Vidinic, o goleiro das decisões que tirou a Iugoslávia da fila em Roma-1960

A história do goleiro Blagoje Vidinic, que fez história pela então seleção da Iugoslávia

As medalhas de prata do Brasil nos Jogos Olímpicos de Los Angeles-1984 e Seul-1988 não foram a única sequência de vices no torneio olímpico de futebol. Aliás, não foram nem sequer a maior sequência de medalhas de prata: o feito cabe à Iugoslávia, que amargou três derrotas seguidas em decisões para enfim sair da fila nos Jogos de Roma-1960, tendo no gol no dia da decisão um homem que faria história como um desbravador do futebol: Blagoje Vidinic.

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Para saber mais sobre outras estrelas dos Jogos de Roma, ouça o episódio 16 do OlimpCast

A história de tropeços começa no retorno dos Jogos após a Segunda Guerra Mundial, em Londres-1948, quando a própria Iugoslávia ainda se reconstruía como país unificado sob a liderança do marechal Josip Broz Tito, que havia sido um dos comandantes da resistência ao nazismo no país. Ele levou em frente um projeto que previa a mescla dos diversos povos eslavos, promovendo migrações entre as diferentes repúblicas e apostando no esporte como elemento de integração (o Fronteiras Invisíveis do Futebol #54 disseca bem a história).

Assim lá foi a seleção iugoslava representar o país em Londres. Como já contamos em outros textos desta coluna, o veto a atletas profissionais tirou jogadores de ponta das principais seleções europeias e deu boas chances aos países sob a influência da União Soviética, onde o esporte era, ao menos formalmente, amador, e os jogadores remunerados como funcionários do governo, das forças armadas ou de empresas estatais.

Vidinic ainda era um adolescente de 14 anos incompletos que vivia em Skopje, capital da atual Macedônia do Norte, então uma das repúblicas que formavam a Iugoslávia, e possivelmente acompanhou pelo rádio a equipe que surpreendeu a anfitriã Grã-Bretanha nas semifinais com uma vitória por 3 a 1, mas não resistiu ao trio Gre-No-Li e acabou batido pela Suécia na decisão.

Quatro anos mais tarde, em Helsinque-1952, a Iugoslávia levou um time renovado, com apenas quatro remanescentes da campanha anterior. E, depois de atropelar a Índia com um 10 a 1 na fase de classificação, protagonizou um dos maiores momentos da história dos Jogos Olímpicos diante da União Soviética: um empate por 5 a 5, em que o time vencia por 5 a 1 até os 30 minutos do segundo tempo, quando Trofimov marcou o gol que iniciou a reação soviética até o empate. Seria uma pipocada gigantesca, mas, dois dias depois, no jogo extra, a Iugoslávia venceu por 3 a 1, de virada.

Venceu ainda a Dinamarca, por 5 a 3, e a Alemanha Ocidental, por 3 a 1, mas o peso do jogo disputado a mais foi sentido diante da mágica Hungria de Puskas, que fez 2 a 0 e celebrou o ouro. A essa altura, Vidinic já era um jovem goleiro talentoso revelado pelo Vardar Skopje, um dos principais clubes da Macedônia e que jogava a liga centralizada da Iugoslávia. Era conhecido pela coragem e pelo porte físico avantajado, com 1,98 m, altura rara para um jogador de futebol na época.

Em 1956, o jovem Blagoje já havia partido para o FK Radnicki, time do subúrbio de Belgrado que tentava se firmar como terceira força na capital, dividida entre o Estrela Vermelha e o Partizan. E foi selecionado para ir à Austrália disputar os Jogos de Melbourne, que seriam realizados apenas no fim do ano, em novembro, para manter a alcunha de “jogos de verão” na primeira viagem olímpica ao Hemisfério Sul.

Sem a Hungria, que teve seu time desmontado com a deserção de vários jogadores após a invasão soviética a Budapeste, um mês antes, e outras quatro seleções que desistiram na última hora (Turquia, Egito, Vietnã do Sul e China), o torneio ficou capenga, com 11 seleções, e a Iugoslávia estreou direto nas quartas de final, atropelando os Estados Unidos por 9 a 1.

Vidinic, porém, não estava no gol: o técnico Milovan Ciric, que acumulava o comando da seleção com o do Estrela Vermelha, preferiu escalar Petar Radenkovic, que jogava em outro clube menor da capital, o BSK. Mas, no jogo seguinte, Vidinic foi a campo, e a equipe bateu a surpreendente Índia por 4 a 1. Na decisão, de novo a União Soviética, que já tinha em sua meta o astro Lev Yashin. E desta vez, em vez de um carnaval de gols, o que se viu foi um duelo truncado, em que os soviéticos levaram a melhor com um solitário gol de Anatoli Ilyin aos 3 minutos do segundo tempo. Radenkovic foi a campo, e Vidinic viu do banco a frustrante derrota e o incrível tri-vice.

No ano seguinte, o goleiro viveria uma decepção ainda maior: seu time, o Radnicki, chegou à final da Copa da Iugoslávia contra o Partizan. O time chegou a abrir 3 a 0 antes dos 30 minutos, mas levou a virada por 5 a 3. Preterido pelo técnico Aleksandr Tirnanic na convocação para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, só voltou ao radar da seleção em 1960 para disputar a nascente Eurocopa, disputando a posição com outro novato, Milutin Soskic, do Partizan.

Nos mata-matas preliminares, em jogos de ida e volta, a Iugoslávia eliminou a Bulgária e depois Portugal. Na fase final, Soskic foi a campo no Parque dos Príncipes para a incrível vitória por 5 a 4 sobre a anfitriã França, que chegou a estar vencendo por 4 a 2; na final, Vidinic teve sua vez, e a equipe novamente naufragou contra a União Soviética, que venceu por 2 a 1.

Essa decisão foi em 10 de julho, e um mês e meio depois a seleção estava novamente em campo, agora na Itália, para mais um torneio olímpico e a tentativa de acabar com a sequência de medalhas de prata. Soskic foi a campo nas três partidas da primeira fase: 6 a 1 no Egito, 4 a 0 na Turquia e 3 a 3 com a Bulgária. Vidinic, porém, foi quem teve a chance nos mata-matas, e desta vez ele e o país enfim tiveram a sorte a seu lado.

Nas semifinais, com a Itália, o empate por 1 a 1, na prorrogação, levou a decisão da vaga na final para o sorteio – não havia data para jogo extra e a decisão por pênaltis ainda não tinha sido estabelecida. Pois, na moeda, os visitantes levaram a melhor e partiram para a decisão contra a Dinamarca, que ainda não havia profissionalizado seu futebol e pôde levar força máxima. Com gols de Galic, Matus e Kostic, os eslavos venceram por 3 a 1 e enfim acabaram com o jejum. Abaixo, você pode ver os gols da decisão. Neste link, o jogo na íntegra.

Seria o fim da linha na seleção para Vidinic, que encerrou sua passagem com um aproveitamento excelente para quem, ao fim, acabou tendo diversas convocações, mas fazendo apenas oito jogos: duas medalhas olímpicas e um vice europeu. Em 1962, transferiu-se para outro time de menos fama em Belgrado, o OFK, pelo qual venceria enfim a Copa da Iugoslávia.

Depois, foi explorar o mundo, jogando no Sion, da Suíça, e nos Estados Unidos, por San Diego Toros e San Luis Stars, times da NPSL, a primeira tentativa de organizar uma liga de soccer. Aposentou-se em 1969 e virou técnico, um dos vários iugoslavos que se espalharam pelo mundo como treinadores naquela época – alguns deles seus eventuais companheiros de seleção, como Vladica Popovic e Todor Veselinovic.

Vidinic atravessou então outra fronteira: na Copa de 1970, no México, treinou a seleção do Marrocos, a primeira africana a disputar um Mundial desde o Egito em 1934. Depois, acertou contrato com o Zaire, que comandou  em seu período de auge, o título da Copa das Nações de 1974 e a conturbada participação na Copa do Mundo na Alemanha Ocidental.

 

Permaneceu no país até 1976, quando cruzou o Atlântico para treinar a Colômbia. E pôde colocar no currículo o fato de ter ajudado a derrubar um técnico da Seleção Brasileira, uma vez que Oswaldo Brandão foi demitido depois do 0 a 0 entre as duas seleções no jogo de estreia pelas Eliminatórias em 1977, em Bogotá, num tempo em que empatar com a Colômbia era causa de crise (embora o veterano treinador já estivesse às turras com os dirigentes da então CBD e o resultado tenho sido apenas a desculpa que faltava).

Vidinic ainda seguiu na Colômbia até 1979, deixando o cargo após a eliminação na primeira fase da Copa América, e então se aposentou, ainda jovem, com 45 anos muito bem vividos em nome da bola. Morreu em 2006, aos 72 anos.