Brasil

Falso nove, ponta ou referência: Qual a melhor forma de aproveitar Endrick na Seleção?

Joia do futebol brasileiro vive melhor momento desde que Ancelotti assumiu a Seleção e pode voltar ao time

Endrick chegou voando ao Lyon. São nove participações em gols em 11 partidas pelo clube francês, incluindo um início arrebatador de quatro participações nos três primeiros jogos. Isso reacendeu os debates sobre seu espaço na seleção brasileira.

O último jogo do atacante com a camisa do Brasil foi na derrota por 4 a 1 para a Argentina que antecedeu a chegada de Carlo Ancelotti. Com o italiano, desfalcou o time por duas Datas Fifa com lesões, e não retornou nas duas seguintes.

Agora, para os jogos de março contra França e Croácia, Endrick vive o melhor momento desde que chegou à Europa e pode estar na lista pela primeira vez com seu ex-técnico de Real Madrid. Mas qual espaço ele ocuparia na Seleção atual?

A Seleção que Endrick deixou é diferente da atual com Ancelotti

Endrick estreou com Fernando Diniz e teve uma boa sequência com Dorival Júnior de três jogos marcando, mesmo entrando como reserva, contra Inglaterra, Espanha e México. Sua única partida com 90 minutos foi em sua primeira titularidade, na eliminação para o Uruguai na Copa América de 2024.

Antes, o jovem ex-Palmeiras atuava na seleção como um camisa 9 mais tradicional, apesar de ter liberdade para recuar. Contra o Paraguai, em amistoso depois da Copa América, sua segunda titularidade, formou um trio de ataque com Vinícius Júnior na esquerda e Rodrygo na direita. Seu mapa de calor exemplifica como ele participava do jogo mais baixo, praticamente na linha dos meias.

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Mapa de calor de Endrick contra o Paraguai, pela Copa América de 2024 (Foto: Reprodução/Sofascore)

Já contra o Uruguai, seu posicionamento foi mais de um centroavante tradicional, em um 4-2-3-1 que teve Lucas Paquetá como camisa 10 e Rodrygo e Raphinha como pontas. Contra a Espanha, no segundo jogo de Dorival, quando entrou no intervalo no lugar de Raphinha, Rodrygo, então falso nove, virou ponta e deu a frente para o jovem ser centroavante.

No entanto, o que Endrick deve encontrar caso seja convocado por Ancelotti é um cenário diferente: um time praticamente sem um centroavante tradicional. No 4-2-4 do italiano, a dupla é formada por um falso nove puro e outro atacante de ruptura.

O camisa 9 do Lyon pode ser o atacante de ruptura, claro. O problema é sua concorrência: Vinícius Júnior. Mesmo que não viva grande momento na seleção brasileira, ainda é difícil imaginar Vini perdendo o lugar.

A questão de Endrick é a mesma de Raphinha, por exemplo — onde encaixar em um ataque que parece “redondo”. Estêvão é o artilheiro e principal jogador de ataque da era Ancelotti, enquanto Rodrygo, o melhor ponta-esquerda do período, se lesionou e abriu um espaço. Pode ser que Raphinha ocupe essa vaga como um ponta que cai por dentro, ou Vini seria deslocado para a esquerda e abriria o lugar à frente.

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Mudança no Lyon é benéfica para Endrick?

Desde que chegou ao Lyon, o jovem atacante alternou entre sua posição tradicional de camisa 9 e a ponta-direita, mas acabou tendo mais minutos pelo lado. E a mudança não foi necessariamente ruim.

Como centroavante com Paulo Fonseca, Endrick tem liberdade para recuar e se associar com os meias e cair pelo lado, para dar espaço na área aos pontas. E geralmente, independente da posição, ele tem procurado o lado direito.

Endrick durante Lyon x Paris FC (Foto: Sylvain Thomas/FEP/Icon Sport)
Endrick durante Lyon x Paris FC (Foto: Sylvain Thomas/FEP/Icon Sport)

Caindo pela direita, é o alvo de transições e teve sucesso puxando contra-ataques. Sua capacidade de condução em velocidade e bons enfrentamentos em um contra um podem ter sido uma das razões de Paulo Fonseca escalá-lo como ponta, inclusive.

Mais longe da área, apesar de parecer contraproducente, Endrick tem mostrado novas facetas do seu jogo. O camisa 9 está se mostrando um criador eficiente, principalmente em contra-ataques e perto da área. Na Ligue 1, por exemplo, tem 1,7 passe chave por jogo, segundo dados do Sofascore.

Como ponta, inclusive, o jovem do Lyon ressalta uma de suas principais características: Endrick é um atacante de muito volume. Como um centroavante que participa menos, fatalmente teria menos oportunidades de finalizar. Como alguém que pega mais na bola e geralmente ataca o gol de frente ou na diagonal, tem ângulo para bater com mais frequência.

E os números ilustram isso: nos três primeiros jogos, quando marcou três vezes e deu uma assistência, o brasileiro finalizou 16 vezes — mais de cinco por jogo, um número bem alto. Na média em seus sete jogos de Ligue 1, são 2,9 finalizações por partida.

O volume é um bom indicativo, mas também reforça que Endrick é um jovem em desenvolvimento. O alto número de finalizações também inclui chutes de pouco retorno, como as várias tentativas de fora da área quando corta da direita para o meio, ou as quatro grandes chances que perdeu no campeonato francês até aqui.

O que de fato Endrick pode oferecer ao Brasil?

Apesar de qualquer dúvida sobre qual será o quarteto ofensivo da seleção brasileira, e onde Endrick poderia encaixar nesse esquema, é fato que a joia de 19 anos oferece algo que poucos no time têm: perigo constante como centroavante.

A presença física do atacante, que por mais que seja “baixinho” ainda é forte e rápido, é algo que nenhum atacante do Brasil mostrou como grande característica na era Ancelotti. João Pedro foi quem mais chegou perto do 9 tradicional, mesmo que tenha jogado também como falso nove.

Se não for titular, o jovem ainda pode ser uma ameaça no segundo tempo para contra-ataques ou contra defesas cuja força ou velocidade possam ser exploradas. E, claro, há o faro de gol que poucos na Seleção conseguiram mostrar.

Endrick pela seleção brasileira
Endrick pela seleção brasileira (Foto: Agencia MexSport/Imago)

Endrick ainda precisa desses momentos e dessas “dores do crescimento” para refinar o seu jogo. Ter tempo de jogo é crucial para que entenda o que funciona e o que não funciona, focar nos seus pontos fortes e aparar as arestas. Tudo isso faz parte de um período de aprendizado; é a única forma de ele deixar de ser uma promessa bruta para se tornar um talento sólido.

Mesmo que seja um jovem astro e esteja sendo amplamente pedido na seleção brasileira, ainda tomará decisões questionáveis às vezes e tentará jogadas que não são a melhor opção para sair de determinada situação, o que fará seu time perder a posse de bola. Mas um Endrick ainda em formação continua sendo um grande jogador, que seria titular absoluto em vários times das cinco principais ligas da Europa.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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