Portugal

Desunião em Leiria

União de Leiria e Feirense deveriam se enfrentar neste domingo pela 28ª rodada do Campeonato Português, mas há uma enorme possibilidade do jogo não ocorrer. Isso porque 16 jogadores do time leiriense rescindiram contrato na sexta, devido a cinco meses de salários atrasados pelo clube. A situação chegou ao ponto de, no treino de sábado, apenas três atletas terem se apresentado para as atividades – dois cedidos pelo Benfica (Shaffer e Djaniny) e o goleiro Gottardi (que está lesionado). A sociedade anônima desportiva (SAD) da agremiação não reconheceu as rescisões e convocou todos para o jogo de domingo, mas o Sindicato dos Jogadores Profissionais já garantiu que os atletas não vão a campo.

O caso do Leiria – que, aliás, é o lanterna do Português e já poderia cair de divisão neste final de semana – recebeu grande atenção da mídia na última semana. Uma das razões, claro, são as consequências que se desenham para o futuro do clube. A primeira delas é que, se não entrar em campo diante do Feirense, a UDL será automaticamente rebaixada por tal jogo estar marcado para uma das três últimas rodadas do campeonato. Caso isso ocorra, abrir-se-ão as portas para inúmeras polêmicas jurídicas, tanto pelos processos que virão por meio dos acionistas da SAD leiriense como pelo embate entre o clube e os próprios atletas – este último “garantido” pelo próprio presidente João Bartolomeu, que é também um dos acionistas do clube.

A troca de farpas é constante. Presidente do Sindicato dos Jogadores, Joaquim Evangelista questionou o fato do Leiria, após receber quase 5 milhões de euros em direitos de televisão e venda de jogadores, não ter condições de pagar o elenco. Criticou também a Liga de Clubes por não ter assumido a dívida e depois negociá-la diretamente com a agremiação – como ocorre na Espanha, segundo Evangelista. Disse, ainda, que o fundo de garantia salarial criado em 2008 para apoio ao já extinto Estrela da Amadora está esgotado devido a “outros casos” de lá para cá. A Liga, por sua vez, contestou a gestão do fundo (feita pelo Sindicato), garantindo que nos últimos três anos ela própria contribuiu com mais de 200 mil euros.

Já Bartolomeu disparou contra a mudança “repentina” e, segundo ele, “premeditada”, nas conversações com os jogadores – que na última hora teriam exigido o pagamento dos cinco meses atrasados, ao invés dos três que se estava negociando durante a semana. A “metralhadora” também apontou à Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que conforme o presidente, estaria usando o caso leiriense para provocar o fim da Liga de Clubes e retomar o domínio sobre o futebol profissional. Por fim, o mandatário defendeu que, caso se confirme o não comparecimento dos atletas e as punições que virão, o Leiria abandone o futebol profissional, seguindo o triste caminho vivido pelo supracitado Estrela da Amadora, há pouco tempo.

O curioso é que o União de Leiria, que regressara a primeira divisão em 2009/10, vinha de duas temporadas bem regulares na elite, formando times relativamente competitivos e revelando bons e jovens jogadores, como o goleiro Mika e o meia Ruben Brígido. Mas o ambiente no Vale do Lis já não era dos melhores há algum tempo. Nesta temporada, o clube rescindiu contrato com a Leirisport, administradora do Estádio Municipal de Leiria (belíssimo, construído especialmente para a Euro 2004 e um verdadeiro elefante branco esportivo, com histórico de públicos pífios em jogos do Leiria – quase como em Aveiro, nas partidas do Beira-Mar), e tem mandado suas partidas em outra cidade (Marinha Grande).

Embora seja o mais grave, o caso do União de Leiria não é uma exceção. Apesar da Liga de Clubes garantir que até o último mês de 2011 não havia equipes com salários atrasados nas duas primeiras divisões, ela própria reconhece que a situação financeira do futebol local é delicada. Um exemplo conhecido é o Vitória de Guimarães, que só agora conseguiu quitar as dívidas salariais de dezembro, mas cuja crise contou com alguma “compreensão” entre jogadores e diretoria. O próprio Sporting, embora esteja com os salários em dia, está com o caixa vazio, com a necessidade de reduzir entre 6 e 8 milhões de euros o orçamento, sob pena até mesmo da UEFA não aceitar os Leões nas competições continentais em 2012/13.

Que Portugal é um dos países que mais sofrem com a crise financeira que assola a Europa e que tais efeitos logicamente recairiam sobre o futebol, já se sabe. Até por isso, e tendo em vista o exemplo que acabou se tornando o União de Leiria, o questionamento deixado pelo presidente do Porto, Pinto da Costa, acerca do polêmico (e aqui já abordado) projeto de alargamento da Liga de 16 para 18 clubes a partir da próxima temporada, é bem pertinente e reflexivo. “Se há um clube que desiste a três jornadas do fim, podendo alterar os resultados, se há clubes que, com muito sacrifício, não conseguem não ter três ou quatro meses de salários em atraso, pergunto como é que podemos ter mais clubes na primeira divisão?”.

Sonhando com a LC

Talvez o Sporting fosse único time cujo ímpeto em fazer bonito na atual Liga Europa era equiparável ao do Athletic Bilbao. Um deles, no entanto, seria eliminado na última quinta-feira, e coube ao time português dar adeus à competição, após ser derrotado em San Mamés por 3 a 1. A vitória basca no jogo de quinta foi justa. Ao longo dos 90 minutos, foi o time que mais buscou o gol, enquanto os Leões de Lisboa preocuparam-se mais com a defesa. No entanto, o cenário presenciado em Bilbao não foi lá muito diferente do que se viu em Alvalade, na semana anterior. Em Portugal, o Sporting mandou na partida do começo ao fim e, não fosse a pontaria, certamente teria ido para a Espanha com uma vantagem maior – que fez falta.

Apesar da eliminação, o Sporting deixa a Liga Europa de cabeça erguida. Primeiro, pela campanha no torneio, deixando para trás times como Lazio e o milionário Manchester City. E segundo, pela retomada de confiança do grupo – afinal, foi por meio dos avanços europeus que Ricardo Sá Pinto “ganhou” o elenco. Os tropeços recentes do Braga e a evolução técnica da equipe via Liga Europa dão margem até para se pensar em vaga na Liga dos Campeões, já que a diferença para os bracarenses é de apenas seis pontos (o Sporting ainda jogará pela 28ª rodada – na qual o Braga foi derrotado em casa pelo Olhanense – e pode reduzir a distância para três pontos). Isso porque ambos se enfrentam na última rodada. E em Lisboa.

Liga de Honra

O Estoril adiou por pelo menos mais um dia a confirmação do acesso à primeira divisão ao empatar sem gols com o Santa Clara, em casa. A equipe foi a 53 pontos, seis a frente do vice-líder Moreirense (que encara a Naval) e sete diante do Desportivo Aves (que recebe o Penafiel). No entanto, a confirmação do acesso pode vir já nesse domingo, caso o Aves não derrote o Penafiel. Quem vem em ascensão é o tradicional Belenenses, que aplicou 3 a 0 no Arouca e atingiu o sexto lugar na tabela, com 37 pontos. Olho também na briga contra o rebaixamento, que reúne pelo menos mais sete times – Sporting da Covilhã e Freamunde ocupam, hoje, as duas últimas posições do torneio.

Mea culpa

O colunista pede desculpas pela demora na publicação da coluna, ocorrida em decorrência de problemas de saúde.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo