derrota no clássico com o Vasco, o clube viveu mais um exemplo clássico de crise no Brasil: o protesto da torcida na porta do CT. Na véspera do confronto direto com o Grêmio, no começo de novembro, um grupo de torcedores fez uma manifestação na frente do Espaço Lonier e cobrou os jogadores. Em vão. No dia seguinte, novo vexame. E, de novo, de virada e por 4 a 3, em São Januário.

A partir dali, a paciência de parte dos torcedores acabou. Depois de mais dois jogos vencer e de perder a liderança para o Palmeiras, uma organizada Fúria Jovem do Botafogo publicou uma nota cobrando jogadores como Eduardo, Cuesta, Marlon Freitas e Di Placido. Imediatamente, John Textor, dono da SAF do Botafogo, respondeu nas redes sociais e criticou a organizada.

No dia seguinte, véspera do jogo contra o Santos, o Nilton Santos amanheceu com pichações contra Textor e os jogadores, que, inclusive, foram ameaçados nas mensagens deixadas pelos torcedores. A partida contra o Santos, inclusive, foi o primeiro jogo, depois de 11 seguidos, em que a torcida não esgotou os ingressos. Apenas 26.548 pagantes acompanharam mais uma frustrante empate do Botafogo.

Torcedores do Botafogo ameaçaram os jogadores com pichações no Nilton Santos (Foto: Gabriel Rodrigues/Trivela)

Com mais um traumático empate com o Coritiba, que deixou o clube praticamente sem chances de título no Brasileiro, torcedores fizeram uma campanha por “público zero” no Nilton Santos na partida contra o Cruzeiro, no último domingo. E a iniciativa fez efeito. A baixa procura por ingressos fez até o Botafogo abrir os portões para mulheres e crianças. Mas nem isso ajudou. Foram apenas 13.159 pagantes no empate com a Raposa – o segundo pior público do Botafogo no Brasileiro, perdendo apenas para os cerca de 10 mil pagantes na primeira rodada, contra o São Paulo.

Além do abandono por parte da torcida, o Botafogo ainda teve que conviver com os protestos antes, durante e depois do jogo. Muitos jogadores foram vaiados durante o anúncio da escalação e, quando o time subiu para campo, alguns torcedores jogaram pipoca nos atletas. Além disso, torcedores também levaram uma faixa com a mensagem “cagões como vocês não fazem história”. Durante o jogo, jogadores como Marlon Freitas, Cuesta e Luis Henrique eram vaiados a cada toque na bola. E, com o empate, que fez o time dar adeus oficialmente ao título, o time foi muito vaiado no apito final.

E agora? Como o Botafogo pode recuperar a confiança da torcida?

Depois do vexame de perder o título do Campeonato Brasileiro, após liderar a competição por 31 rodadas, o Botafogo ainda precisa evitar outra humilhação: terminar o Brasileirão fora do G4 e ficar sem uma vaga direta para a Copa Libertadores. Para isso, o time de Tiago Nunes precisa vencer o Inter, nesta quarta-feira (6), às 21h30 (horário de Brasília), no Beira-Rio, e torcer contra Grêmio, Flamengo ou Atlético-MG.

Depois do empate com o Cruzeiro, o técnico Tiago Nunes falou sobre esta missão na tentativa de recuperar a confiança do torcedor no último jogo do ano.

– Quando se trabalha em equipes de massa, tem que estar sempre preparado para cobrança. Não pode fugir dessa responsabilidade. É um peso que se paga. Esses 28 anos tem um peso na relação com o torcedor. Única forma de reatar é vencendo. Se não vencer, esse sentimento vai continuar aumentando e sendo sustentada por uma grande frustração. Temos que terminar a temporada, fazer uma análise do porquê aconteceu. Se a gente ficar remoendo isso, a gente nunca dá um passo à frente. Eu penso que o final dessa temporada acabou sendo duro para o Botafogo porque chega com chance real de ser campeão e esgota todas as possibilidades por situações que ninguém está preparado. Creio que sempre há vida no dia de amanhã. Meu papel é encontrar meios de fortalecer esse processo e o emocional dos jogadores. Dos que estão aqui e dos que vão chegar. Porque quem vem tem que estar preparado para aguentar – afirmou Tiago Nunes.

Foto de Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues

Gabriel Rodrigues é jornalista formado pela UFF e soma passagens como repórter e editor do Lance!, Esporte News Mundo e Jogada10.
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