Ásia/Oceania

Qual é a verdade? Laporte reclama da Arábia Saudita em entrevista, e depois bota culpa em tradução

O zagueiro Aymeric Laporte negou, de forma um tanto estranha, declarações sinceras que teria dado a jornal espanhol sobre o período na liga saudita

O jornal espanhol As publicou uma sincera e pesada entrevista com o zagueiro Aymeric Laporte, do Al-Nassr, neste sábado (9). O jogador teria falado de uma insatisfação geral com vários fatores no país, seja a falta de profissionalismo dos sauditas até o trânsito da capital Riade. No entanto, horas depois, o jogador francês que defende a Seleção Espanhola voltou atrás no que falou e usou as redes sociais para tentar limpar sua imagem com a torcida local. Primeiro, no X (ex-Twitter), respondeu com um emoji negativo uma publicação com as declarações que teria dado ao periódico, que foram traduzidas para o inglês e estavam descontextualizadas. Na sequência, em live no Instagram, disse que, na verdade, foi um problema de tradução e para os fãs não acreditarem em tudo que a mídia publica.

– Sobre a entrevista que eu dei na Espanha: é verdade, mas nem tudo que eu falei é o que eu penso, foi em um momento em que não estava pensando muito. Acho que a tradução não é muito boa para os outros idiomas. Eu só queria dizer que estou muito feliz aqui na Arábia Saudita. As pessoas aqui são maravilhosas. Só tenham cuidado com o que vocês ouvem, veem e leem – disse, de forma contraditória.

Na verdade, o tweet que Laporte negou não distorceu em nada sua fala em espanhol ao As. Não há nenhum problema de tradução, são apenas suas aspas, de forma literal, só que em outro idioma – apesar de não haver contexto. Sua explicação ainda perde o sentido porquê, no fim, ainda fala em “ter cuidado com o que leem”, uma forma de culpar quem publicou a conversa. A entrevista foi feita ao jornalista Juan Jiménez Salvadó, editor-chefe do jornal espanhol, que ainda não se posicionou sobre o assunto e tem sofrido ataque dos fãs sauditas nas redes sociais.

Laporte coloca emoji negativo em publicação sobre entrevista ao As (Foto: Reprodução/X)

A entrevista de Laporte ao jornal As

São apenas seis meses desde que a Arábia Saudita tornou-se o destino de vários jogadores europeus, em fim de carreira ou não, partindo em busca dos milhões do fundo soberano do país. Cristiano Ronaldo abriu o caminho ainda em janeiro do ano passado, e depois, na janela de verão de 2023, foi a vez de Karim Benzema, Neymar, Sadio Mané e outros. O inglês Jordan Henderson foi um dos que chegaram em julho, mas não se adaptou bem a cultura do país e já trocou o Al-Ettifaq pelo Ajax. Laporte demonstrou insatisfação parecida ao capitão da Inglaterra.

O zagueiro do Al-Nassr de CR7, Mané, Marcelo Brozovic, detalhou como tem sido negativa sua experiência na Arábia – e ele revelou que a decepção não está só nele. O francês falou como os sauditas não ajudaram na adaptação dos europeus.

– É uma grande mudança em relação à Europa, mas no final é tudo adaptação. Eles [sauditas] não facilitaram as coisas para nós. Na verdade, tem muitos jogadores que estão insatisfeitos, mas estamos trabalhando nisso todos os dias, negociando, por assim dizer, e ver se melhora um pouco porque isso é uma novidade para eles também, tendo jogadores europeus que já têm uma longa carreira. Talvez eles não estejam acostumados com isso e tenham que se adaptar com um pouco mais de seriedade – detalhou o defensor.

A falta de profissionalismo citada por Laporte é detalhada em um aspecto bem grave: voltar atrás em contratos assinados. Se a questão financeira talvez seja o mais importante fator da liga, não cumprir com a palavra deve ser extremamente frustrante para esses atletas.

– Em todos os sentidos [a decepção], mas também na vida cotidiana. A vida para eles… eles levam tudo com leveza. O ultimato que você pode dar a eles não importa para eles. Quero dizer, eles estão realmente cuidando de seus negócios. Você negocia algo e eles não aceitam depois que você assina. Eles brigam com você… É um pouco chato isso, na Europa eu não sei… Claro, a mesma coisa que eles tiram de você e te dão em outros aspectos. Falo por experiência própria e não sei como é a experiência dos outros. Da minha parte, o que tenho visto é que tentam te trazer para dentro, mas depois tem o dia a dia e isso é diferente. – desabafou.

Ele falou como era “melhor cuidado” em comparação ao período na Europa. Não que os árabes não tratem bem os jogadores, mas, para o zagueiro, “não é o suficiente”. Laporte também está frustrado com o trânsito em Riade, o que desanima até para sair de casa.

– Para ser sincero, muitos de nós também viemos aqui não só pelo futebol. Muitos de nós estamos felizes com isso, mas também estou buscando algo além que não seja a parte econômica e tal. Em termos de qualidade de vida esperava algo diferente porque afinal aqui você passa três horas por dia no carro. Riade é uma perda de trânsito, de tempo perdido no carro – reclamou, emendando:

– Tem pontos muito bons e muitos outros ruins. Os centros comerciais são verdadeiramente espetaculares. Eles cuidam bem dos detalhes, têm muitas coisas para as crianças, está tudo limpo. Mas eu já te contei. Se você tem que ir a algum lugar e fica uma hora e meia no carro, você nem quer ir. O trânsito é um ponto negativo.

As reclamações não pararam. O zagueiro também criticou o calendário, com jogos de três em três dias e poucas folgas após os períodos de Data Fifa.

– Acontece que quase nunca estamos em casa, porque jogamos a cada três dias e é cansativo. Eu diria que é mais cansativo do que chato. São muitos jogos disputados e muito próximos, e isso não permite descansar muito. Entre isso e depois você vai para a Seleção Nacional e não te dão folga e tal. Mental e fisicamente é complicado, mesmo que o ritmo seja diferente ou um pouco menor. É algo difícil. Jogamos a Copa, a Liga Saudita, os Campeões Asiáticos… – afirmou.

As reivindicações, no entanto, não o fazem querer largar o projeto nesse momento, mas, caso permaneça da mesma forma, poderá pensar em sair da Arábia Saudita.

– Não [penso em sair], vamos ver. No momento não pensei nisso, mas se estou decepcionado em tão pouco tempo, você se pergunta o que fazer. Esse momento ainda não chegou, mas no futuro poderá chegar se esta dinâmica continuar – disse.

Nascido em Agen, no lado francês do País Basco, Laporte foi revelado pelas categorias de base do Athletic Bilbao, onde atuou em 222 partidas até ser vendido ao Manchester City, em 2018. Na Inglaterra, sofreu com lesões graves em alguns períodos, mas conseguiu fazer parte da rotação da defesa de Pep Guardiola, participando das principais conquistas do clube. Chegou à Arábia Saudita por 27,5 milhões de euros e o Al-Nassr não deve liberá-lo tão fácil em uma saída.

Foto de Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius Amorim

Carlos Vinicius é nascido e criado em São Paulo e jornalista formado pela Universidade Paulista (UNIP). Escreveu sobre futebol nacional e internacional no Yahoo e na Premier League Brasil, além de esports no The Clutch. Como assessor de imprensa, atuou no setor público e privado.
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