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Como o novo modelo de TV do Brasileirão fez disparar opções de jogos gratuitos

Mudanças criaram novas opções com Record, CazéTV e até o surgimento da GE TV

O Brasileirão 2025 foi aguardado durante muitos anos por quem acompanha a história da mídia esportiva e dos direitos de transmissão no país. O novo modelo de distribuição, agora divido em blocos comerciais, trouxe para o jogo não apenas empresas que são símbolos da era moderna, como Amazon e YouTube, como também uma emissora que não transmitia a competição há 19 anos, a Record. Tudo isso sem tirar a primazia da Globo, que domina a competição desde 1987, e ainda conseguindo fazer disparar a oferta de transmissões abertas para o público em todo o país.

O início destes novos tempos foi marcado por muita confusão, com risco de uma distribuição de jogos em pacotes que provocasse ainda mais dúvidas na cabeça do torcedor e até elitizar o acesso ao conteúdo.

Mas a Libra, bloco que representa times como Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos, Atlético-MG e Grêmio, além de ter na Série A de 2025 ainda o Bahia, Vitória e Red Bull Bragantino, vendeu todos os seus direitos para a Globo, que poderia explorar como bem entendesse entre TV Globo, sportv e Premiere as partidas dessas equipes como mandantes no Campeonato Brasileiro.

No lado da LFU (Liga Forte União), que ganhou tração no mercado com a virada de lado do Corinthians no ano passado, fortalecendo um bloco que conta na primeira divisão deste ano com Cruzeiro, Mirassol, Botafogo, Fluminense, Vasco, Ceará, Internacional, Fortaleza, Juventude e Sport, a negociação foi concentrada pela LiveMode, que distribuiu os jogos desses times como mandantes em três pacotes: um aberto, dividido entre Record e YouTube (que usa a CazéTV, da própria LiveMode, para fazer as transmissões), outro de plataformas pagas, vendido para a Amazon com 38 jogos totalmente exclusivos, e o restante das partidas para a Globo explorar como quisesse também. Ou quase, como explicaremos daqui a pouco.

O modelo de 100% dos jogos no Premiere, que existia desde o meio da década de 2000, não acabou com a chegada da LFU. Já não era realidade desde 2019, quando Athletico Paranaense e Palmeiras não fecharam acordos com a Globo pelos direitos de PPV.

Sem existir ainda a “Lei do Mandante”, com a exigência existente à época de uma emissora ter contrato com os dois clubes em campo para transmitir um jogo de futebol, chegamos ao cúmulo de ver jogos sem transmissão, como um CSA x Palmeiras no começo daquela temporada. O Verdão acabou fechando o acordo. O Athletico foi até o fim do ciclo, em 2024, sem acordo com o Premiere.

Na prática, o assinante do Premiere só perdeu 19 jogos do Brasileirão em relação ao ano passado, quando as partidas do Athletico como mandante eram exibidas em PPV pela CazéTV no YouTube e por plataforma própria do clube paranaense.

Não foi esse novo modelo de blocos quem tirou do pay-per-view global a garantia de 380 partidas.

Quem tem TV por assinatura continuou tendo dois jogos por rodada no sportv, que transmite há décadas o Brasileirão nessa quantidade de jogos. Modelo que melhorou em 2022, inclusive, com o fim do “bloqueio de praça”. Lembra quando o sportv fechava o sinal de um jogo só para o seu estado e colocava um VT no lugar? Era isso. Hoje em dia isso não existe mais. Um jogo do canal pago da Globo é exibido no Brasil inteiro.

Brasileirão de 2025 marcou a estreia de Paulo Andrade no Grupo Globo (Foto: Globo/Alexandre Battibugle)
Brasileirão de 2025 marcou a estreia de Paulo Andrade no Grupo Globo (Foto: Globo/Alexandre Battibugle)

Se o PPV mudou pouco, continuou tendo nove jogos por rodada, ou seja, 90% do campeonato em uma só assinatura, e se o sportv continuou com seus 76 jogos na temporada, onde foi o maior impacto que esse modelo trouxe? Na base da pirâmide. Na oferta de jogos da plataforma mais democrática com imagens existente no Brasil: a TV aberta.

A chegada da Record trouxe um elemento completamente inédito na era dos pontos corridos: a garantia de um segundo canal aberto com jogos diferentes da TV Globo em todas as rodadas. O fã de futebol com memória mais treinada vai lembrar que a emissora de Edir Macedo foi parceira da Globo em direitos de transmissão entre 2002 e 2006. Mas os jogos eram essencialmente os mesmos. A emissora líder só deixava a parceira escolher partidas diferentes de vez em quando, e sempre no mesmo modelo: no mesmo horário do duelo exibido na TV Globo, e praticamente sempre um jogo do Santos.

Em 2025, a Record sofreu com outras limitações, mas garantiu 38 jogos diferentes do que a Globo transmitiu. Por contrato com a LFU, as partidas eram divididas com a CazéTV e também estavam disponíveis no Premiere. Mas nem TV Globo e nem sportv poderiam exibir esses mesmos jogos.

As limitações incluíram o fato de que apenas jogos de times da Liga Forte União como mandantes poderiam ser transmitidos, e um número máximo de partidas por time: 8 da LFU e 4 da Libra (quando jogam como visitantes). Além disso, o sistema de distribuição dos jogos da LFU contou com rotação de escolhas entre Record/YouTube, Amazon e Globo.

Mas o torcedor saiu ganhando, e é aqui que chegamos à conta mais importante deste texto: quantos jogos tivemos de graça na nossa TV em 2025? Na era dos pontos corridos com 20 clubes (ou seja, com disputas de 38 rodadas), que começou em 2006, o número de partidas na TV aberta sempre ficava próximo a isso.

Vamos tomar como referência a região metropolitana de São Paulo, responsável por praticamente um terço da audiência nacional medida pelo Ibope.

Em 2006, foram 45 jogos exibidos na TV aberta em SP, sendo 39 pela TV Globo (a maioria também na Record) e outros seis exclusivos na emissora de Edir Macedo. Exatamente pelo descontentamento com o modelo de exibir só o que a Globo deixava, e em busca de tomar um caminho próprio na aquisição de direitos, a Record deixou o Brasileirão e foi substituída pela Band em 2007. A oferta de jogos na TV aberta caiu para 41, com apenas três do Santos exclusivos na nova parceira.

Brasileirão teve mais partidas transmitidas de forma aberta (Arte: Diana Lopes/Trivela)
Brasileirão teve mais partidas transmitidas de forma aberta (Arte: Diana Lopes/Trivela)

Só houve um aumento importante em 2009, quando a Globo passou a usar mais vezes o expediente de “puxar” jogos do Brasileirão de times paulistas quando a transmissão nacional era de eventos como a Copa Sul-Americana sem times do estado. Com isso, foram 51 naquele ano.

Mas a regra, principalmente após a saída da Band como parceira e a TV Globo ficando como exclusiva no Brasileirão, de 2016, era algo sempre entre 37 e 40 jogos.

Com a concorrência do SBT exibindo Libertadores no meio da pandemia, em 2020, mais uma vez a Globo usou jogos da competição nacional em datas dos eventos da Conmebol, fazendo o número de partidas gratuitas subir para 47. Exceção. O torcedor se habituou mesmo a ter um jogo por rodada por mais de 20 anos.

O resultado em 2025: entre Globo e Record, o telespectador chegará ao fim da temporada com 77 jogos exibidos de graça na TV aberta. Mais que o dobro do ano passado, já que agora são duas partidas por rodada em canais diferentes. Aliás, bom dizer, mesmo em relação ao tempo em que a Record tinha um jogo do Santos exclusivo de vez em quando, ainda havia o fator agravante de ser no mesmo horário de outra partida exibida na Globo. Agora, não, foram sempre horários e até dias diferentes.

O torcedor santista que mora na capital paulista, por exemplo, viu sete jogos de seu time na TV aberta em 2023. Até agora, em 2025, foram 15. Maior número desde 2005. O Corinthians também viu aumentar de 13 para 17 (maior desde 2020). Chegaram a ser apenas nove em 2023 nas escolhas da TV Globo. O Palmeiras manteve as 15 partidas do ano passado, mas o São Paulo também observou crescimento, de 13 para 16 (maior desde 2015).

Mas, calma, que a conta ainda não acabou. Lembra quando falamos no começo do texto que a Globo poderia exibir os jogos da Libra como bem entendesse, e a maioria das partidas da LFU também? Pois é. No meio do caminho, uma outra concorrência crescente fez aumentar a oferta total de duelos gratuitos com a ajuda da internet. A CazéTV, como já dissemos, exibe os mesmos 38 jogos da Record. Só que a Globo lançou um canal para brigar pelo público do streaming gratuito no YouTube também, a GE TV, que foi ao ar em setembro e tinha a intenção de exibir um jogo por rodada, sempre da cota de partidas da TV Globo.

CazéTV foi o canal escolhido pelo YouTube para exibir jogos do Brasileirão (Foto: Divulgação)
CazéTV foi o canal escolhido pelo YouTube para exibir jogos do Brasileirão (Foto: Divulgação)

Só que a LFU não libera as transmissões de seus jogos na GE TV, mesmo do pacote exclusivo da Globo. O YouTube escolheu a CazéTV, da LiveMode, como único canal que pode exibir os jogos da Liga Forte União em sua plataforma. Com isso, a GE TV só pode mostrar jogos de times da Libra como mandantes. Em várias rodadas, a TV Globo nem teve como escolher qual de suas partidas na divisão de praças (quando a emissora transmite um jogo para algumas partes do país e o outro em regiões diferentes). Se uma das transmissões fosse do pacote LFU, o jogo da GE TV tinha que ser o da Libra.

Com isso, o público da região que pegamos como referência, São Paulo, ganhou as transmissões gratuitas de mais sete jogos na internet diferentes daqueles que estavam em sua TV aberta na Globo e que envolveram partidas como Flamengo x Vasco, Grêmio x Juventude, Bahia x Red Bull Bragantino, entre outros. Isso sem contar a última rodada, que ainda terá exibições definidas pela emissora. Placar quase final: 84 jogos gratuitos no Brasileirão 2025. Mais de 22% do total da competição disponível de forma aberta entre TV e streaming. Um recorde absoluto na era dos pontos corridos.

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Foto de Allan Simon

Allan SimonColaborador

Jornalista e criador de conteúdo. Canal de mídia esportiva no YouTube com +164 mil inscritos, e de história do futebol com +25 mil

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