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Seleção: Os ajustes táticos para Ancelotti corrigir de vez a defesa

Treinador do Brasil diz o que é prioridade de ser "arrumado" no time e não gosta de ser chamado de defensivo

Antes do duelo da seleção brasileira contra a Croácia, marcado para terça-feira (31), às 21h, Carlo Ancelotti debateu, em entrevista coletiva, sobre seu modelo de jogo e influências e citou os times campeões de 1994 e 2002 como exemplos.

Para o italiano, a fórmula dos últimos sucessos do Brasil na Copa do Mundo foi a mesma: uma defesa sólida combinada a um grande talento ofensivo. Essa habilidade do meio para frente, segundo ele, o time de 2026 tem. Então, o foco tende a ser defensivo.

Em entrevista à Trivela, antes da Data Fifa, Bento explicou sobre o foco que Ancelotti deu à defesa quando chegou. O treinador priorizou “arrumar o problema defensivo” que a Seleção vinha tendo no ciclo. Inicialmente, teve sucesso.

Com o passar do tempo, criou-se o debate sobre os quatro atacantes, principalmente depois do jogo contra a França. É possível ser suficientemente bom defensivamente dessa forma? E se Ancelotti se inspira no trabalho de não sofrer gols de 1994 e 2002, é justo dizer que ele é um técnico defensivo?

Ancelotti montará uma seleção brasileira defensiva?

O técnico Carlo Ancelotti em entrevista coletiva da seleção brasileira
O técnico Carlo Ancelotti em entrevista coletiva da seleção brasileira. (Foto: IMAGO / Brazil Photo Press)

A eterna busca brasileira por um time que “joga bonito” e vence tem encontrado uma dualidade: a equipe que é “pragmática e competitiva”, mas que teria mais chances de brigar por um resultado positivo em uma Copa do Mundo.

Para Ancelotti, o time está preparado para jogar de diferentes formas. Tite, técnico do Brasil nas duas últimas edições do Mundial, já falava sobre coisas como “saber sofrer” e “atacar defendendo”. O italiano reforçou com o comparativo histórico:

“Os últimos dois Mundiais que o Brasil ganhou, ganhou por uma fantástica conexão entre o talento e o aspecto defensivo. Tanto é que, Felipão, grande treinador, usa três zagueiros em 2002. Parreira armou uma equipe muito forte em 94 com duas linhas de quatro para aproveitar do talento de Romário e Bebeto”.

Houve momentos em que se debatia sobre a ideia da Seleção ter ícones ofensivos por quem um time jogaria em função. Nas três últimas Copas, foi Neymar. Tanto que Gabriel Jesus e Tite viraram alvos de imensas críticas pela função defensiva do camisa 9 para liberar o atual camisa 10 do Santos.

Essa fala de Ancelotti pode reforçar esse debate.

Em 2002, seria um time que jogaria em função do talento de Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho. Em 1994, da dupla de ataque. Se comparado com hoje, a solidez defensiva se faz necessária para desbloquear o quarteto ofensivo, que pode ter nomes como Vinicius Júnior, Raphinha, Estêvão, Matheus Cunha e João Pedro.

A história é muito clara: o Brasil, para ganhar o Mundial, tem que ter talento, e nós temos, e defender bem. Não há outra via. Só jogo ofensivo… No Mundial, ganha quem sofre menos gols“, continuou o italiano.

Isso implica que Ancelotti montará um time defensivo para 2026? Vendo todo o histórico do ciclo e o que se espera com testes para o jogo contra a Croácia, não parece que o time sairá do seu misto de 4-2-3-1/4-2-4. Resta saber qual será a ideia principal balizadora do modelo de jogo.

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Os pontos de atenção na defesa do Brasil de Ancelotti

Desde que chegou, o treinador levou à seleção brasileira um padrão simples em organização defensiva: 4-4-2 com pontas recuando, bloco médio com foco em proteger as entrelinhas. Ter um, dois ou quatro atacantes é indiferente em fase defensiva dessa forma.

Claro que o material humano muda: Vini é um defensor menos competente do que Gabriel Martinelli, por exemplo, apesar dos dois serem atacantes. Assim como Gabriel Jesus era um bom defensor para sua posição, enquanto Neymar deixava a desejar.

A linha de quatro defensores é protegida no corredor central por dois volantes que combinam bom trabalho de cobertura, defesa ao espaço e duelos, Casemiro e Bruno Guimarães. O time titular do Brasil, defendendo em bloco baixo, geralmente cede poucas chances com Ancelotti.

Talvez as maiores questões do treinador sejam na transição defensiva e na marcação em bloco alto.

Isso porque os sistemas de pressão ainda não parecem ter encontrado sua sintonia. O melhor desempenho nesse sentido foi contra Senegal, em vitória que viu Éder Militão com lateral-direito que subia pressão e conseguia sustentar sua posição na linha de defesa.

Ancelotti em treinamento da seleção brasileira
Ancelotti em treinamento da seleção brasileira (Foto: Icon Sport/Guilherme Veiga/PxImages)

Em outros casos, como no jogo contra o Japão, a pressão não funcionou. Com uma saída de três, os japoneses conseguiam progredir com vantagem numérica e encontrar o jogador livre para acelerar nas costas da primeira pressão brasileira. E isso gera outro ponto de atenção: a transição defensiva quando a pressão não funciona.

Isso também aconteceu com a França. Quando um dos volantes recuava para criar uma saída em três, os dois atacantes do 4-4-2 brasileiro naturalmente ficavam em desvantagem. Além disso, um dos atacantes franceses descia para ajudar na progressão central, gerando mais vantagem numérica.

Depois disso, era fácil para acelerarem e criarem chances. Foi assim que surgiram os dois gols, principalmente o segundo, que contou com um leve ajuste na marcação brasileira: Bremer, zagueiro, passou a perseguir seu opositor até o outro lado do campo para que não houvesse desvantagem numérica na construção francesa, mas liberou muito espaço na transição.

Mais do que a defesa, a transição ofensiva também é incógnita

Os melhores jogos da era Ancelotti na Seleção foram os que o time conseguiu povoar o meio com aproximações de atacantes, pontas e volantes, além de encontrar dinâmicas de terceiro homem para progredir com passes de ruptura de zagueiros e laterais. Um estilo bem brasileiro, de toques curtos, dribles em curto espaço e tabelas.

Os jogos menos agradáveis foram aqueles em que o Brasil não conseguiu fazê-lo. A estreia de Ancelotti contra Equador, por exemplo, em que o time tentava acelerar a todo momento, e a própria derrota contra a França, em que a equipe não mantinha a bola com paciência.

O modelo de jogo da seleção brasileira passará principalmente pelo modelo de transição ofensiva. O que fará quando roubar a bola ditará seu sucesso: acelerar tem seu valor, uma vez que temos atacantes rápidos e habilidosos, mas os melhores desempenhos do time foram mais pausados do que isso.

E, obviamente, para transicionar ofensivamente, é preciso roubar a bola, o que nos faz voltar à defesa. Pressionar alto é norma no futebol de alto nível, e o Brasil precisará fazer isso, mas ainda não encontrou a melhor forma de fazê-lo.

Sem sucesso nessa abordagem, deve ajeitar sua transição defensiva: correr para trás com Casemiro e Bruno Guimarães como únicos protetores do meio pode ser perigoso.

Ancelotti deu o recado sobre seu estilo e suas prioridades. Mesmo que a ideia seja arrumar a defesa, não abdicará de unir talentos e jogar de forma ofensiva:

“Não gosto que me chamem de defensivista, mas o trabalho defensivo é muito, muito importante”.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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