‘Isso vai fazer a gente vencer a Copa’: Bento revela mudanças na Seleção com Ancelotti
Goleiro do Al-Nassr lembra da chegada do treinador e fala da 'mística' de ter Ancelotti comandando a equipe
Bento esteve presente em todas as convocações de Carlo Ancelotti na seleção brasileira. Depois de Alisson, foi o goleiro que mais jogou. A confiança para estar na Copa do Mundo veio não só com a sequência com o italiano, mas em todo o ciclo de três anos que construiu.
Em entrevista exclusiva à Trivela, o goleiro do Al-Nassr revela como Ancelotti mudou a mentalidade e o estilo do Brasil em campo, a mística por trás de um dos grandes técnicos da história do futebol e bastidores do momento mais difícil da Seleção no ciclo para essa Copa.
Bento constante com um Ancelotti que mudou tudo
Hoje, é possível entender os padrões da seleção brasileira com Ancelotti em campo: a priorização da construção pelo meio, aproximação de jogadores e pressão coordenada. Mas havia muitas dúvidas de como seria quando o italiano chegou.
Bento explica que o treinador de fato mudou a forma do time jogar. Mesmo sendo um time propositivo, passou a pregar segurança durante a primeira fase de construção e seus apontamentos são simples e diretos.
“Talvez (agora seja) um jogo mais direto, de não arriscar tanto, principalmente na saída de bola. Ele sempre fala, principalmente nos treinamentos para nós goleiros e o pessoal de trás: se vê que está muito apertado, não tem chance de jogar, o espaço vai estar lá na frente, atrás da linha de defesa. Eles vão subir a marcação, o espaço vai estar lá”, conta.

Diferente da imagem de outros técnicos europeus, que passam muita informação e criam um modelo de jogo complexo com diferentes funções para cada atleta, Ancelotti é “curto e grosso”. Segundo Bento, seu olhar é mais de identificar debilidades do adversário para serem exploradas.
O contato inicial, no entanto, foi claro: a Seleção precisava melhorar seu sistema defensivo. Antes de Ancelotti, desde 2024, o Brasil vinha de uma sequência de 11 jogos sofrendo gols em 16 partidas, que culminou no 4 a 1 contra a Argentina prévio à sua chegada.
“Nas primeiras conversas com o Ancelotti, ele focou bastante no que a gente tinha que melhorar. Foi o que ele focou no começo, falou: ‘A gente precisa melhorar a nossa marcação, porque no ataque vocês têm muita qualidade. O Brasil sempre foi uma seleção que ataca muito. Nisso vocês vão sobrar, porque está no sangue de vocês, mas o que a gente precisa ajustar é a marcação e isso vai fazer a gente vencer a Copa do Mundo'”, revela o goleiro.
Mesmo que sua posição seja crucial, Bento entende que “é o pessoal do ataque que resolve os jogos”. E, na sua visão, os novos comandos de Ancelotti facilitaram o trabalho defensivo de todo o grupo: agora, mesmo os atacantes “que não gostam de marcar” cumprem sua função e ajudam todo o sistema.
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As diferenças de Ancelotti, Diniz e Dorival
A primeira convocação do goleiro foi para a estreia de Fernando Diniz na Seleção, ainda em 2023, quando estava no Athletico. Na ocasião, Bento se lesionou e voltou a ser chamado no que seria o último jogo do treinador à frente da equipe.

Ele fala com carinho sobre o treinador, com quem também trabalhou no Furacão, e reflete sobre seu período turbulento de jornada dupla na época. Segundo o goleiro, todos gostavam de Diniz, mas era um modelo que exigia tempo — que eles não teriam no ambiente internacional.
“O que eu sentia do período é que o pessoal gostava muito dele, só que desde quando eu entrei na Seleção, o que eu escutava do staff, principalmente, é o fato de não ter muito tempo para trabalhar. Pela maneira que o Diniz jogava, eu acho que precisava de um tempo maior de treinamento, e na seleção a gente sabe que não tem isso. É no máximo ali 10 dias que você ficar junto”, lembra.
Na sua visão, mesmo tendo muita qualidade nos jogadores disponíveis, Diniz não conseguiria implementar sua filosofia plenamente, e foi isso que encurtou o período do treinador.
A estreia de Bento veio somente sob o comando de Dorival Júnior, outro técnico com quem trabalhou no Athletico. Os elogios só aumentam e vêm em tom de gratidão pela forma como o treinador acreditou no seu trabalho em clube e seleção, mas são acompanhados de uma análise do contexto difícil vivido pelo Brasil:
“O momento que a Seleção estava vivendo, não só dentro de campo, mas fora também, era um pouco conturbado por questão política. E, querendo ou não, acho que isso acaba atrapalhando até inconscientemente. O torcedor deve imaginar: ‘Pô, como que isso vai atrapalhar os jogadores?’. Mas eu acho que não dava tranquilidade. O que eu posso dizer é isso, o que eu vi, o que eu senti”.
Mas também Dorival também tinha muito respeito dos jogadores, conta. “É um cara que fala que faz o feijão com arroz, mas ele faz bem feito, com certeza. Não foi por acaso que ele chegou na Seleção”.
O troféu do goleiro de fevereiro está entregue! 🤝 ✅️
O paredão @Bentokrepski brilhou pelo Al Nassr e foi eleito o melhor paredão do mês! Passa nada! pic.twitter.com/AXNLwpuP6t
— SPL Brasil (@SPLBROficial) March 7, 2026
O respeito por Ancelotti, no entanto, é inegavelmente maior, explica o goleiro. Também tem sido um trabalho mais preciso nas informações passadas, o que, para Bento, está fazendo a diferença.
“É uma situação diferente. Acho que você olhar para o banco de reservas e ver o Ancelotti, parece que é uma mística, só a simples figura dele estar ali presente, você acaba dando algo a mais. Acho que era isso que estava faltando na Seleção”, explica à reportagem.
A goleada para a Argentina que sacrificou muitos na seleção brasileira
O último jogo antes da chegada de Ancelotti foi uma derrota difícil para o maior rival da Seleção. O 4 a 1 sofrido para a Argentina, há praticamente um ano, teve Bento como titular. E outros vários jogadores que nunca mais vestiram a camisa do Brasil.
“Essa derrota acabou sacrificando vários jogadores que têm condição de estar na Seleção, tenho certeza que esses jogadores não estão sendo convocados, mas estão numa lista larga. A gente perdeu de 4 a 1 para a Argentina, em um momento ruim que a CBF estava vivendo, e a sequência dos jogos também, aquela pressão de não estar dando resultado”, relembra o goleiro.
Dos titulares naquele jogo, Murillo e Guilherme Arana nunca mais jogaram pela seleção brasileira e sequer foram convocados. André e Joelinton foram chamados por Ancelotti, mas com minutos raros. Os cinco que entraram também tiveram futuro parecido: Léo Ortiz, João Gomes, Savinho, Éderson e Endrick — talvez o que tenha mais chances de voltar bem.

Bento tem noção de como a derrota foi impactante e revela que todo o time entendeu a situação. O contexto político não era positivo e o desempenho em campo era reflexo do caos:
“Empatávamos um jogo, ganhávamos outro, mas não jogávamos bem. E talvez ali foi o estopim, ainda mais contra a Argentina. Talvez, se a gente tivesse perdido para uma Colômbia, acho que seria um pouco diferente. Teria uma cobrança, mas acho que como foi para a Argentina, foi um pouco mais exagerado. Lógico que a gente também não fez um bom jogo. Foram várias circunstâncias e foi gerando uma bola de neve, e complicou para muita gente”.
Segundo o goleiro, se a Seleção faz bem dentro de campo, os problemas internos que existiam acabavam indo para debaixo do tapete. E a ansiedade de querer reverter uma situação ruim coloca ainda mais pressão nos atletas — para ele, foi o grande motivo do desempenho ruim na época.
Confiança para a Copa do Mundo
Se Ancelotti mudou tudo para melhor e Bento foi constante com o italiano até o momento, é justo dizer que ele tem boas chances de estar entre os 26 escolhidos para a Copa do Mundo. E ele mesmo acredita nisso.
Sem falsa modéstia, mas também mantendo a humildade, o goleiro do Al-Nassr acredita que todo o seu ciclo de três anos na Seleção o coloca em boa posição. Da estreia em um jogo parelho contra a Inglaterra em Wembley, que coloca como melhor momento da carreira, até as dificuldades extremas, como sobreviver a uma goleada dura para o maior rival.
Comemora Brasil! VAMOS 🇧🇷🤩🫶🏻 pic.twitter.com/bHXLFBBleF
— Bento Krepski (@Bentokrepski) October 10, 2025
“Eu acho que por tudo que eu construí na Seleção nos últimos anos, de três anos sendo convocado, tenho uma expectativa muito grande de estar entre os 26, mas a gente nunca sabe o que pode acontecer. O treinador é quem decide no final, mas tenho uma expectativa muito grande”, desabafa.
Bento deu a volta por cima na situação complicada que viveu no Al-Nassr, em que quase deixou o clube em janeiro depois de desavenças com Jorge Jesus. Agora, pode ser convocado mais uma vez para a Data Fifa de março e está a apenas mais um chamado de estar no time que lutará pelo hexacampeonato da Copa do Mundo em julho.



