Os oito de Leiria

Vez por outra, estoura aquela notícia-bomba de que os jogadores de um determinado clube podem entrar em greve a qualquer momento, em virtude do atraso de pagamento de salários, direito de imagem, premiações e o que mais os dirigentes conseguirem ficar devendo a eles. A bomba costuma se revelar um singelo traque de massa ainda no decorrer do dia, quase sempre com o clube fazendo um esforço de última hora para saldar a dívida ou pelo menos diminuí-la. No Brasil, os atrasos costumam não ultrapassar os três meses, porque completado esse prazo sem receber seus vencimentos, o atleta ganha o direito de se desvincular, de acordo com a lei trabalhista que rege os contratos de nossos jogadores de futebol. Ou seja, em um clube desorganizado, você receberá seu salário com apenas dois meses e três semanas de atraso. Sem falta!

Nada impede que um clube seja vítima de falta de planejamento ou mal uso de verbas e viva esse tipo de situação. Pode acontecer com grandes ou pequenos, de países em crise ou em franco desenvolvimento, municiados por grandes investidores ou que dependam da modesta contribuição de sua torcida. O problema vai sendo empurrado com a barriga, mas às vezes a corda arrebenta. Já tivemos casos de rodadas adiadas por greves de jogadores e até paralisação geral, como a que atrasou os trabalhos da atual edição do campeonato peruano. De repente, o clube pode decretar falência. Se já inserido no contexto capitalista, muda de dono, vide Portsmouth. Se ainda for conduzido de forma mais amadora, pode ser forçado a ser administrado como empresa, como aconteceu com o Racing de Avellaneda, ou acabar rebaixado a uma divisão inferior e refundado, como a Fiorentina.

Mas o que foi visto nesse domingo deve ser inédito, ao menos em campeonatos deste porte. O União de Leiria, da primeira divisão portuguesa, viu uma debandada de seus atletas, que estão há cinco meses sem receber. A apenas duas rodadas do fim da liga local, 16 pediram demissão. Um relato mais detalhado sobre a situação pode ser lido aqui, na coluna de Lincoln Chaves. Ontem, apenas oito foram a campo, para deleite dos fotógrafos, que registraram a cena inusitada, certamente estampada em todos os cadernos esportivos lusitanos. A escalação: Oblak; Shaffer e Nicklas (jogadores emprestados pelo Benfica); Djaniny (que já tem contrato para defender a equipe da capital na próxima temporada), Filipe Oliveira e Pedro Almeida (juniores); John Ogu e Alhafith (dois dos que rescindiram seus contratos). Esquema tático? Quem se importa? Só garanto que Oblak era o goleiro.

Os oito bravos sobreviventes resistiram o quanto puderam, mas acabaram vendo o Feirense abrir o placar, pouco antes do intervalo. No segundo tempo, a porteira se abriu, só que a derrota por 4 a 0 pode até ser considerada um placar honroso. Para piorar ainda mais o clima, o presidente do clube, João Bartolomeu fez uma acusação séria. Disse na coletiva pós-jogo que o time alinharia com nove jogadores, mas que um dos que assinaram a súmula, o meio-campista Keita, teria roubado uma mala de dinheiro da agremiação e sumido com ela.  Se não tivesse entrado em campo para cumprir tabela, literalmente, o Leiria seria rebaixado (o que acontecerá de qualquer maneira, já que o clube é o lanterninha do campeonato) de forma automática e teria de pagar uma multa.

Existem rumores de que aqueles que entraram em campo só o fizeram porque foram coagidos pela diretoria do clube. Verdade ou não, viraram heróis de uma história que, esperemos, nunca tenha de ser recontada. É legítimo e aconselhável que o trabalhador deixe seu emprego quando não tem seus direitos respeitados; os vilões da história são aqueles que não cumpriram com seus compromissos para com os 14 desertores, e mais os dois que deram a cara a tapa contra o Feirense. Por outro lado, é bonito ver o sacrifício de alguém que, em condições tão adversas, foi a campo na tentativa de preservar um pouquinho da honra do Leiria, cuja torcida nada tem de culpada na situação.

O que aconteceu ontem pode ser visto de forma cômica, trágica ou heroica. Pode também servir de alerta para clubes do mundo inteiro, que insistem em se equilibrar em uma corda bamba de dívidas contraídas com seus profissionais. Em qualquer uma das interpretações, os oito de Leiria escreveram seus nomes na história. Mas todos nós desejamos que eles voltem a ser onze, o mais breve possível.

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Equipe Trivela

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