Ásia/Oceania

O que a monarquia saudita tem a ganhar com a presença de Cristiano Ronaldo e outros craques?

Regime saudita tem futebol como um dos pontos importantes na reforma política que tenta “normalizar” estilo de vida no país

O futebol é amado no Oriente Médio há muitas décadas, mas só recentemente passou por um processo de globalização, principalmente pelos altos investimentos vindos do petróleo. Nesta temporada, com nova roupagem ainda mais ocidentalizada, a região vive o apogeu desse fenômeno, cultural e esportivo, graças aos esforços ($) da Arábia Saudita. 

De Cristiano Ronaldo e Neymar, a monarquia saudita não tem poupado cifras para fortalecer sua liga de futebol. As aquisições são a base do ousado projeto de privatização de clubes, que envolve os quatro principais campeões nacionais, Al-Nassr, Al-Hilal, Al-Ittihad e Al-Ahli, geridos pelo Fundo de Investimento Público (PIF).

Mas, o que a monarquia saudita tem a ganhar com a presença de CR7 e grandes estrelas do futebol mundial nessas equipes? Para responder a essa pergunta, a Trivela consultou José Antonio Lima, doutor em Relações Internacionais pela USP e editor da newsletter Tarkiz, sobre a política do Oriente Médio.

Sportswashing

O termo “sportswashing” é um tanto simplista para detalhar todo o contexto no qual a Saudi Pro League está inserida, mas explica parte dos movimentos realizados pela Arábia Saudita. 

– A Arábia Saudita tem histórico grande de violações dos direitos humanos, as principais delas cometidas atualmente no Iêmen. O fenômeno acontece, de melhorar a imagem, mas eu não acho que é só por isso que se investe (na Liga Saudita). Ainda que eu concorde que o sportswashing esteja realmente acontecendo – disse José Antonio Lima.

Por exemplo, um vídeo divulgado pelo Al-Nassr, na última segunda-feira (18), mostra o ônibus do time chegando em Teerã, capital do Irã. Historicamente, iranianos e sauditas vivem em conflito pela liderança e por influência no Golfo Pérsico. 

No entanto, dezenas de fãs de Cristiano Ronaldo perseguiram o ônibus de um time saudita. As imagens comoventes, que viralizaram nas redes sociais, tiram do holofote os conflitos políticos e o retrospecto de violações promovidas pelo regime monarca. 

– Cristiano Ronaldo é uma figura global, uma figura que agrada a todas as tribos, um cara admirado por milhões de pessoas. Esses torcedores iranianos que foram lá (atrás do ônibus), foram pelo Cristiano Ronaldo. Independentemente de rivalidade, que tem muito mais a ver com as elites econômicas, de eles serem iranianos e de ser um time saudita. O que interessa Cristiano Ronaldo, né? – afirmou o internacionalista.

Retorno financeiro

A estratégia de apostar em grandes nomes na SPL também diz respeito ao nível de expectativa que os sauditas têm em relação ao retorno financeiro. Neymar é o nome mais recente da estrelada lista no futebol árabe pela bagatela de 100 milhões de euros (aproximadamente R$ 541 milhões).

Neymar chegou ao Al-Hilal com duas lesões na coxa direita (Foto: Icon sport)

Na época em que o PSG comprou Neymar, em 2017, a equipe francesa pagou 222 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão). Foi o maior valor de uma transferência até aquele momento, mas o que parecia uma despesa, na verdade, foi um investimento. 

O clube gerido pelo empresário catariano Nasser Al-Khelaifi viu a sua receita saltar com venda de camisas e novos acordos comerciais. Em 2021, o atacante já havia gerado um “reembolso” de 489,2 milhões de euros (cerca de R$ 3 bilhões).

– Provavelmente, mas no futuro, imagino que a monarquia que isso pode ser feito sem o dinheiro do governo, né? Foi assim que foi vendida (a ideia) de aquisição desses quatro times da Primeira Divisão Saudita pelo fundo soberano. Eles vendem como uma privatização, apesar de ser um fundo estatal. O fundo estatal está investindo para que esses clubes cresçam e, eventualmente, sejam vendidos para alguma empresa privada. E isso seria o estado fomentando a economia.

Por outro lado, as aplicações não ficam restritas ao futebol, o que evidencia o projeto audacioso dos sauditas. Nos últimos anos, o país também injetou muita grana no automobilismo (F1), no UFC, no circuito de tênis e também em esportes locais, como a corrida de camelo. 

– Na minha avaliação, o intuito desse âmbito doméstico, um deles, é justamente esse de investir para que isso cresça e eventualmente traga retornos financeiros também para Arábia Saudita, que o país vira um hub de eventos esportivos. 

Ocidentalização do Oriente Médio

Ainda no âmbito doméstico, existe mais um ponto fundamental para toda a mobilização realizada pelo governo saudita na liga de futebol: a normalização do estilo de vida. Visto como um regime autoritário, restrito e fundamentalista, a Arábia Saudita promove, nos últimos anos, um processo de ocidentalização. 

– Há uma tentativa deste príncipe herdeiro de “normalizar” a vida da juventude dentro da Arábia Saudita. Ele entende que não dá mais para ser aquele país em que as mulheres não podem dirigir, em que o cinema é proibido e que as pessoas precisam, vamos dizer, buscar interesses pessoais em outros lugares. É muito comum esse fenômeno de turistas sauditas no resto do Oriente Médio, em Dubai, Beirute e etc – afirmou José Antonio.

Por fim, o futuro rei tem realizado reformas políticas e sociais cruciais, ainda que continue ferindo os direitos humanos. Além de questões mais amplas, como o fim da proibição para mulheres terem carteira de habilitação, cultura e entretenimento são focos do monarca. Inclusive, foi permitida a presença de mulheres sauditas nos estádios, desde que usem a abaya (túnica que cobre todo o corpo). 

– O príncipe herdeiro vem tentando mudar o contrato social na Arábia Saudita. O contrato social anterior dizia o quê? Que o establishment religioso é o que legitima a monarquia. O que o Salman vem tentando fazer é atualizar esse contrato de uma forma mais globalizada, “normalizando” o país. 

Foto de Livia Camillo

Livia Camillo

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário FIAM-FAAM, escreve sobre futebol há cinco anos e também fala sobre games e cultura pop por aí. Antes, passou por Terra, UOL, Riot Games Brasil e por agências de assessoria de imprensa e criação de conteúdo online.
Botão Voltar ao topo