Um passo para trás: árbitra que seria primeira mulher a apitar no Irã é retirada de partida
Mahsa Ghorbani ficaria no VAR de maior clássico do Irã, mas pouco antes do jogo, autoridades vetaram a participação da árbitra
Cada vez mais mulheres ganham espaço no futebol. Seja em campo, com o surgimento de novas jogadoras, e seja também nas arquibancadas, com um público mais diverso, seja nos jogos de times masculinos e também femininos. Mas em certos locais, a luta contra o machismo e pelo direito de mulheres trabalharem no esporte segue parecendo uma utopia, ainda difícil de se superar.
Esteghlal e Persépolis fizeram nesta quarta-feira (13) o clássico de Teerã, pela Liga Iraniana. O jogo, que terminou com um empate sem gols, tinha a expectativa de ter uma árbitra escalada para um jogo de futebol masculino pela primeira vez na história do Irã. Entretanto, poucas horas antes da partida, as autoridades locais descartaram a possibilidade de Mahsa Ghorbani estar envolvida no jogo.
– Foi uma decisão tomada pelo Comitê de Arbitragem, com o objetivo de eliminar todas as possíveis polêmicas – disse Soheil Mahdi, presidente da Liga de futebol local, em entrevista à agência estatal IRNA. O pronunciamento do mandatário foi bastante breve, e ele sequer explicou com todas as letras qual seria a polêmica.
Participação de árbitra seria restrita ao VAR
Ghorbani, que tinha a expectativa de participar do jogo, não seria exatamente a árbitra a comandar a partida no Azadi Sports Complex. Na verdade, sua participação seria limitada ao VAR. Porém, nem isso foi permitido pelas autoridades locais. No lugar dela, Saadolah Golmoradi foi o escolhido para comandar o árbitro de vídeo.
Desde a Revolução Islâmica, ocorrida há 45 anos, as mulheres tiveram seus direitos bastante restritos no país asiático. O país passou a ser comandado por um regime em que aiatolás são líderes supremos, sendo a religião o principal poder do Irã. Desde então, o papel das mulheres ficou mais restrito à procriação e a cuidar da família. Elas sequer podem deixar o cabelo à mostra, e são obrigadas a usarem véus. As Forças Armadas, o poder judiciário e parte do legislativo são comandados pelos líderes religiosos.
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Mudanças a passos (bem) lentos
Mas muito aos poucos, em um processo bastante lento, mulheres passaram a ter mais direitos relacionados ao esporte dentro do Irã. Em 2019, 2500 mulheres foram autorizadas a irem ao estádio pela primeira vez desde a revolução, para um jogo entre Irã e Cambodja, após muitas pressões da FIFA.
Em janeiro do ano passado, novamente mulheres puderam ir ao estádio, para um jogo contra a seleção do Iraque. Desde então, elas passaram a poder frequentar estádios, mas ainda em um número bastante pequeno e em casos específicos. Ainda falta muito para que as mulheres ganhem espaço no Irã. Caso Mahsa Ghorbani fosse autorizada a participar do maior clássico do futebol asiático, seria um passo bastante importante e simbólico. Mas ainda falta um pouco mais para que as autoridades autorizem. Infelizmente.



